sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Impossível apresentar mesmo que o menor indício de objetivos quando já não se tem um objeto.

E é exatamente esse o caso da crítica de cinema feita no Brasil hoje.

35 comentários:

daniel disse...

Eu te diria o contrário: há objetos; a crítica é que é feita, em sua imensa maioria, por covardes que têm medo de observá-los. Medo, pavor, cagaço puro: é a geração de reis do cagaço.
Mas há certas exceções; e elas têm outro nível - mais do que intelectual, outro nível moral.

Evandro Duarte disse...

Existe cinema feito no Brasil hoje? Como criticar bem algo que não existe?

João Gabriel Paixão disse...

eu acho que o cinema brasileiro, mal ou bem, respira melhor que a nossa crítica. Me parece até que certos filmes (penso imediatamente em Serras da desordem e Falsa loura) fazem crítica de cinema bem melhor do que os textos que se lê.

Acho também que concordar com o Daniel não me impede de concordar com o Bruno: rola um pavor justamente de restringir, de delimitar e finalmente de esmiuçar um objeto. Objetivos é o que não falta, geralmente. Por isso que eu acho que eles (os objetivos) são antes apressados do que necessariamente errados.

daniel disse...

CQD, Evandro.

bruno andrade disse...

Se há objetos - e é óbvio que há, no sentido de que estão aí e estão sendo produzidos; e além disso, sempre houve e sempre haverá, se por objeto todos concordamos que estamos falando da mesma coisa (cinema) -, não é deles que a crítica brasileira vem se ocupando nos últimos... Arriscaria dizer o que? 5 anos?

A minha pendenga é velha, acho que qualquer um que acompanha o blog há certo tempo a conhece. Portanto, destes 5 anos pra cá, o que mudou? Pois finalmente um certo percurso parece ter chegado ao limite do possível: há 2, 3 anos atrás ainda tentavam discutir, preconizar, demarcar, polemizar (mesmo que falsa e convenientemente, mas enfim...) algo como um "cinema contemporâneo", um cinema contemporâneo tão abstrato e genérico quanto uma proposição grosseira pode possivelmente ser (portanto o oposto de qualquer proposição que valha a pena ser trabalhada por uma crítica concreta e que lida com um objeto específico como a de cinema), um conceito de cinema contemporâneo que não é mais que o contingente de outros conceitos que não estão em voga ou que estão em simples e puro desuso. Mas contingente de que? De tudo o que nem chega por aqui; ou de tudo o que chega por aqui e nem mesmo é visto; ou ainda de tudo o que chega, é visto mas nem é discutido; ou, talvez, de tudo o que chega, é visto, é discutido, mas nunca oportunamente (e ainda assim o oportunismo dessa suposta "jovem crítica", de seus rótulos e suas escolhas, do que rejeita e do que exalta...), ou pelo menos nunca de maneira digna. E portanto, se há três anos atrás era importante começar a se falar sobre Brakhage (morto há seis anos), e isso era o saldo de um atraso ao mesmo tempo que o indício - saudável ou não, honestamente não vejo o mérito dessa discussão agora - de um interesse progressivo na sua obra e no seu trabalho, hoje é importante falar... de que mesmo? De quem? Desnecessário insistir: a crítica que está sendo feita hoje aqui no Brasil é sim uma crítica sem objeto.

Também não quero entrar nos méritos (ou mais precisamente nos deméritos) de certas figuras queridas e desabusadas que tanto freqüentaram o vocabulário crítico dos últimos anos - sideração, afã narrativo, dispositivo, drone, contemporâneo, magia, reality show, novas imagens, transitório, atomização (essa é especificamente pros fãs daquela merda desconexa que é Os Infiltrados, o tipo de filme que não apenas tolera como estimula e por fim permite a existência de uma crítica sem objeto), blablabla, delírios e exoterismos de escribas intoxicados pela vulgarização lingüística -; os tempos são outros, e as exigências permanecem no entanto as mesmas.

A questão portanto permanece (palavrinha importante) a mesma de cinqüenta anos atrás: o que é o cinema contemporâneo? Nisso eu concordo integralmente com boa parte da crítica que se faz por aqui e que se debate, se exaspera, se proclama, se prevalece, faz tudo o que quer amparada por esse tema. A divergência se dá, definitiva e irreconciliável, quando um e outro tentam responder essa questão: para uns uma espécie de continuum (mais uma vez abstração, mais uma vez profetização) contemporâneo, portanto um contemporâneo que se alimenta autofagicamente do contemporâneo, e a se julgar pelos últimos avanços da crítica que vem sendo feita a partir dessa idéia um continuum que já se encontra no fim de suas reservas; para outros, e é o meu caso, o cinema contemporâneo é algo que existe de 188... a 2008. Os objetos só se transformam em velhos monumentos, em estátuas de sal, se assim se quer e assim se deseja (e como há os que querem isso, dia após dia e com um apetite cada vez mais voraz); quando há uma convivência natural e ativa entre o presente e o que já é eterno, um presente tão mais forte pois imbuído da presença do que já é e lhe é durável, essa questão é respondida plena e satisfatoriamente. Os filmes de Straub/Huillet, de Brisseau, Costa, Rivette, Sokurov, Hou, Bressane, Rohmer, Oliveira (não vi o Tonacci, mas a se julgar pelo texto do Francis é outro que vai por essas linhas) confirmam e precisam o que acabei de dizer, além de outros filmes de acesso bastante restrito (Eugene Green e Jean-Claude Rousseau hoje como Monteiro, Nestler, Biette e Arrieta antes deles), todos filmes que convivem de forma ativa - o que quer dizer da maneira menos pacífica e obsequiosa possível, e portanto longe do risco de qualquer regressivismo - não tanto com a noção daquilo "que se fez", mas sim com a certeza "daquilo que é" (para roubar a expressão cara a C.B. DeMille), isto quer dizer com Griffith, com Lupino, com Ford, com Hitchcock, com Hawks, com Fuller, com Murnau, com Buñuel, com Mizoguchi etc. etc. Como se percebe, nada que vá além do indício daquilo que é o mais absolutamente óbvio e simples possível: se o cinema dura, se ele é um objeto, é porque algo já durou, algo permaneceu. Os filmes e autores citados apenas confirmam isso, e é isso o que peremptoriamente essa crítica brasileira (que se subordina a uma deficiência bem mais ampla do que hoje compõe boa parte da crítica internacional) que se ocupa sobremaneira com "dispositivos geopolíticos" ou o filme-feito-pelo-guia-do-que-é-um-produto-contemporâneo-produzido-sob-medida-para-as-salas-de-arte (sim sim, Desplechin e essas merdas) dá a impressão de ou desconhecer ou desconsiderar. Ou talvez essa crítica esteja apenas desconectada das exigências de uma arte que devia ser capaz de decifrar.

Enquanto isso, a alguns parece mais importante se ocupar de Capitu...

daniel disse...

Bonito texto, concordo com quase tudo, mas não era sobre isso que eu falei. Vc sabe.

"Cinema" é um conceito metafísico, "contemporâneo" é um não-conceito, mas filmes são objetos que podem ser fruidos. Os filmes estão aí - ruins, médios, bons, ótimos mas, sobretudo diferentes entre si. É preciso separar o joio do trigo, e o Francis sozinho faz um ótimo trabalho, mas seria bom que não fosse só ele. Falei bastante sobre isso com ele ontem, no gtalk.

Eu estive na primeira sessão do filme do Tonacci no Rio de Janeiro. Quando acabou a sessão, teve gente dizendo que o filme era chato e merecia uma solitária estrelinha - hoje é gente que diz que o filme representa o "tipo de cinema que merece ser defendido"
(não estou falando de uma só pessoa).

Uma das atividades fundamentais da crítica (do tipo que realmente merece respeito) é fazer as escolhas que até então ninguém fizera e que a partir de então serão consideradas evidentes por si só. Ressoar as escolhas já feitas é fundamental também, mas não vejo sentido em abrir mão de escolher por si só, sem ajuda de nada a não ser dos próprios sentidos. Só se acha ouro de dois modos: entrando na joalheria ou cavando na terra - é o que separa expectadores (com x mesmo) de críticos.

Agora, se alguns expectadores se deixam enganar pelas bijuterias mal-feitas, o azar é deles, mas não é deles que eu falo aqui. E vc sabe disso, meu amigo.

daniel disse...

Ah, e acho o Brakhage bem interessante, mas o que mais gosto do pessoal underground é o Mekas - vivíssimo e em atividade. "Reminiscences from a journey to Lithuania" é um dos maiores.

Tiago disse...

Alguém viu meu pônei?

R. Cavalo disse...

Eu juro que não é perseguição e que não estou pegando no pé do cara. Nem queria mais ter que me referir a ele, mas acabo usando como símbolo, aqueles símbolos evidentes e ululantes. Não é possível que um homem na idade dele não consiga entender o beabá. Não, Bruno, não deve ser ingenuidade dele, nem ignomínia, nem burrice. Há de ser provocação mesmo, cinismo.
Como, em sã consciência, após isto dito: "o cinema contemporâneo é algo que existe de 188... a 2008 (...); quando há uma convivência natural e ativa entre o presente e o que já é eterno, um presente tão mais forte pois imbuído da presença do que já é e lhe é durável, essa questão é respondida plena e satisfatoriamente", pode-se responder com isto: "Uma das atividades fundamentais da crítica (do tipo que realmente merece respeito) é fazer as escolhas que até então ninguém fizera e que a partir de então serão consideradas evidentes por si só"!!!!!!!!!
Fazer escolhas que ninguém fizera?
E, bem, para usar um exemplo do próprio, o ouro não se reconhece através puramente de alguma experiência sensorial pessoal e particular, mas sim de suas propriedades OBJETIVAS. Basta o olhar clínico, ou como o Bruno talvez prefira, o RIGOR.
O mais torpe é o final "palmadinhas nas costas" (E vc sabe disso, meu amigo), na caixa de comentários de um mesmo blog onde, em outra caixa de comentários mais antiga, pode-se ler das mais indecorosas injúrias deste mesmo senhor direcionadas ao dono do blog. Que camaradagem é essa, hãn! Cuidado com teus amigos, Bruno.

Mas nem é ele que preocupa tanto no momento. Se eu desse nome aos bois - e digo apenas por mim mesmo, não sei das intenções alheias - diria com um gosto febril e nauseante na boca o nome EDUARDO VALENTE, e depois cuspiria para tirar esse gosto ruim da boca.

Desculpa aí, Bruno.

daniel disse...

Rodrigo, numa boa, baixa essa bola, cara. Esse negócio de implicância pessoal não leva ninguém a nada, então relaxa aí, ok?

Especificamente sobre as idéias que vc defendeu para me contestar, acho o seguinte: não dá pra falar de "convivência natural e ativa do presente com o que é eterno" se não se fala das coisas que surgem. O presente não é feito apenas do passado, ele é feito pelos acontecimentos - pelo surgimento de novos filmes, por exemplo. Por isso, em 2009, 2010, 2011 etc surgirão novos filmes. Se as pessoas inteligentes, os críticos, tiverem pudor de se manifestar sobre o que está surgindo, à espera de um "distanciamento histórico" que não existe, quem vai falar sobre os filmes da atualidade são as bestas, os expectadores. É disso que eu estou falando, o Bruno sabe disso. Procure o que a Cahiers falou sobre Serras da Desordem, O Signo do Caos, Falsa Loura ou Encarnação do Demônio - não falou nada.

Outra coisa: eu talvez tenha me expressado mal. Não acho que a tarefa do crítico seja apenas de eleger os melhores - é preciso também falar das falhas, daquilo que ele se ressente na atualidade. Ou seja, a única maneira de combater os filmes do Diegues ou Era Uma Vez (o pior do ano, acho eu) a partir de uma análise das suas falhas. O silêncio da crítica falha por dois lados: não defende o que deve ser defendido e não ataca o que deve ser atacado. E aqui não falo de politicagem, mas de escolhas éticas e estéticas.

Pra terminar, sobre esse negócio de olhar clínico: olha, a divisão entre objetivistas e subjetivistas é velha e precisa ser superada. Não adianta "escolher um lado" e dizer que é assim e pronto. Não existem "olhares clínicos", o olhar é construído historicamente; um crítico dialoga com e contra o senso comum de seu tempo. Pretender que o "olhar clínico" reconheça o ouro de forma "objetiva" é um argumento que flerta demais com a religiosidade. Arte não é religião e não está ligada a fé, mas a entendimentos, emoções e sensações, então a percepção subjetiva faz parte disso sim. O objeto existe e tem suas características, mas elas são observadas por um olhar que tem limitações e faz escolhas parciais, sempre. Por isso que a postura crítica é necessária, para estabelecer novas perspectivas que vão gerar novas percepções comuns a todos. Acreditar que basta apontar "a verdade objetiva" torna a crítica um discurso para-religioso.

Imagino que vc vá concordar, a menos que vc nunca tenha discordado de uma pessoa que vc respeite acerca da avaliação de qualquer objeto artístico.

Eduardo Valente disse...

ô, rodrigo, bonitinho isso de eu ser tão importante pra vc. pena que eu não posso dizer o mesmo de vc pra mim! nunca limpei a boca porque nunca precisei dizer o teu nome. mas, ó, me dá grande alegria saber que sou central assim numa existência - para além da da minha mãe, claro. taí uma coisa que dá vontade de se continuar.

Tiago disse...

Estava dando uma cagada agora e lembrei deste blog.

bruno andrade disse...

O show deve continuar.

Não Daniel, não sei do que você está falando, até porque aparentemente você nem chegou a falar - se por falar entendemos a expressão bruta e não uma alusão vaga. No entanto, sei do que eu estou falando: de crítica brasileira, e não somente do Francis, que é, por sinal, e vem sendo há um bom tempo, uma exceção no interior dessa crítica, se por exceção entendemos alguém que se destaca por gestos coerentes e precisos, que se separa pela cautela e a sensatez que caracterizam seu trabalho do concerto burlesco no qual essa mesma crítica brasileira se transformou. Se o caso do Francis é excepcional, não vejo como ver isso com bons olhos: pois quando coerência, prudência e zelo são artigos de exceção, o que é e está sendo regra? E me desculpa se continuo achando que não basta Francis e mais um ou dois fazerem bem seus trabalhos: as revistas precisam mudar, repensar percursos, retraçar metas, fazer novas escolhas, se retratar por aquelas que foram mal feitas (temos ou não editores nesta joça?) e sobretudo serem humildes, isto quer dizer capazes de mudanças.

Há quantos anos o exato mesmo texto, as exatas mesmas especulações, a exata mesma démarche é reproduzida sem qualquer renovação, sem nenhuma inovação, sem o menor traço de rigor ou curiosidade sobre o que vem acontecendo nas obras de Oliveira, Eastwood, Van Sant, para onde elas estão evoluindo ou involuindo, ou ainda Allen, Tsai e uma porção, uma centena de outros? A mesma cegueira da qual o Cahiers foi e vem sendo vítima, naquela que é incontestavelmente nada menos que a pior editoria de sua história, não parece exatamente a melhor referência para o trabalho que precisa ser feito - aqui como alhures. Da mesma forma que com os filmes citados pelo Daniel, diversos filmes foram vergonhosamente negligenciados pela nossa crítica - não foram procurados, ou eram vastos demais para se sujeitar aos limites que muitas vezes estreitam a visão dos críticos -, enquanto outros foram excessivamente valorizados. Por que? Razões de conforto moral e estético, identificação dos críticos da época. O problema é que tudo isso passa, e o que fica? Os filmes. Os filmes e algumas linhas que, lidas em outro momento, passados alguns anos do frisson e do hype, parecem perfeitamente impertinentes, quando não simplesmente evitáveis.

Que os filmes são diferentes entre si, isso é nada menos que a constatação de um dado primordial e óbvio do enorme contingente de filmes - ruins, médios, bons, ótimos. Que os grandes filmes não são lá muito diferentes entre si, essa sim é uma constatação que talvez conduza ao início de um trabalho eminentemente crítico: afirmar, sem pudores, que a essência do cinema vai se realizar em direção a um realismo cada vez maior quanto maior for a abstração restituída, resgatada por esse realismo. O Sobrevivente e Grizzly Man, O Princípio da Incerteza, Não Toque no Machado, Antes Que Eu me Esqueça, Le Monde vivant, Juventude em Marcha, Five, A Dama de Honra e A Teia de Chocolate, Miami Vice, Coisas Secretas, é onde todos ou quase todos os grandes filmes dos últimos anos acabam por convergir, consagração e corolário de um termo de equilíbrio Mourlet-Baziniano, fascinação advinda e como que estimulada e mesmo provocada pela subserviência ao real. Em outras palavras, a perfeição de uma ontologia, o que significa que talvez estamos assistindo em primeira mão aos primeiros filmes que efetivamente concretizam a caméra-stylo preconizada por Astruc. O fato de que tudo isso parece estar escapando à atenção dos críticos - aqui como lá fora - é no mínimo constrangedor e demonstra a que ponto essa crítica tão "jovem", tão "nova" é carente de uma literatura de cinema (que não passe pelas obviedades, sobretudo: Deleuze, Metz, um Daney aqui, um Bergala ali) que justamente a prepare para as novidades, e mais precisamente para o que venha a ser novo.

Difícil garimpar qualquer coisa desta forma. E me desculpe Daniel se eu discordo integralmente da sua noção de caça ao ouro, um mineral que se esconde nos locais mais ingratos, que leva anos para se formar, que após certo tempo de extração contínua tende à escassez irreversível e cuja ação do homem sobre ele se assemelha em muito àquilo que há de mais condenável na crítica: as já mencionadas razões de conforto moral e estético, sempre tão convenientemente pontuais e sempre tão profundamente políticas. Ok, talvez até passe um pouco pelo que você disse, mas - surpresa - é justamente das partes que menos me interessa na crítica, porque muitas vezes esse ímpeto de exaltação e consagração imediata acaba por sacrificar o empreendimento crítico que está na origem de toda a crítica... digna deste nome. Daí esse festival de equívocos a que assistimos nos últimos anos: na França com Desplechin, Larrieu, Honoré; na Ásia... nem sei mais, porque realmente acompanho apenas uns três ou quatro cineastas daquelas bandas; nos EUA Linklater, os últimos Scorsese, os últimos Spike Lee, e agora parece que temos Fincher (mesmo que Zodíaco seja de fato um trabalho estimável, mas curiosamente por nenhuma das razões pelas quais elogiaram) e P.T. Anderson na mira da inflação autorista. O sucesso desses filmes, toda a aclamação que receberam à época de seus lançamentos, e para quê se vai tudo parar na vasta necrópoles dos sucessos injustos e injustificados, das soirées mornas, dos excessos de mesa de bar; e mesmo após isso as mesmas incapacidades de se admitir que se errou, que se excedeu, que houve negligência, que não se agiu prudentemente, que não se fez crítica em suma.

Evandro Duarte disse...

O último "Filme" com "F" maiúsculo que tem no cinema brasileiro é "Noite Vazia", do Khouri.
O resto não apetece.
E, é claro, que não estou falando cá de produções que transpassam o cinema, indo além do imaginado, como O Fim da URSS, Café ou Ato Falho.

bruno andrade disse...

Ou, posto ainda de outra forma, até posso concordar com você nesse ponto, contanto que as coisas sejam levadas às suas conseqüências naturais: se é tão importante exaltar determinado filme no momento de sua descoberta, de sua novidade (mas o que é novidade? Um filme de Edward Ludwig ou Jack Arnold, se feitos em 53 e descobertos em 2008, não são novidades?), é igualmente - senão mais - importante indicar os caminhos para descobertas tardias, como ocorreu na França com Tourneur e Guitry nos anos 60 e mais recentemente com Lester James Peries e Im Kwon-taek. É importante também reconhecer quando se meteu os pés pelas mãos, quando a pressa pelo prestígio ou o medo de não mais ser prestigiado fazem com que uma conquista célebre ou um sucesso de estima não passem mais pelo crivo do questionamento: são os casos já célebres de Bertolucci e Wenders na história do Cahiers por exemplo, e precisamos começar a nos perguntar se recentemente a crítica não foi relativamente condescendente ou omissa com os filmes de certos autores célebres, por exemplo com os filmes que Eastwood fez nessa década, todos certamente bons ou muito bons, mas todos igualmente sujeitos a certas deficiências mais e mais perceptíveis (voluntarismo estético, demagogia, um tom muitas vezes excessivamente solene e/ou retórico, uma vontade de demonstração que se sobrepõe às qualidades genuínas, à matéria bruta da qual Eastwood impingiu sua série de obras-primas dos anos 90); ou, num sentido inverso, Michael Mann, que após passar anos sendo repreendido pelas razões mais francamente insultosas a um talento como o dele se vê repentinamente soterrado por elogios disléxicos e os impressionismos mais definitivamente alheios às qualidades reais de seu trabalho - e, mais uma vez, falta de humildade de se reconhecer que se errou, ainda mais tendo em vista que todas as realizações de Mann nessa década não apenas são menos ambiciosas como foram afetadas por uma certa mudança de direção, onde a integridade de uma matéria equilibrada e robusta que parecia ter sido conquistada à altura de Heat e The Insider cedeu lugar a um tratamento mais lasso da forma, agora tateante porque ainda afetada por uma transformação na matéria de base, que de íntegra e equilibrada passa a ser desproporcional e heterogênea. Ou, se quisermos insistir no assunto, Allen, o caso mais flagrante de insistência retumbante, da falta de humildade de seus detratores, incapazes de reconhecer que em meio a uma obra muitas vezes mal freqüentada e mais recentemente cansada como a dele uma pérola rara como Cassandra's Dream é sim capaz de vir a conhecer e mesmo conquistar a luz do dia. A tudo isso só pode seguir uma definição selvagem do trabalho da crítica, para mim a única definição possível: procurar pela obra-prima onde menos se espera, procurar por ela onde não se espera tanto e procurar até mesmo onde se espera.

Mas o que finalmente acho bastante interessante é o Daniel dizer que concorda com quase tudo o que escrevi (o que me faz supôr que no mínimo ele concorda com muita coisa). Porque muitas dessas exatas mesmas proposições, posições e tutti quanti já aparecereram em outras discussões que tivemos, e em mais de uma ocasião - e você sabe que isso é uma verdade, e portanto acho que nem preciso discutir o mérito do que estou afirmando - você discordou veementemente, desautorizando ou mesmo ridicularizando várias dessas posições que mantenho já há alguns anos. Surpreendente mudança de melodia.

daniel disse...

Bruno,
não tenho nenhum problema ético em ser convencido de que estava errado e mudar de idéia. Se vc viu isso nas minhas palavras, que ótimo, fico feliz. Feliz mesmo, porque, ao contrário, às vezes penso que meu maior problema é ser cabeça-dura demais. Se minhas idéias mudam, é sinal de que não sou tão cabeça-dura assim e posso melhorá-las com o tempo e com as discussões.

Não vou me sentir incomodado se vc quiser me confrontar com algo que eu tenha dito há tempos e te pareça incoerente. Basta vc dizer o que é, que eu não vou ter problema em dizer "caramba, eu estava errado" - vou até me sentir bem, como disse, por achar que estou ficando mais esperto e menos teimoso. Não dou valor à coerência quando ela implica em defender a burrice. "Idéias claras são idéias mortas", pra citar o outro.

Por outro lado... por outro lado, eu espero que vc tenha a mesma postura, e não se trata exatamente de algo que vc disse há anos. Na verdade, a discussão começou porque você disse em seu post que a crítica não é "objetiva" porque simplesmente não há objetos, e eu vim apontar que há objetos sim, mas são rodeados pelos elogios uníssonos, vazios e idênticos, na melhor das hipóteses, ou pelo silêncio preguiçoso e/ou covarde, nas hipóteses mais frequentes.

Pois, salvo engano, me parece que vc disse exatamente o mesmo nesta sua resposta. Então concordamos: há objetos, centenas deles, e há uma crítica covarde e preguiçosa. Me desculpe, posso ter mudado muito de idéias nos últimos anos (e prefiro achar que isso pode ser algo bom), mas nesse tópico aqui eu ainda não tive tempo para fazê-lo. A preguiça está aí pra quem quiser ver, e acho que agora concordamos que ela faz muito mal aos entendimentos.

daniel disse...

Este era o assunto até aqui. Sobre as coisas que vc disse nessa sua última resposta - que já são outro assunto - eu teria alguns pontos a adicionar, que certamente têm a ver com o tópico. Primeiro, que a proposta macmahonista é muito firme esteticamente, mas religião é uma coisa e crítica é outra inteiramente diferente. Não é difícil observar que: a) o texto do Mourlet, com todos os seus bons achados, precisa passar por uma reavaliação histórica; um texto que joga na latrina Chaplin e Welles é um texto que pode falar caro a um ou outro crítico por razões afetivas, mas se torna um mal ao cinema, à inteligência, ao bom-gosto, e a o que o século XX produziu de melhor caso seja lido como se fosse uma bíblia: nesse caso, Mourlet manifestou um gosto pessoal, mas seus argumentos e sua consistência crítica, por mais fortes que sejam, estão muito aquém das obras que o desagradam.

E, sobre a teoria realista, novamente, eu acho que ela é muito consistente e vale para boa parte dos filmes que se enquadram na chamada (de modo simplista, ok) "narrativa clássica". Mas o próprio texto do Mourlet já deixa ver que ele sabe como isso, sendo legitimamente uma defesa de um certo tipo de cinema, arrisca a se tornar um texto para-religioso que apenas empobrece o cinema. O cinema pode ser extamente como defenderam os macmahonistas, mas pode ser outras coisas; dizer o contrário é apenas uma escolha estética que despreza caminhos que podem produzir maravilhas; não é à toa que vc tem feito uma confusão brutal entre produtos da imaginação como o Caligari e produtos posados cujo símbolo tradicional são as obras do Sternberg. Filmes não são obrigados a se atrelar ao real, como a arte de modo geral não o é. Se vc só gosta de filmes assim, ok, é seu gosto; se sua teoria limita os filmes a isso, por sorte o cinema não obedece ordens de teóricos. O discurso inteiramente armado de F for Fake ainda é cinema, e muito maior que tudo isso. O bazin-rosselinismo sempre teve a sombra da religiosidade mal-transada do fim-de-século; platonismo para as massas, e já démodé.

Sobre as revistas on-line, uma coisa deve ser notada: a você nunca faltou espaço. E Francis não é tão solitário: Inácio, Cléber, Cássio ou, entre os mais novos, Rafael, Rodrigo - há quem dê a cara a tapa e diga coisas que vê por si próprio. Outros nomes poderiam ser lembrados. Mas, como eu disse, quando a preguiça usa como desculpa a negação dos objetos, quem expõe o que pensa não se difere apenas pelo nível intelectual, mas realmente pelo moral.
Por isso que vim aqui dar essa opinião, porque não te vejo nesse baixo nível moral - por isso acho estranho quando vc encampa a tese de que faltam objetos, filmes, motivos para se expor.

Mas, olhe, acho que não há motivo para angústia quando crítica, ao invés de produzir unanimidade e certeza, produz controvérsia e diferença de opiniões. É do jogo e é bom sinal, mesmo que os saudosos da religiosidade tenham maus sentimentos (bastante compreensíveis) em relação a isso. O interesse pela diferença de opinião não significa covardia, mas justamente disposição para fazer as idéias se tornarem mais vivas e sadias. Voltando ao ponto de partida.

R. Cavalo disse...

Quando o Bruno diz: "quando já não se tem um objeto", eu entendo: objeto = escolha = coerência; e não simplesmente objeto = filmes. Fosse assim, seriam inúmeros "objetos". Cabe ser mais cuidadoso e não tão apressado, para não cometer tais erros e não dar prosseguimento, então, desnecessário numa discussão torta, fora de propósito. O que se julga aqui é justamente este comportamento crítico, da falta completa de coerência, de uma idéia de cinema. Não que essa "idéia de cinema", ou coerência, implique numa lacuna de heterogeneidade, numa recusa cega à aceitação do diverso. Ao contrário, usar tanto Caligari como Sternberg em exemplos, pode sinalizar o elo crítico que há em obras díspares numa visão mais preguiçosa ou superficial - ou ainda esquematizada, viciada.
Quando se fala em real, aqui, não é bom confundir com 'realismo'. Longe de se configurar como dogma religioso, esse 'real' trata da evidência, de uma pequena fração tocada por algum artista e percebida por poucos afortunados.

É o que eu penso.
Espero ter contribuido de alguma forma.

Eduardo Valente disse...

olha, eu não vou entrar na discussão pelo viés crítico-teórico porque sei que em grande parte o que eu tenho pra dizer não interessa a ninguém que venha aqui ler (como o Cavalo deixou bem claro aqui em cima).

por isso, prefiro entrar pelo lado prático, porque acho que no foco no termo "objeto" deixou-se de lado a frase que realmente me parece estranha no post original, que é essa idéia da "crítica de cinema que se faz no Brasil hoje". não é que eu ache estranha a menção na verdade, mas sim a lógica que a rege originariamente.

digo isso porque quando o pessoal que criou a Contracampo (e, não, eu não era um deles) não se sentiu representado em lugar nenhum, eles criaram a revista e passaram a fazer o que a eles interessava. quando nós na Cinética não nos sentíamos mais representados na Contracampo, fizemos o mesmo. ora, convenhamos, mesmo o pessoal da Zingu tomou este caminho.

então, "a crítica de cinema que se faz no Brasil", assim com esta pompa e abrangência, é a que algumas pessoas resolveram fazer algum dia. se ela continua sendo insuficiente e incapaz de representar a outros, não seria mais fácil ir fazer a crítica de cinema que se desejaria ver feita, pra que ela possa existir finalmente?

digo, a pergunta é retórica: não, não é o mais fácil. o mais fácil é mesmo reclamar da "crítica de cinema que se faz no Brasil".

Eduardo Valente disse...

ah, e pra deixar bem claras intenções, algo que muitas vezes a internet escamoteia: o post acima não tem o menor interesse em ser uma provocação, pelo menos não no sentido negativo do termo. é só que eu realmente gostaria de ler esta outra crítica de cinema no Brasil - como o Bruno deve sabe bem, até por eu já o ter convidado a fazê-la. se ele não aprecia a companhia, acho motivo mais do que nobre pra recusar, mas bom seria se a fizesse por sua conta.

João Gabriel Paixão disse...

Olha, Rodrigo, pode ser meio grosso via Internet o que eu vou falar, mas acho necessário, ok?

Da maneira como vc emprega "escolha", "coerência" me parece a mais distante das abstrações, num caminho infelizmente parecido com o "contemporâneo" que o Bruno muito bem apontou. Pode ser sua opinião, ok, mas objetos = filmes para começo de conversa. O problema está em resolver está aparentemente tão simples equação. Como falar de um filme? O que o sustenta, o que o margeia, o que o cerceia? De que forma podemos dialogar com ele, não apenas para fazer uma "leitura", mas também de estabelecer projeções, de dar um passinho a mais que talvez culmine numa forma de pensamento, numa descoberta intelectual exigida pelo filme, com o crítico e para o leitor.

Esse parágrafo meu, bem brega e simplista, é só pra dizer o seguinte: enquanto objeto não for igual a filmes, enquanto não há esse compromisso que é o da crítica, só resta abstrações flutuando no vácuo infinito para sempre perdidas. Ou seja, depois que se faz esse trato, esse diálogo, essa projeção (escolha a palavra que preferir), você pode talvez (talvez!) começar a especulação. Aí, bicho, tranqüilo: você se limita a uma parcela de filmes, ou a determinado tipo de pensamento que conduza a escolha = coerência. Como pôde perceber, tudo acaba por ficar bem juntinho, assim: objeto, filmes, escolhas, coerências. Ou não?

Essa mínima alteração que eu proponho na sua "fórmula", pra mim, traz consigo uma idéia do que eu acho que você queria dizer com "coerência" e "escolha". Acontece então que você começa a usar a cabeça, e não mais a repetir idéias dos outros. Bobeira minha? Olha, o tal do "contemporâneo", por exemplo, ao não ter muita vontade de organizar e expor idéias (e é isso que termina por expor a fragilidade de seus conceitos), além de quase desestimular outras, trouxe uma doença contagiosa que no meio universitário/cinéfilo é particularmente sensível. O fenônemo é sempre mais vasto, mais devastador, do que só entre "os críticos". Pelo menos, foi o que eu experiencie e experiencio no meu tenebroso curso de cinema. Ainda me acho muito infectado pela doença do "contemporâneo" e pelas leis que o regem sub-repticiamente.

Pra mim, se o Eduardo Valente merece qualquer elogio, é o de ter percebido que não adianta insistir em somente uma idéia. Acho que a editoria da Cinética tenta ir por aí. A insistência numa só "idéia" termina por corrompê-la, simplificá-la, camuflá-la -- não por aqueles que a constroem, que a estimulam, mas por aqueles que se alimentam dela. Acho triste, porque essa transmissão de idéias não desenvolve... idéias, justamente! Desenvolve, ao contrário, dogmatismo, abstrações, objetivos sem objetos, objetos sem filmes.

João Gabriel Paixão disse...

e agora, só pra discordar do Valente: não adianta nada criar novas revistas, milhões delas (temos quantas na Internet que seriam da "jovem" crítica? contracampo, paisà, cinética, zingu, cine qua non, filmes polvo...), se todas elas parecem quase iguais numa concepção do que é crítica. Existe uma ênfase na desagregação que não sei bem de onde vem: a falta de personalidade das revistas as separam, isso pra mim é uma afirmação quase insana, ainda que verdadeira. Acho, como você pode perceber no comment anterior, que você tinha alguns outros caminhos a seguir com a Cinética sim, mas de maneira geral essas divisões só nos entregam a lacuna contida nesse gesto.

Eduardo Valente disse...

ah, joão, mas são duas coisas distintas: primeiro que há muitos motivos de ordem bem diferente que fizeram cada uma destas nascer (há as geográficas, por exemplo - Filmes Polvo foi criada por um monte de gente que estudava junto em BH; há as de meio - a Paisà era pra ser uma revista impressa, etc), das quais muito poucas foram por questões de conceituação editorial - mas isso faz parte do jogo, ainda mais no ambiente virtual que facilita esta criação constante. depois, que eu acho que alguém que realmente não se sinta representado em nada disso, este sim deve ir lá e produzir a sua.

Eduardo Valente disse...

e quando digo produzir a "sua", não estou nem falando a sua "revista", porque o termo pode ser redutor e discutível. falo, no caso, da sua "crítica".

João Gabriel Paixão disse...

sim, é verdade: tem motivos as criações das revistas. Mas é que eu queria reforçar o coro do Bruno também, que pra mim é importante. Não é só criar uma revista, tem que ter uma pedagogia, uma postura ao se criar uma revista. Isso precisa ser dito indepedente de eu criar uma revista, entende?

Além do mais, a Cinética traz uma porção de gente, mostrando que é possível sim a conciliação. Aí, a divergência de idéias é trazida de dentro. Eu defendo isso, eu acredito nisso também.

Rodrigo Cavalo disse...

Bom, João, se você resume numa equação pobre e interpretativa (objetos = filmes), você pode continuar insistindo nessa discussão que foge completamente aos propósitos do post, no meu ver, e que bastava ter lido os comentários do Bruno mais acima com um pouco menos de preguiça para ter entendido que não se trata disso. Abstração é não ter uma idéia de cinema, é colocar num post de melhores filmes do ano um Eastwood e um I'm Not There juntos, é usar fórmulas de estruturalismo baratas para aplicar a qualquer filme, botar os filmes num divã.
Eu falo de algo concreto, mas que à vista de quem não enxerga parece bem abstrato, um grande borrão, ou um completamente vazio.
O mais foda é que aqui já se tomou um outro rumo, e já se fala de outra coisa que não a proposta do post, esclarecida ainda mais pelos comentários do Bruno, sobre uma crítica que não vê o cinema, que está deixando passar o cinema, uma crítica sem norte, amparada por conceitos viciados.
Você está discutindo uma outra coisa, partindo de um beabá superado (como falar de um filme?), e fazendo vista grossa à algumas questões mais pertinentes e mais focais do post.
Então, não dirija seus comentários a mim, pois não estamos a tratar da mesma coisa. Siga sua conversa com o Valente, que vocês estão se entendendo bem.

Eduardo Valente disse...

ô, rodrigo, não precisava ter dito meu nome, rapaz. passou pelo dissabor agora por vontade própria, hein!

Eduardo Valente disse...

de resto, você ajuda a esclarecer do que sempre se tratou: existem os que enxergam e os que não enxergam. amém.

daniel disse...

Bem, acho meio estranho dizer que coerência é um objeto. No meu entendimento, coerência é um modo, um procedimento, uma ética, que pode ser questionada como já fiz - mas não é um objeto. E o Bruno me parece ter usado objetos exatamente no sentido de "filmes" nas suas respostas aqui nessa caixa de comentários. De todo jeito, se o problema era acerca do uso das palavras, aí cabe a ele esclarecer; de todo jeito, acho que o que eu queria dizer aqui desde o início ficou claro.

E quando eu falei em "realismo" não estava pensando nesses "movimentos" como neo-realismo e quetais, mas na compreensão da arte somente como representação do mundo. Não há dúvida de que essa noção, a da mímese, é a corrente mais forte e tradicional de toda a história, dos gregos ao Heidegger. Mas, por outro lado, um dos esforços de ruptura dos artistas modernos se deu por aí (e não vejo por que jogar a conquista fora): a arte, sendo um duplo do mundo, não é apenas, por definição e obrigação, uma "representação" mais bonita ou mais evidente do mundo que já existe - ela pode ser uma outra coisa, um mundo que não existe. Isso acontece na pintura (pode-se falar em mímese no cubismo, mas não em Miró ou Pollock); acontece na literatura; e acontece no cinema, ora pois.

Daí, não me parece ser boa idéia a condenação a priori de qualquer obra "delirante", que crie um mundo a partir da imaginação de quem faz.

bruno andrade disse...

A resposta que segue é só pros dois comments do Daniel seguintes aos meus (mas antes preciso fazer uma exceção para a frase admirável do João Gabriel: "não adianta nada criar novas revistas, milhões delas (temos quantas na Internet que seriam da 'jovem' crítica? contracampo, paisà, cinética, zingu, cine qua non, filmes polvo...), se todas elas parecem quase iguais numa concepção do que é crítica."). O resto vou procurar responder em outro momento.

---

Os objetos com os quais a crítica brasileira vem se ocupando nos últimos anos (reality shows, teleséries, alguns filmes e nem sempre os melhores nem os mais importantes, o circuito pobre, pobríssimo, que temos à nossa disposição, além da boa e velha exposição de idéias e teorias contorcionistas que nem mesmo precisam dos tais objetos) me dão a nítida impressão de ter muito, muito pouco a ver com a atividade real da crítica, que é se ocupar da vida ativa do cinema (pronto: posto numa fórmula simples). Dizer isso parece que é pouco mais que dizer o óbvio; na prática, e isso vem sendo comprovado continuamente, os debates não param de se estender, isso quer dizer se tergiversar, se convulsionar e finalmente se dispersar em direções mil. Insistir que tudo é assunto, tudo tem importância, tudo é rico, tudo é digno de análises e longas, amplas, infindáveis discussões... Desculpa, sou apenas eu que acho isso uma falácia? Se for esse o caso, beleza, guilty as charged. Porque eis o que eu acho: fazer isso, se resignar a essa entropia de estímulos (vindos daonde?) e conseqüentemente a uma produção intelectual incessante (mas o que a estimula a esse ponto?) num momento em que o circuito nacional de um modo geral, as curadorias dos festivais e a falta de imaginação dos nossos programadores parecem convergir para um cenário francamente catastrófico; pois bem, fazer isso nessa presente conjuntura é agir com a mais total inconsciência, é confundir generosidade com condescendência e inevitavelmente resvalar na renúncia natural da atividade crítica. Porque eis outra coisa que acho, para que meu ponto de vista fique ainda mais claro: o cinema é raro, é a ave rara, é a coisa mais difícil de ser encontrada, e quando você tem uma crítica que precisa encontrar pelo menos dois filmes bons por semana em meio a um circuito deplorável como o nosso, você já meio que está a meio caminho do jornalismo cultural e dois passos mais longe do rigor que deve moderar toda e qualquer atividade crítica digna deste nome. O que se faz quando filmes realmente importantes, realmente grandes chegam às nossas salas, quando eventos de exceção finalmente acontecem? O estoque de elogios obsequiosos e vulgares (porquê freqüentes) tendo um certo limite, faz-se o que temos visto tão freqüentemente por aqui: repetem-se os mesmos procedimentos all over again, quando estes deviam ser reservados para tais eventos (Fronteira da Alvorada no circuito, o último Skolimowski no Festival do Rio por exemplo).

Posto de uma forma ainda mais simples: é a vulgarização generalizada da crítica a que estamos assistindo. Se a Cinética já me procurou, se a Contracampo me procurou anteriormente e eu não aceitei, é porque eu não pretendo me associar a revistas cujos procedimentos me parecem/pareciam reprováveis. Isso de alguma forma exime as revistas de seus deveres, eu não aceitar seus convites? Acho que ver a coisa dessa forma é dar muita importância para mim e pouca para as revistas. Não é o que eu pretendo fazer por aqui.

bruno andrade disse...

Já sobre o MacMahonismo... Aqui, como diz o eminente crítico Sherlock Holmes, the plot thickens. Porque são anos e anos de incompreensões, deformações (profissionais ou amadoras, pouco importa: ambas acabam por se reencontrar no fim das contas), confusões mentais e conceituais de todos os tipos, imprecações alarmantes, paradoxos dispensáveis, contradições flagrantes... E o que é imediatamente curioso é que esse trabalho de contextualização (não acho que o texto do Mourlet realmente precisa ser "reavaliado", não mais que Cidadão Kane ou Acossado) que o Daniel sugere pro texto do Mourlet (que, ao contrário do pensamento em vigor e a despeito do tom procurado pelo próprio, não é uma tábula rasa nem um manifesto definitivo do MacMahonismo mas justamente seu contrário, um primeiro passo, uma disposição bastante clara e organizada de certos princípios que serão mais tarde desenvolvidos por Mourlet no Cahiers e na Présence du Cinéma e ainda por outros - dentre os quais Paul Agde, Gerard Legrand, Pierre Rissient, Marc Bernard e principalmente Jacques Lourcelles - na mesma revista) já foi e ainda vem sendo feito nos últimos anos por certos críticos - mais recentemente por Jacques Aumont em La mise en scène comme langage e por Jean-Marc Lalanne nas próprias páginas do Cahiers durante sua editoria, e antes por Biette nas páginas da Trafic e durante os anos 70 nos mesmos Cahiers, por Skorecki em sua coluna no Libération, por Pierre Léon e os redatores da Lettre du Cinéma, Bernard Eisenchitz (ele mesmo um MacMahonista) na Cinéma, nos EUA por Tag Gallagher e Chris Fujiwara, além do próprio Lourcelles no Dicionário - e certos filmes (basicamente todos os que citei até agora e evidentemente uma porção de outros que os acompanharam ou os antecederam). Ainda mais curioso levando-se em conta o fato de que o MacMahonismo foi - e é - pouco mais que uma aplicação no cinema da revolução coperniciana na apreciação das artes, e que portanto sua atitude diante de todas as construções arbitrárias do espírito, de tudo aquilo que pertence ou remete à metafísica, é uma de total desprezo (para tanto a leitura de Beleza do Conhecimento basta para dissipar quaisquer dúvidas quanto a filiação das teorias de Mourlet a tudo o que o século XX produziu de melhor em inteligência e bom gosto). Nada muito distante de Nietzsche, por exemplo (a quem a escrita de Mourlet se assemelha em diversos momentos), e ainda assim a principal preocupação do MacMahonismo é justamente a modernidade, isto quer dizer o fim do culto à concepção romântica do artista-demiurgo, da arte impossível e sacrificada, em oposição patente à concepção Cahierista (ou pelo menos àquela mais freqüentemente associada a essa revista) do artista impossível e da arte como uma mensagem criptografada de uma temática recôndita. Posto em outras palavras: nenhuma religião de pensamento que tem Losey como profeta pode ser outra coisa senão uma "religião da lucidez".

bruno andrade disse...

O que nos força a rever alguns pontos do texto do Mourlet: dizer, por exemplo, que "o homem é Deus na mise en scène" (e só na mise en scène, visto que Rossellini é censurado pela "aproximação titubeante da criatura em direção ao criador", portanto um "tema exterior à mise en scène"), isto quer dizer "pela revelação de seus poderes, precipício aberto bruscamente à superfície das coisas", ou seja, o homem elevado pela sua existência no mundo físico é justamente o que acaba por confirmar a presença deste mundo e permitir ao cinema ser este perfeito instrumento ontológico, o "instrumento científico" ao qual Losey "restitui sua função original" (Jean Douchet, Un art de laboratoire, -> http://signododragao.blogspot.com/2008/02/un-art-de-laboratoire.html); e ainda, conforme demonstra Aumont, dizer que "a arte é a religião da lucidez" é dizer que a arte é a religião de uma época lúcida, uma época que já não tem mais a necessidade de uma fé em Deus (Nietzsche mais uma vez não está longe). Derrubar as catedrais, destruir os mitos: essa parece ser a prioridade de toda a crítica MacMahonista. O MacMahonismo como um todo, no frigir dos ovos, foi sobretudo um esforço de se dizer com naturalidade e sem histrionismos que Santa Joana e Intendente Sansho eram melhores que Kane, que Time Without Pity era melhor que Bigger Than Life, Tigre de Bengala e O Sepulcro Indiano melhores que Vertigo e O Homem Errado, Una donna libera melhor que L'Avventura e Objective Burma! melhor que todos. Se esse é o crime, mais uma vez guilty as charged, porque é onde vejo que confluem todas as grandes teorias sobre o cinema: a janela para o mundo, a caméra-stylo, as teorias de fascinação do Mourlet (eis portanto uma bela definição do MacMahonismo: 30% de Bazin, 30% de Astruc e 40% de Valéry - ou Borges, no caso de Lourcelles), a todas essas exigências - que os teóricos foram capazes de pressentir sem no entanto orientar a totalidade do cinema rumo a elas - os grandes filmes acabaram por responder espontaneamente, naturalmente. Que esses filmes tenham procurado e mesmo encontrado tais exigências, isso talvez indique que Bazin, Astruc e Mourlet há 50, 60 anos atrás talvez estivessem antevendo algumas coisas: o desprendimento - Astruc, mais uma vez - máximo (o que é bem diferente de insubmissão, visto que qualquer desprendimento sugere mesmo que parcial ou primordialmente uma dependência) da técnica à matéria e da matéria à forma só pode desabrochar justamente dentro das restrições que uma impõe sobre a outra e assim por diante. Talvez o termo realismo seja insuficiente quando não acompanhado das noções de materialismo, de concretude. Materialismo e concretude: eis porque um delírio tão inultrapassável como o que compõe A Idade da Terra seja capaz de sustentar um filme dessa envergadura, desse peso, enquanto os papéis de parede de Todd Haynes seguem uns aos outros e podiam continuar se seguindo até o fim dos tempos (jamais à eternidade, porém, ao contrário do Glauber).

bruno andrade disse...

Agora que se mencionou Glauber e Haynes, talvez seja uma boa hora para se falar sobre a "confusão brutal entre produtos da imaginação como o Caligari e produtos posados cujo símbolo tradicional são as obras do Sternberg". Ora, a diferença entre exploração de universos mentais (Lynch) e preciosismo ornamental (Bava) é uma fácil de ser feita e de se discernir. Se existe confusão (como num encontro apaixonado e pulsante entre uma coisa e a outra como em Lisa and the Devil), ela é muitas vezes produto justamente dos realizadores da memória e dos arabescos das construções da mente: o exemplo clássico evidentemente não tem como deixar de ser Marienbad, onde Resnais cedeu à tentação - sem dúvida atraente, sem dúvida repreensível - de fazer com que um universo mental fosse representado pela mineralização das figuras descritas em meio a uma exploração lúgubre de cenários cubistas expressamente modernos. Poder-se-ia dizer: "Nada mais natural para alguém que anteriormente havia realizado um curta-metragem sobre Guernica além de filmes intitulados Les Statues meurent aussi e Toute la mémoire du monde". É esse o lado atraente da aventura - que me faz adorar o filme e admirá-lo para além do que seria prudente -, ao qual segue o lado repreensível de sua realização: essa mesma descrição minuciosa de um universo deliberadamente irreal poderia vir de um espectador recentemente enfeitiçado pelas delícias de um cinema exacerbadamente caligrafista, entre Epstein, L'Herbier e Dullac, que - como não podiam deixar de o ser - não foram mais que uma etapa dessa procura do cinema pela sua matéria, e mais tarde dessa matéria à fidelidade de suas formas verdadeiras. Portanto, e desnecessário insistir: é a regressão que está logo ali na esquina, a qual toda fascinação pode conduzir. É o risco de Marienbad, sua aposta - e eis que a admiração só aumenta -, e curiosamente também era um risco calculado do MacMahonismo. Calculado, porque Mourlet previu esse risco e rapidamente o contornou, encontrou sua solução: se na sua trajetória o cinema procura esse "desprendimento máximo" da técnica à matéria e da matéria à forma justamente dentro das restrições que uma impõe sobre a outra e assim por diante, qualquer fascinação fora dessas condições não terá como se sustentar para além de seu caráter de exceção. Por isso é simplesmente falso dizer que o MacMahonismo, assim como as teorias Bazinianas, "valem para boa parte dos filmes que se enquadram na chamada (de modo simplista, ok) 'narrativa clássica'": foi justamente por não considerarem a modernidade uma exceção que Mourlet e cia. foram tão enfáticos quanto ao verdadeiro devir do cinema, que como eu já disse exaustivamente, passadas as vacilações e oscilações (em grande parte formidáveis, brilhantes, essenciais) dos últimos 30 anos, estamos testemunhando em primeira mão numa série de filmes cuja novidade não favorece a compreensão real de suas qualidades. Foi portanto o próprio cinema que se encarregou, não de confirmar - porque as coisas não são tão simples assim -, mas de precisar, contextualizar e passar a limpo o caráter lúcido e inevitável do manifesto de Mourlet, da mesma forma que antes mesmo desse manifesto ser escrito o cinema já havia fornecido indícios dessa inteligência da câmera que está no centro de todas as teorias de cinema dignas desse nome (as teorias precisando nascer de algum lugar, melhor então que seja dos filmes). Como Era Verde o Meu Vale, Una donna libera, Pursued, O Menino dos Cabelos Verdes aparecem como os únicos filmes da toda a história do cinema - pelo menos dentre os que conheço; com certeza Mourlet e Lourcelles conhecem outros - capazes de sugerir formas concretas e definitivas aos problemas da construção mental e da interiorização dos sentimentos, ou ainda de ambas (Santa Joana, A Woman in the Window e mais um punhado chegam perto). A modernidade é a própria condição do cinema, incontornável e irrefutável, visto que foi "a única arte inventada, a única que, necessitando um certo desenvolvimento da técnica e um certo estado da civilização (...) não teve como as outras uma origem mítica e um desenvolvimento universal, mas sim resultou de uma invenção local e historicamente determinada" (Aumont, Le cinema et la mise en scène, ps. 73-74).

bruno andrade disse...

Que um filme como Coeurs se assemelhe mais a uma peça de Guitry que a um filme como Marienbad, que Garrel evoque a resistência durante a revolução francesa para melhor fazer sua pintura sobre o abismo de 68 que o tragou, que a atmosfera de Não Toque no Machado nos remeta mais às de Moonfleet e Under Capricorn que a de Noroît, isso tudo parece apenas confirmar que muitas vezes os grandes homens de seus tempos são aqueles que mais vão contra suas épocas.

A questão portanto é: como prosseguir com o MacMahonismo após as intervenções de Resnais, Glauber, Paradjanov, Fassbinder? E a questão subseqüente: como não prosseguir quando nossos tempos estão imbuídos de um conservadorismo estético e criativo que permite esse gigantescos castelos de areia como I'm Not There? A questão ainda está longe de ser solucionada, o que é finalmente muito estimulante - e eis que não sou assim tão preso às minhas certezas, não? A questão é, e vai permanecer sendo - pelo menos para mim -, a seguinte: confrontar as questões certas e evitar as dispensáveis.

Para terminar, o que posso dizer é que essa insistência do Daniel com tudo que é da ordem da religião, da fé, é um tanto assustadora, mais freqüente do que devia ser; parece algo mais próximo de uma fascinação em reverso que de uma repulsa. Na boa, Daniel: quanto ao MacMahonismo, você está confundindo euforia - que de culto exacerbado a lucidez pode passar pelo tumulto entre as duas coisas, justamente esse tumulto que no geral o MacMahonismo vai procurar - com religiosidade. E mais na boa ainda: se preferir essa euforia à escrita carrancuda, pedante e na maioria das vezes natimorta que se faz hoje (Can Movies Think? Vá catar coquinho, Kent Jones) é sinal de regressão, então esse será o preço a ser pago.

Marquinho disse...

Alguém por ai viu o Jona? Ele está com minha tese-espelho que lida com uma ponte entre pederastia e as críticas ao novo Walter Salles

Arquivo do blog