quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Canhões Para Córdoba, Paul Wendkos, 1970.

Bom, mas nada demais. Como os outros filmes do Wendkos, de uma modernidade flagrante: dessa vez o filme não tem começo nem fim propriamente ditos - notar os letreiros iniciais e as cenas com John Russell logo no início, filmadas e montadas brilhantemente mas articuladas ao restante da apresentação do filme por um fiapo miserável de narrativa. Já os dois planos finais são remendados por nada menos que uma das elipses mais aleatórias, agressivas, absurdas e plenamente satisfatórias de toda a história do cinema ("Trouble being a hero is the morning after. Let's bury him"; corta para um matte shot muito mal feito da fortaleza destruída de Córdoba - George Peppard, ator mais subestimado do cinema americano?).

Ainda assim, é tudo o que Tarantino não alcançou com Bastardos Inglórios.

5 comentários:

Luan Gonsales disse...

Não curtiu os Bastardos, Bruno?

bruno andrade disse...

Curti as duas primeiras seções, muito - entre as melhores coisas que o Tarantino já fez, as mais livres das concessões que ele geralmente faz aos seus roteiros.

Aí começa a cena da conversa diante da fachada do cinema, e ali eu já vi que viria tudo abaixo: tudo o que tem a ver com a personagem da Shosanna é de uma pobreza e falta de invenção (roteirística, sobretudo) gritantes: a mise en scène abismal de todos os encontros dela com o soldado alemão, provavelmente as cenas mais sem ritmo já rodadas pelo Tarantino; a mise en scène inexistente naquela cena em que o Tarantino tem que inclusive recorrer aos closes - intrusivos - do garfo cortando a torta como também àquela digressão vulgar e sem propósito do Goebbels comendo a Sophie Fatale (vá me desculpar Tarantino, mas Lubitsch jamais faria esse tipo de coisa, e agora que me pego pensando a respeito quem faz esse tipo de coisa é o Tom Tykwer - Corra Lola Corra, puta que pariu...). Um, talvez dois olhares cúmplices entre os atores e estaria tudo resolvido por uma mise en scène digna desse nome. Infelizmente não é o caso desta cena.

Eu já estava pressentindo voluntarismo estético brabo quando começou aquele papo nojento de "na França os realizadores são realmente vistos como autores" blábláblá, mas nada que pudesse ter me preparado para o 5º ato do filme que é - exceção nobilíssima feita ao Pitt falando italiano - de longe a pior coisa que o Tarantino fez em sua carreira de cineasta, incluindo aí os dois Kill Bill. Sob o ponto de vista de qualquer mise en scène que se quer mais que mera ilustração de roteiro, aqueles movimentos de grua arrojados mas inúteis com as legendinhas que apresentam as peças chave da noite são simplesmente inadmissíveis. E, francamente, quer coisa mais involuntariamente brega que aquelas risadas da Shosanna com a tela em chamas e os alemães sendo metralhados e duas bombas relógio coladas às pernas dos Basterds e prestes a explodir?

A personagem da Diane Kruger é fantástica porém completamente desperdiçada, a cena com o Mike Myers é muito boa, assim como a da taverna (mas ali o Tarantino não consegue negociar com os atores o milagre de ritmo que, com as ajudas inestimáveis do Christoph Waltz e do campônio francês, obteve na primeira cena).

É sob todos os aspectos uma regressão em relação a Death Proof, onde vimos a perfeição, a depuração e consumação de um estilo definitivo; Death Proof, que à sua maneira peculiar é o mais próximo que o cinema americano dessa década chegou de Biette, e junto com Jackie Brown o único filme em que pudemos ver o realizador Tarantino acordado ao ótimo roteirista de péssimos roteiros que ele é.

Milton do Prado disse...

Gostei bem mais do Bastardos do que tu ou o Sergio, mas realmente a cena da janta (almoço?) da Shosanna com o soldado alemão e Goebells é das piores coisas feitas/montadas pelo Tarantino, incluindo aí os detalhes dos talheres etc.

E tem mais: tenho uma baita desconfiança que a digressão grosseira do Goebbels trepando com a tradutora é coisa do amiguinho-sem-talento Eli Roth. Eu seria capaz de apostar que tem o dedo dele em alguns lances do filme, incluindo este.

bruno andrade disse...

Não vi nada do Eli Roth, então não saberia dizer, mas as digressões - todas, sem exceção, incluindo o Hugo Stiglitz metendo bala no carro com alemães com a ajuda de outros dois bastardos -, todas as digressões me incomodam demais.

E eu sei que você não quis dizer isso, mas é só para deixar um ponto de vista claro mesmo: eu gosto do filme, e talvez venha a gostar ainda mais numa revisão. Acho que vou perceber melhor outras qualidades, até porque as deficiências ainda estarão lá.

bruno andrade disse...

Agora, uma coisa tem que ser dita contra o Eli Roth: a pior coisa, de longe, do Bastardos - o filme alemão projetado no cinema da Shosanna - é dele e não do Tarantino. Será que ninguém, nem mesmo o Tarantino, avisou-o que os filmes alemães dos anos 40 não foram produzidos pela New World nem pela Cannon?

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