terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Revendo O Conformista.

O que ainda surpreende no filme é que por mais que a boa vontade do espectador (além de, verdade seja dita, boa dose de insistência) o faça relevar os penduricalhos que ornam a Paris caligrafista percorrida pela câmera acrobática de Bertolucci (trabalho freqüentemente dificultado pela recorrência de um estilo visual empolado, intrusivo, inorgânico e como que completamente devitalizado), ainda assim esse espectador acaba se deparando com a curiosíssima ausência de ênfase sobre os elementos vitais da cena (a saber, os atores e a relação destes com o cenário) que tal estilo encontra quando colocado à prova por sua realização, quando concretizado por uma encenação: assistimos ao espetáculo cromático (alguns certamente maravilhados, outros sem dúvida entediados) sem no entanto nos envolvermos por um segundo que seja, apesar das presenças luminosas de Dominique Sanda e Stefania Sandrelli, por essa percepção sentimental e psicológica da sensualidade, da libido, ambas vistas como que através de um prisma que as revelam como pulsões de morte... Talvez daí o personagem mais interessante do filme ser o de Gastone Moschin - como sempre extraordinário, de tal forma que é concretamente o único ator, o único elemento em cena, o único organismo vivo que existe enquanto tal e capaz portanto de transcender uma encenação paralisante que parece proceder a partir de uma impotência natural diante do ator, retirando deste tudo que lhe é vital. Daí a gratuidade da imensa maioria dos movimentos de câmera; os ângulos e enquadramentos que se ocupam sobremaneira de si mesmos, provavelmente para se ocuparem menos daquilo que deviam encenar; a disposição aleatória de volumes espaciais os mais disparatados no interior do quadro; a agitação de superfícies sensíveis das quais só vemos o invólucro, envelopes vazios de conteúdos que Bertolucci no mais demonstra ser absolutamente incapaz de preencher. Mesmo a frontalidade é empregada como um muro intransponível e sufocante, restituição decorativa da tela ao interior da cena (e mais especificamente ao seu fundo), e não como uma concha teatral que permite e garante à cena sua respiração, como em Oliveira, Murnau, Straub/Huillet, Mizoguchi, Monteiro, Bava, Brisseau, DeMille, Ford, Costa, Minnelli, Cukor, o tão reverenciado Pasolini etc.

Mas há outro elemento que garante à presença de Moschin um relevo mais do que ausente em todos os outros personagens do filme, incluindo aí o protagonista que Trintignant interpreta como uma massa ectoplasmática: é que seu personagem é o mais condizente com essa visão sinistra de um passado lúgubre do qual Bertolucci deseja se libertar, se redimir, e cuja lembrança o atormenta ao mesmo tempo em que nela encontra o melhor meio, a melhor forma (assimétrica, desproporcional, caligrafista) de realizar uma espécie de "catarse em reverso", uma catarse do mal que lhe permite se resignar à sua posição de burguês satisfeito e tranqüilo. E é curiosamente um documentário - sem dúvida involuntário e por essa mesma razão dolorosamente sincero - que se sobrepuja e por fim triunfa sobre o mausoléu que Bertolucci deseja construir para encerrar essa imagem conscientemente falsa, distorcida, embaralhada e aberrante de um passado que é a melhor figuração possível da ausência de um horizonte histórico que não pode conduzir senão à regressão (da qual o filme é um monumento consciente, portanto tristíssimo), à má consciência política e ideológica, ao desejo de regredir e se perder num passado irreal, repleto de delícias e perfumado de sensualidade, rumo à absoluta inconsciência...

Um documentário, portanto, sobre um certo momento dos anos 70 que outros - Glauber, Godard, Straub/Huillet, Fassbinder, Kramer, Pasolini, Duras - também foram capazes de pressentir tomando porém o cuidado de tomar o outro partido das coisas.

5 comentários:

Anônimo disse...

Totalmente de acuerdo. Bertolucci ha sido quizá (lo de Wenders es menos grave) mi máxima decepción cinéfila. Me encantan "La commare secca", sobre todo "Prima della Rivoluzione" todavía la demente y desesperada "Patner" (nunca olvidaré la gran definición del difunto Enzo Ungari, para quien el "Scaramouche" de Sidney era "Partner riuscito", "Partner" logrado), pero que ya en "Strategia del ragno", traicionado a Borges, empezó a tomar partido por lo falso, de lo que "Il conformista" es una muestra alarmante de un deterioro gradual pero casi ininterrumpido ... que culmina en "The Dreamers", que debe entusiasmar a Honoré...
Miguel Marías

bruno andrade disse...

Pior que o monumento em si são as ruínas que permaneceram, seus rastros: quantos filmes sacrificados, quantas obras laboriosas O Conformista nos legou e ainda nos lega (Honoré, para ficar apenas num comum acordo, além de Paul Thomas Anderson, Spike Lee no que produz de pior e mais provinciano etc.)? Eu diria que para início de conversa boa parte do que se produziu no auge da Nova Hollywood (a influência de Storaro foi particularmente catastrófica; ao contrário do que parece ser consenso, acredito que Zsigmond sanou e mesmo reparou alguns dos estragos que Storaro fez nas percepções cromáticas de vários diretores americanos dos anos 70 - um bom contra-exemplo ao resultado atingido em O Conformista é o trabalho feito em Heaven's Gate, paleta limitada e por isso mesmo constantemente controlada e controlável, basicamente o oposto do que Storaro e Bertolucci conseguiram com os zilhões de filtros utilizados para suas colaborações), para além de uma mentalidade de autoria como moeda de troca, como mais-valia cultural e mercantil, autorismo outré se jamais houve um, que prefere antes chamar a atenção para seu poder e alcance publicitário do que para aquilo que produz.

A intervenção do filme foi no geral catastrófica: a estímulo a uma versão empolada e pomposa do maneirismo, sem aquilo que o maneirismo pode trazer de bom - o sincretismo, a síntese amparada pelo furor analítico como em De Palma - e a regressão no cinema a uma visão romântica do autor todo-poderoso que a modernidade já parecia ter, no cinema como nas outras artes, colocado em seu lugar (para mim permanece curiosíssimo como alguns conseguiram ver em Cimino algo como um Bertolucci americano; para mim são francos opostos com alguns pontos de contato bastante superficiais, no máximo. Para tanto, basta comparar os abismos que separam O Último Imperador de O Siciliano, feitos no mesmo ano).

bruno andrade disse...

Sobre o que há de bom em Bertolucci - o que para mim vai de La commare secca à Estratégia da Aranha, sem reservas, passando por alguns momentos esparsos (mais e mais esparsos a cada nova revisão...) em O Último Imperador -, cito o que escreveu Jean-Claude Biette: "Dans la première partie de son oeuvre qui s'achève par le grinçant et vivifiant Partner tourné en plein mai 68, Bertolucci expose dans le meilleur sens du mot l'humeur à travers laquelle il perçoit les événements. En ce sens La commare secca est peut-être le seul film authentiquement adolescent de l'histoire du cinéma. Il exprime en toute limpidité une vision adolescente, pure des défauts propres aux cinéastes adolescentes (virtuosités techniques, provocation, originalité ostentatoire etc.) et riche de qualités éphémères: ferveur et inconscience, qui engendrent des audaces naturelles qui ne fleurrisent qu'une fois."

Anônimo disse...

Esta vez de acuerdo en todo (curioso la cantidad de gente que adora "Il conformista", "Last Tango in Paris", "Novecento"), y preciso que, en efecto, su influencia general (y de gusto cinéfilo) fue desastrosa y hasta corruptora. No digo que sea "Strategia del ragno" una catástrofe, sino que ya ahí se me puso "la mosca tras la oreja", dejé de confiar en Bertolucci. De lo posterior, lo más Lean de "The Last Emperor", escenas aisladas y, para mí, dos films que se salvan, aunque ya no infundan esperanza: "La tragedia di un uomo ridicolo" y - sobre todo -"Besieged", la más modesta en decenios. Recuerdo el texto de Biette, con el que igualmente concuerdo en lo fundamental. Y está bien buscada la comparación con Cimino: algunos creeran que es lo mismo, cuando es lo opuesto. Por eso sigo considerando a Cimino como el frustrado pero posible verdadero heredero de Ford.
Miguel Marías

PSL disse...

Bertolucci busca a imagem bonita. Cimino busca (e encontra) a imagem. Não há movimento de câmera que surja por si meso em "The Deer Hunter", por exemplo, a não ser para esbarrar no acidente dramático dos personagens. Bertolucci leva a câmera ao passeio do nada.

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