segunda-feira, 15 de setembro de 2008

CONTRA O BRASIL

Já chamaram a José Mojica Marins o “Glauber Rocha do cinema de horror brasileiro”. Glauber Rocha, ele próprio, disse que Mojica era “um artista primitivo e um autêntico cineasta” (e Mojica integrou essa declaração em “O Despertar da Besta”, um filme de 1970 que está entre os que vão ser exibidos no MOTELx). E isto é praticamente tudo o que pode ser dito como associação entre a obra de José Mojica Marins e o movimento do “cinema novo” que nos anos 60 e 70 foi o principal rosto da cinematografia brasileira. “Quando os meus filmes foram censurados, nem Glauber nem os outros levantaram um dedo ou disseram uma palavra para me ajudar ou para me defender” – desabafou Mojica, anos mais tarde (mas é preciso lembrar que Glauber e os outros tinham os seus próprios problemas com a censura). Censurados, amputados, foram quase todos os seus filmes mais célebres, e “O Despertar da Besta” esteve proibido entre 1970 e… 1990. “Não acho que faça filmes políticos, mas a polícia acha que sim e por isso já me prendeu duas vezes”. Um membro da comissão de censura brasileira moveu mundos e fundos à procura de autorização para queimar todos os negativos dos seus filmes (autorização não concedida). Contra o Brasil? Contra o Brasil filma Mojica Marins.

Um Brasil de interior, cinzento e tacanho, ainda muito parecido com Portugal (um país do Padre e do Senhor Doutor), em rigoroso culto da hierarquia social e da família cristã. Foi deste Brasil que, para escândalo do Padre e do Senhor Doutor (que depois lhe quiseram queimar os filmes), emergiu Zé do Caixão, “alter ego” cinematográfico de Mojica Marins, protagonista dos quatro filmes que o MOTELx vai exibir – “À Meia-Noite Levarei sua Alma” (1964), “Esta Noite Encarnarei em teu Cadáver” (1967)”, o citado “Despertar da Besta” e, estreado no Brasil já em 2008, “Encarnação do Demónio”, última aventura de Zé do Caixão, agora assombrando o país de “tropa de elite”. Zé do Caixão, cangalheiro de profissão, é um megalómano céptico, nihilista, um pouco nitzscheano – não acredita em Deus nem no Diabo, nem em alguma coisa depois da morte, tudo patranhas (acha ele) para manter o povo na ordem. Contra a irredímivel finitude da existência, apenas uma resposta, tão física como a existência: o sangue e a hereditariedade. E Zé do Caixão põe-se à procura da “mulher perfeita” com quem fundir o seu sangue.

Um erotismo sádico, mórbido, visionário, percorre os seus primeiros filmes, abundantes em cenas e sequências “cerimoniais”, à medida que Zé testa a “perfeição” das mulheres que encontra. Mojica foi muito acusado de “misoginia”, por causa, defendeu ele, da incapacidade geral para discernir entre autor e personagem. Mas mais do que misoginia no seus filmes há uma misantropia, encenada, teatralizada, em muito estreita “décalage” entre a visão do mundo da personagem e o modo como é restituída pelo ponto de vista do cineasta (e desta fusão, que coexiste com um “realismo social” e se insere nele, nasce o poder subversivo da saga de Zé do Caixão). Zé do Caixão, presença quase hierática, é um descendente dos monstros e dos vilões megalómanos dos filmes de terror americanos dos anos 30, e os seus modelos são obviamente Boris Karloff e Bela Lugosi, os actores preferidos de Mojica. No ADN deste “gótico brasileiro” identificaríamos ainda alguma pintura, a Bíblia, o Dante da “Divina Comédia” (em “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” há uma fabulosa imaginação do Inferno, plena de choro e ranger de dentes), a poesia com cheiro a sepulcros e a flores do mal, o surrealismo buñueliano (da fase mexicana, sobretudo). Um “artista primitivo”, dizia Glauber - ou seja, alguém que filma como se estivesse no tempo antes das convenções, mas que vai mais longe, nesse estado “em bruto”, do que os que só têm o inócuo refinamento das convenções para mostrar. Se querem desenjoar do tão celebrado (e tão medíocre) Guillermo del Toro, vão descobrir José Mojica Marins.

Luís Miguel Oliveira

6 comentários:

Evandro Duarte disse...

Guillermo del Toro.
Guillermo del Toro.
Guillermo del Toro.
Definitivamente esse Luís não assistiu Hellboy 2 (http://quaseumrickblaine.blogspot.com/2008/09/do-inferno.html).

bruno andrade disse...

Pô Evandro, aquele O Labirinto do Fauno é uma imensa bosta.

Heraclito disse...

eu simpatizo com o Del Toro, mas Mojica eh Mojica!!!

Evandro Duarte disse...

Não vi O Labirinto do Fauno.
E, estou falando de Hellboy!
Eu li gibis do Batman quando mais novo e, recentemente do Hellboy.
O Tim Burton e o Del Toro manjam de coligar cinema e HQ. Experimenta assistir depois de ler uma boa história.

Miguel disse...

Não lembro mais quem foi o cineasta que ficou fascinado com a tal cena do inferno e disse ao Mojica em absoluto estado de ânimo:

Pô, Mojica, o Dante ficaria maravilhado a ver isso.

Em sua ingenuidade, o mestre respondeu: Podem trazer o rapaz para ver a rodagem.

bruno andrade disse...

Foi Glauber.

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