terça-feira, 11 de agosto de 2009

Realmente não ia falar nada sobre o assunto, basicamente porque esperava que as pessoas percebessem em algum momento ou em outro o grau de estupidez que estão estimulando no debate crítico de um filme.

Fato é que eu simplesmente não consigo acreditar que nos tempos em que vivemos alguém ainda dê algum crédito de importância ao que DÉBEIS-MENTAIS como Bernardet (Mausoléu Uspiano, Tutankhamon de teorias acadêmicas? Gimme' a fucking break) e Escorel (Piauí? HAHAHAHAHAHAHAHA) acham ou deixam de achar, pensam ou deixam de pensar.

Que esse "alguém" seja boa parte do que supostamente constitui nossa suposta crítica de cinema nos diz muito, justamente, do momento que, com muito sacrifício e desta forma com muitas baixas, atravessamos.

4 comentários:

Sérgio Alpendre disse...

é bem triste, mesmo.

Marcelo Miranda disse...

Bruno, eu acho que essa é uma posição tão intolerante da sua parte quanto o é a sua consideração do que os citados Escorel e Bernardet são ou deixam de ser. Eu acho que ambos são figuras de muita importância - em especial o Bernardet, que, goste-se ou não, desenvolveu por décadas um pensamento crítico sobre o cinema do país como poucos se dispuseram a fazer com tanto afinco. Discordar do que eles apontam sobre isso ou aquilo é extremamente válido, mas acho que seria bem mais saudável expor os pontos de vista em contrário, em vez de chamá-los de "débeis mentais" e apontar dedos para os "alguéns" que ainda levam o que eles dizem em consideração. Eu, por exemplo, e dentro da sua lógica, sou um "alguém" e não vejo problema algum em ler e repercutir o que os caras falam, nem que seja pra perceber reações tão extremadas como esta sua. Agora, discussão, que é bom, não é gerada por essa revolta toda. Débeis mentais ou não, os caras estão aí, se arriscando a falar o que pensam (e a serem chamados de débeis mentais) a partir de um filme, e não de qualquer outro elemento. Pensar cinema, pra mim, não é atacar o outro. Abraço.

bruno andrade disse...

Oi Marcelo,

se estamos falando de crítica - e acho que é disso que estamos falando, afinal - não tolerar faz parte do negócio (entendendo, que fique claro, intolerância como recusa, único modo de entendê-la da maneira com que a propusesse). Diria inclusive que numa base diária. E já que estamos falando mesmo de crítica, 1) não estamos falando de Bernardet, que nunca fez crítica de cinema na sua vida, seja lá o que for que se entenda por crítica de cinema (incluindo aí aquilo que ela é); 2) estamos necessariamente implicando Bernardet pelo que é e sempre foi: um péssimo teórico (o que é aceitável, visto o altíssimo número de péssimos teóricos por aí) com um péssimo gosto (o que é inaceitável, ainda mais e sobretudo se estivéssemos falando de um crítico de cinema - o que felizmente, conforme já expus acima, não é o caso).

Honestamente não vejo como, num país que produziu Jairo Ferreira, Sganzerla, Inácio, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, o próprio Ismail, Glauber, não vejo como um pedante sem gosto e sem generosidade alguma, que trata o cinema como se estivesse falando de álgebra e dispõe conceitos como se trabalhasse com análises combinatórias, não vejo enfim como uma farsa dessas pôde, e ainda pode - e eis o dano que está sendo feito, e que já se prolongou demasiadamente, e que precisa cessar em definitivo - ser levado a sério. Nem um pensador de cinema, nem um teórico (ao menos se considerarmos que existem alguns bons, e que Bernardet definitivamente não está entre eles), nem um crítico, nem nada: um bufão, extremamente talentoso para a auto-promoção e ciente do poder desta, e pouco mais. Posição para minoria, reconheço, mas muitas vezes alguma razão pode ser encontrada em possessão dos happy few.

Quanto aos pontos de vista em contrário, eu não posso dar um, uma vez que ainda não vi o filme, e é por isso que já informo logo no início do post que não queria me meter na pendenga. Tendo ou não visto o filme, gostando dele eventualmente ou não, a questão aqui não é gostar ou não gostar, não é meramente repreender quem não gosta (como o Escoriel fez com quem... gosta, atitude estúpida e anti-crítica se jamais houve uma): o que acho aqui é simplesmente que aquiescer diante de dois colossos aos pés de argila, um caduco e um ressentido (para não dizer "um psicopata" - vide suas declarações há alguns anos atrás sobre o que a restauração digital poderia fazer ao Macunaíma de Joaquim Pedro), é ceder por muito pouco, é não exercer a função crítica, é não persistir rumo ao devir dessa função.

bruno andrade disse...

Sobre pensar cinema, eu tenho uma posição talvez ainda mais "intolerante": acho que desde a morte do Jean-Claude Biette em 2003 o pensamento sobre cinema sofreu uma grande baixa, e desta vez muito possivelmente irreparável e mesmo irreversível (Skorecki, por mais admirável que seja, não é nem jamais foi ou quis ser um pensador; Douchet o é mas não é mais nessa direção que produz, e tanto Mourlet quanto Lourcelles produzem hoje em dia apenas muito esporadicamente sobre cinema. O que Rancière escreve e vem escrevendo sobre Costa, em contrapartida, talvez desminta um pouco o meu ceticismo, assim como o pensamento do Pierre Léon, que quem lê Trafic pode - e deve - conhecer). Pensar cinema não é para qualquer um - boa parte do que constitui e constituiu a crítica não faz nem fez isso, e não pense que falo isso como algo ruim: trata-se somente de uma constatação -, em grande parte porque é e sempre foi posição de vanguarda e para poucos. Quem realmente pensou cinema? Na crítica Bazin, Daney, Rivette, Mourlet, Biette; Godard também, porém quando já havia ascendido à realização cinematográfica - grande parte dos seus textos como crítico são inofensivos e pouco mais que promessas de algo que somente mais tarde pôde se concretizar, já com outros meios de produção, outras armas (muito importantes para qualquer pensador - a poesia para Valéry, a literatura para Joyce, a história do séc. XX para Godard). De um modo ou de outro, o que fica claro lendo quase todos esses caras - Bazin poderia ser a exceção, e nem mesmo ele, veja só; nem mesmo ele, o mais generoso dentre todos, chega a constituir uma - ou vendo qualquer Godard é que na medida em que pensavam o cinema mais assumiam essa necessidade, não saberia dizer se intrínseca ou extrínseca, de ataque. Biette falando mal de Wenders - isso quando ninguém o fazia, e quando fazê-lo era um convite para ser visto como um intratável sem etiquetas -, Mourlet de Antonioni, Sganzerla de Fellini, Jairo de Visconti, Rivette de Kurosawa, Daney de Bertolucci, Lourcelles de Godard, Godard de tudo: todos precisaram, como aliás é próprio dos pensadores, escorar suas idéias em alguma superfície, e para isso alguns suportes instrumentais teriam que ser esfacelados, tombados ao chão (diferente da chantagem-cor-de-rosa-nossa-de-cada-dia de grande parte da crítica dita "especializada", que escolhe seus alvos em proporção inversa às catedrais por eles erigidas). É o risco que esses caras aceitaram ao se lançarem na avant-garde - sobrou para eles todo o trabalho que a retaguarda não queria, e ainda não aprendeu a querer, fazer.

Arquivo do blog