terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Continuando...

... na mesma fita de Asas do Desejo, O Enigma de Kaspar Hauser e Lili Marlene.

Mundos de diferença, e à parte: filmes onde tudo é meditação, presença, respiração, imanência (Herzog); onde tudo é força, intensidade, paixão, vertigem (Fassbinder); filmes onde tudo por sua vez é encenado, onde a vastidão do que nos é apresentado não dá lugar a uma matéria dispersa mas sim a uma organização sintética e concreta dos eventos relatados, onde as oscilações existem sem no entanto desequilibrar uma construção compacta, a única possível - uma construção que crava uma série de existências frágeis e passageiras numa eternidade que, como todo valor absoluto, cresce com o tempo e sobrevive a todas as mudanças.

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Numa outra fita, Un homme, un vrai. Outra revisão, desta vez apenas para poder chegar num filme definitivamente mais importante (La Rupture, Chabrol, '70 - boa safra).

É aqui que continuo o que falei em outro post sobre cineastas que fazem pouco mais que publicidade de roteiro, absolutamente incapazes de ascender à realização, e menos ainda à mise en scène.

Esse filme é algum tipo de epítome, possivelmente até uma data. De Michel Piccoli ao pulôver vermelho de Hélène Fillières, todos os planos anunciam algo - signos roteirísticos, idéias de composição, terraços em praias paradisíacas ideais para uma cena de briga conjugal, passeios por sítios ideais para a prática do turismo frívolo and so on and so forth (a recorrência da palavra "ideal" é espontânea porque inevitável - tudo é idéia, nada é concreto). Em momento algum essa quantidade abusiva de material chega a ser de fato encenada, visto que qualquer trabalho nessa direção exigiria dos cineastas uma capacidade em algum grau existente de conduzir a presença decorativa dos signos às suas descrições por uma matéria capaz de acolhê-los. Para tanto, os Larrieu evidentemente precisariam ser capazes de encenar - o que implica abreviar, selecionar, controlar, sintetizar; em suma, confrontar a lacuna na página do roteiro com algo concreto e portanto existente, e que tanto no caso de uma existência prévia como no de uma existência posterior (nem que apenas pelo intermédio de uma vida pelicular) determina em algum sentido uma sujeição da forma à substância que ela abriga.

Como se não bastasse, é um filme extremamente conservador e pudico - basta compará-lo a qualquer Blake Edwards para perceber o quanto. Mas insisto, nada surpreendente: são características que podemos atribuir a toda a publicidade que nos chega.

3 comentários:

Evandro Duarte disse...

O que significa "... na mesma fita de Asas do Desejo, O Enigma de Kaspar Hauser e Lili Marlene".
É uma metáfora?

bruno andrade disse...

Nada de metáforas: gravei os três filmes em SLP (seis horas) numa mesma fita. Após o Wenders, estão gravados Kaspar Hauser e Lili Marlene.

Evandro Duarte disse...

Ah, bom.

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