domingo, 22 de novembro de 2009

NOTE SUR THE LAWLESS

Se The Lawless é o mais belo dos filmes é porque não há outro que nos advirta de um sentimento mais justo da natureza.

Não há, para a mão que desenha, e para o cineasta que olha, outra razão que a de precisar a ordem e a beleza natural das coisas.

Assim, a beleza deve ser radiante. (Vitória! exclamei cheio de admiração.) O fervor que me toma a cada visão de The Lawless é como o sentimento de uma respiração mais confortável, a segurança de um sangue mais puro.

Era como a própria primavera!

A beleza da mise en scène é o desenho mais nítido possível da beleza do modelo. (Sucede que nos outros filmes permaneça apenas a nitidez do desenho enquanto o que nos é mostrado é feio ou falso: é o caso de O Tigre de Bengala, de Fritz Lang.)

Como o amor, a beleza só pode nascer da admiração. Pensando na temeridade de seu discurso, a mente encontra sua força no entusiasmo.

Não existe outro tema que a aquiescência à felicidade. O brio de The Lawless, o calor e a impaciência de sua mise en scène são a graça reservada a essa concretização. Esse tom é o da juventude, irresistível portanto, semelhante ao ardor de um mergulho matinal.

Uma tal felicidade exige as cores e a luz mais francas. A vibração do ar, a clareza da decupagem darão um brilho encantador às formas de um corpo livre e vivaz. Exemplo: uma árvore é uma árvore, uma garota é uma garota, a garota sobe na árvore (e machuca o joelho).

O intento de The Lawless é o mais grave, pois trata de estabelecer as relações mais nobres possíveis entre um homem e uma jovem mulher, e se o filme consagra alguns capítulos à violência, ele nos proporciona sobretudo o prazer, a arte de viver e a cortesia.

Marc BERNARD

Cahiers du Cinéma n° 111, setembro 1960, pp. 33

4 comentários:

Anônimo disse...

Ojalá fuera "The Lawless" tan hermosa como dice esta crítica, que ve más allá de sus imágenes lo que podría haber sido, pero no alcanza a ser. Tal vez el Dwan de esos años, quizá Walsh, seguramente más que nadie Ida Lupino hubiera sido capaz de hacer ese film que Marc C. Bernard sueña viendo "The Lawless", limitado por un guión discursivo y didáctico y bienintencionado en exceso y cierto enfatismo incongruente en la "mise-en-scène" de Losey, ya mucho menos pura y límpida que en "The Boy With Green Hair".
Miguel Marías

bruno andrade disse...

Concordo com a comparação a The Boy With Green Hair, que me parece injusta na medida em que essa perda se dá não apenas com todos os filmes posteriores de Losey mas com praticamente todo e qualquer filme que se compare a Boy - um desses casos em que uma certa altura foi alcançada, apenas raramente acessível à maioria das obras de arte (caso também de Sansho Dayu, Othon, Una donna libera, Coisas Secretas). Mas o que Losey perde em pureza e limpidez, ele ganha por outro lado em brevidade e nitidez: a mise en scène de The Lawless, tão exata, tão desembaraçada de trivialidades, permite a Losey não perder tempo tentando amenizar o que seria a parte didática e bem-intencionada do filme. Não ameniza, mas também não sei se enfatiza: na velocidade em que os eventos ocorrem, resta às coisas serem o que são. Acho que ele lida exemplarmente com essa parte bem intencionada do filme concentrando-a sobretudo na figura da jovem mexicana interpretada por Gail Russell, mostrando nela o atrevimento e a impavidez através das quais essas boas intenções se revelam. O filme faz esse momvimento, acho que pelo seu extremo laconismo, de trazer para a superfície o que realmente importa - a relação da jovem jornalista com o jornalista cansado de guerra - sem que no entanto haja uma oposição com a parte didática, social - é ela que acompanha a história do nascimento do amor entre os dois jornalistas mais do que estes a ela. É uma maneira inteligente de expandir o "propos" do filme (se concordamos que o verdadeiro intento do filme é mostrar essa história entre os dois jornalistas), e também de evitar a pura demagogia - Losey não comete o erro de dar ao menino perseguido qualquer parecer sobre a sua condição: isso nós vemos através da personagem de Russell, de Macdonald Carey, dos habitantes da cidade, dos amigos, do pai do menino rico cuja batida ocasionou a briga etc. Quando o garoto finalmente fala, ao final, não há qualquer revelação: continuamos sabendo dele o que o filme nos deu a saber. E o filme se fecha inclusive com uma fala um pouco enigmática, que não nos dá a saber mais nem sobre o garoto nem sobre o jornalista. É também um filme de olhares - e eu diria que sobretudo -, como essa pequena cena atesta: um grande filme de olhares.

Anônimo disse...

Injusta no creo, es una comparación obvia, invitable, de su segundo film con el primero. Lo que sucede es que hay en Losey dos tendencias, una, que brilla esplendorosamente en "The Boy With Green Hair" y tiene su última (ya atenuada, quizá) manifestación en "Blind Date", serena y sin efectos, que lo emparenta con Dwan, Lupino o Walsh; otra, que acaba dominando, nerviosa, casi histérica, rápida y eficaz, que empieza con "The Lawless" y brilla en "Time Without Pity", "The Big Night" o "The Criminal", y en la que, aún apreciando esas obras, echo de menos la otra tendencia cuando hay un islote de calma, intimidad, contacto o miradas (como las escenas con Gail Russell). Y el artículo de Marc C. Bernard me parece que retrata mejor esa tendencia a la serenidad.
Miguel Marías

bruno andrade disse...

É uma comparação inevitável, sem dúvida, e como eu disse acima concordo com ela - mas ainda assim vejo uma certa injustiça. Ou melhor: menos uma injustiça que uma dissonância onde devia haver justamente uma consonância. Porque The Boy With Green Hair representa justamente a infância da arte no cinema de Losey; The Lawless não apresenta, penso, um amadurecimento na técnica de Losey, e no entanto é como se tudo já tivesse mudado - tudo, do olhar de Losey ao mundo que ele mira. A partir da caçada ao garoto tem-se a impressão de que a tendência à comtemplação que Losey demonstrou em The Boy With Green Hair chega a um impasse, semelhante ao que o jornalista interpretado por Macdonald Carey atravessa no decurso do filme. De The Boy With Green Hair esse cenário idílico, aparentemente intocado da pequena cidade à margem do cosmopolitismo; as esperanças dos jovens, das mais atrevidas (Gail Russell) às mais inocentes (Lalo Rios); a vontade dos mais velhos de atravessar a tempestade para acessar, de uma vez por todas e talvez até mesmo pela primeira vez, a calma (Gramp em Boy, Macdonald Carey aqui). Mas há um dado novo, cujo incômodo informa aquela que será a tendência das obras posteriores de Losey - sobretudo em M, que permanece para mim seu melhor filme, longe da beleza luminosa de Boy porém mais fiel à revelação das raízes pulsionais dos seus personagens, onde a nitidez implacável do olhar de Losey para o ser humano se revela por completo. Os jovens em The Lawless, ao contrário dos de The Boy With Green Hair, não possuem a mesma inclinação à serenidade e à busca da paz como Peter/Dean Stockwell em Boy. São nervosos, agitados e uma vez provocados não se rendem, não se entregam. Não é uma mudança apenas de superfície - a matéria se recolhe ainda mais sobre si mesma após ser atravessada por uma superfície cortante, o que de certa forma se assemelha a uma ferida que depois de aberta precisa cicatrizar. Mas ainda é o olhar de quem vê o mundo como se este tivesse recém-nascido - talvez aí a possibilidade de Lourcelles ver em The Lawless o prolongamento lógico de Boy (não sei se concordo, mas ao mesmo tempo a idéia é muito sedutora para simplesmente abandoná-la).

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