sábado, 22 de novembro de 2008

Revendo Asas do Desejo.

Adorava na adolescência (idade ingrata...). Lembranças muito boas.

Filminho complicado. Não chega a ser de todo ingrato às lembranças, mas não creio que vá muito além da pecha (que, aliás, busca para si) de "experiência", de "sensorial", e no pior das hipóteses de "inesquecível" - neste sentido, a cena da Solveig Dommartin balançando lenta e grotescamente ao som de Nick Cave e um final no qual o cineasta decide usar uma réplica da fachada do Muro de Berlim como fundo para o letreiro de sua dedicatória aos "anjos Yasujiro, François e Andrei" deflagram perfeitamente as objeções a serem feitas:

1) Em si mesmas as coisas já são cenários - o Muro de Berlim, a biblioteca, o circo Alekan, apartamentos de conjuntos habitacionais, um show de Nick Cave and The Bad Seeds, o galpão onde rodam o filme estrelado por Peter Falk (cuja presença é igualmente "cenarística" - e sim, busco neste termo sua confusão inevitável), parques, praças, ruas, destroços... Berlim... O céu e a terra... "Réplica", "fachada", "muro", "fundo", "letreiro", "dedicatória"... Mas afinal, onde está a cena? Esta deve ser procurada em outros lugares, por exemplo em alguns dos filmes e cineastas que Wenders insistentemente faz questão de homenagear, eles mesmos cenários de tais homenagens.

2) Mas isso tudo é muito teleológico, muito teórico, e portanto pouco importante. O que de fato importa é o seguinte: o que seria de Wenders sem a prosa de Peter Handke, o sentimento de errância evocado por Sam Shepard, a perspicácia e a inteligência analítica de Robert Kramer? (Desta pergunta já conhecemos a triste resposta). O que seria Wenders, o que seria Scorsese (sim, ele, mais uma vez), senão perfeitos publicistas de roteiros de outros? Quer esse outro se chame Peter Handke, Sam Shepard, Robert Kramer, quer se chame Paul Schrader, Richard Price ou Nicholas Pileggi (e no que tange a ausência destes, melhor deixar que O Aviador e Os Infiltrados se pronunciem), a solução - e o fato de haver uma os conduz ainda mais rapidamente ao problema - é sempre a mesma: fazer o roteiro deslizar, procurar em meio a uma profusão de cenários sua "cena arrebatadora" (© Syd Field). O problema: não restam cenas - visto que estas "não restam" - e o arrebatamento, apesar de incessantemente procurado, não tem como surgir a partir de condições tão pouco ideais, tão pouco fecundas, tão pouco surpreendentes.

3) Há algo de engraçado nisso tudo quando paramos para pensar na ladainha inventada sobre os cineastas de outrora serem pouco mais que eficazes ou fastidiosos ilustradores de roteiros, ladainha que uma vez posta contra a evidência dos filmes revela de uma só vez sua intensa, infeliz e conveniente falsidade: o que permanece após se assistir uma quantidade suficiente de Ford, de Dwan, de Hawks, de Hitchcock, de Lang, Walsh, King, Tourneur, Cottafavi, Cimino, Mizoguchi, Preminger, John Flynn, Ozu, Renoir, Griffith e o escambau - Rivette, Brisseau, Fassbinder, Godard, Costa, Straub, Paradjanov, Resnais, Oliveira, Rohmer, Imamura, Rousseau, Vecchiali, Olmi -, o que fica é esse sentimento de aventura, de liberdade, de desprendimento, de teatro em suma, da realização e sua conseqüência - o real - existindo independentemente das restrições que no entanto permitiram sua gestão.

Wenders, Scorsese, Bertolucci, Burton, Tarantino, Coen, Wong, Almodóvar são maus cineastas? Não, e por "não" quero dizer "nem sempre" (mas Spielberg, Desplechin e muitos outros são). Quando você compara suas publicidades às publicidades feitas por filmes como Juno, Cassino Royale e Em Paris há ao menos um trabalho em cima de uma memória de cinema ativa (e não decrépita, senil e sinistra como em Honoré), daquilo que o cinema foi mesmo que não necessariamente como o foi. É o bastante, mesmo que não o suficiente.

9 comentários:

Evandro Duarte disse...

Asas do Desejo foi uma preparação para Buena Vista. Mas eu, particularmente, prefiro a preparação.
Depois desse texto fiquei com mais vontade de ver Os Infiltrados;

R. Cavalo disse...

E parece que isso começa com a nouvelle vague né? Esses cineastas que você citou, Wenders, Scorsese, Bertolucci, Burton, Tarantino, Coen, Wong, Almodóvar, década de 70 a 90 praticamente. Cineastas, curiosamente, todos estes com uma preocupação em intersecção: o estilo. Como se a política do cinema de autor exacerbasse uma afetação que fizesse com que mais parecesse que era feito um filme sobre o estilo do cineasta - sobre o autor e seus movimentos de câmera - do que apenas e simplesmente um filme.

Ainda assim houveram grandes resultados e eu não consigo deixar de me entusiasmar quando vejo Mean Streets, tão eletrificado como quando vejo um Cassavetes.

R. Cavalo disse...

Esses dias li no rodapé de uma agenda o seguinte aforismo: "Estilo é plagiar a si mesmo", creditada a Alfred Hitchcock. Hehehehe...

bruno andrade disse...

Até porque Buena Vista é um lixo, né?

bruno andrade disse...

Não à toa um dos melhores, senão o melhor, filmes de Wenders continua sendo No Decurso do Tempo: feito sem roteiro... O que provavelmente permitiu que Wenders tivesse que confrontar concretamente os elementos à sua disposição - atores, lugares, situações, controle sobre a duração das cenas (quando você precisa conduzir ações e estas são concretas, são essas ações que acabam por ditar o ritmo interno do plano, a melodia particular da cena - como nos Hollywoodianos, como em Costa, em Straub, em Rivette), deficiências, restrições, possibilidades... Não há publicidade nesse aí, e há estilo de sobra.

Depois Wenders nunca mais conseguiu recuperar essa liberdade no ato da criação, nem mesmo nos bons filmes que assinou até meados dos anos 80.

Evandro Duarte disse...

Buena Vista é filme sem vontade.
Música muito boa, desperciçada em dogmas e o caralho a quatro.

á. disse...

adorei!

Francis Vogner dos Reis disse...

bem, Bertolucci é ruim sim.Coloco ao lado, e de mãos dadas, com Honoré. Em Paris é uma versão emocore de Antes da Revolução: o arremedo de um "estilo" que na verdade é um amontoado de procedimentos e dispositivos sem liga, sem organicidade e pior, sem substância. Sentimento e composição de mundo são puto virtualismo. É lá em Bertolucci que o tal "entusiasmo pela atualidade" virou plataforma de rebeldia e falsa aventura estética do contemporâneo. Referências são posters, catazes. Veja o papinho sobre Hawks e Rosselini em antes da revolução, veja Louis Garrel olhando para a câmera depois de ver cartazes de Marcas da Violência e Last Days.Pra mim, bosta. Honoré é filhote de Bertolucci. Wenders eu vejo por ai, Tarantino em Kill Bill também. O resto não, apesard e Wong e Scorsese terem problemas, mas estes são outros.

bruno andrade disse...

Você é, sempre foi e sempre será um caipira simplório, Francis.

Arquivo do blog