domingo, 17 de maio de 2009



Assim falava Zaratustra ao seu coração quando o sol ia em meio do seu curso; depois dirigiu para as alturas um olhar interrogador porque ouvia por cima de si o grito penetrante de uma ave. E viu uma águia que pairava nos ares traçando largos rodeios e sustentando uma serpente que não parecia uma presa, mas um aliado, porque se lhe enroscava ao pescoço.

***

Nós outros, solitários, construímos o nosso ninho na árvore do futuro; as águias nos trarão no bico o sustento.

E de certo não será um sustento de que possam participar os impuros! Porque os impuros julgariam que devoravam fogo e que as fauces se lhes abrasavam.

Não preparamos aqui, em verdade, moradias para os impuros! A vossa ventura pareceria glacial aos seus corpos e aos seus espíritos!

E nós queremos viver por cima deles como ventos fortes, vizinhos das águias, vizinhos do sol; assim vivem os ventos fortes.


***

Vós não sois águias: por isso não conhecestes o gozo no assombro do espírito. Quem não é ave não deve voar sobre abismos.

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Onde localizar hoje em dia essa nobreza, essa altura, esse espírito, esse "olhar de águia" cujo destino Mourlet vislumbrou há 50 anos atrás?











4 comentários:

bruno andrade disse...

O verdadeiro cinema contemplativo - isto é, um cinema verdadeiramente contemplativo.

Impressionante como as imagens do Rivette lembram Walsh.

Maria Rita disse...

triste não ter sido a síndrome de pureza aquela a trazer nietzsche dos píncaros ao senso comum, os falsos malditos parecem justificar ao contrário arrogante ignorância em nome de pretensa negação de cristo.

Matheus Cartaxo disse...

«Comme Pursued de Walsh, comme Ordet de Dreyer, Les contes de la lune vague entend décrire la totalité cosmique du monde. Le fond du cœur de l’homme, les mystères du ciel, le visible et l’invisible sont leur sujet, et il est sans limites.»

bruno andrade disse...

Exatamente por aí, Matheus. Do outro lado do espectro, filmes como Cassandra's Dream, os de Lang, Underworld USA - aqueles que consomem nossos olhos numa vertigem e se precipitam implacavelmente à beira do abismo.

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