quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Seria muito fácil no momento proferir um "bullseye", "na mosca" e todo esse tipo de coisa, mas aí eu estaria validando a reação de um grupo de pessoas que já tem por costume se superestimar. No que tange a crítica brasileira especificamente, tudo o que tenho a dizer é que ela freqüentemente confunde crítica de cinema com formação de opinião, questionamento com doutrinamento; que no geral ela está mais para Joyce Pascowitch que para Jairo Ferreira.

8 comentários:

Felipe disse...

"(...) Na matemática, o simples é, realmente, muito simples, mas na vida de sociedade não acontece o mesmo. Há na vida a tendência para negligenciar as coisas que são mais simples de compreender. Há nisto qualquer de coisa de cômico. Quem ganha com a cegueira das pessoas são os advogados. Estes têm, também, de possuir experiência da vida. A sensatez tem algo da justa medida do que é mediano. Todos nós temos muito pouco de mediano. Há muitas pessoas, sobretudo mulheres, que não suportam a mediania, o meio-termo, precisamente porque ela é a justa medida, ou então porque sentem inveja dessa justa mediania. (...)"

Robert Walser

Acredito que o meio termo na Crítica já tenha sido dado melhor do que ninguém por Bazin (que soube compreender por sua vez o que dizia Baudelaire na sua defesa por uma crítica parcial e apaixonada em Sobre a Modernidade), emoção mais o cognitivo numa troca generosa, cúmplice (junto com fermentação como minha palavra favorita nessa jurisdição), que forjará a sua essencialidade (obsessões geradoras de defesas valorativas, morais e sua força de insinuação e desenvolvimento aí inseridos) naturalmente.

O que não gosto na Crítica são esses advogados e coronéis que em vez de descreverem verdades terminam por prescrevê-las logo de cara (geralmente à base de intimidação retórica mesmo) e, no fim das contas, rebaixarem as obras de arte ao nível caricatural de sua compreensão. Eles se atém às minúcias, mas ignoram o movimento e a força da verdade, aonde ela repercute e como ela é desenvolvida. Falta vontade de ser intérprete ou mesmo de fazer parte do filme, acho.

Felipe disse...

Sem contar os que choram por um uso "brilhante uso de cinemascope" ou por um "mágico P & B granulado" simplesmente.

Sinceramente...

Deveriam ir à procura dum emprego ou duma garota mesmo.

david disse...

Provavelmente você vai discordar de mim bruno,mas outro mala sem alça:inácio araujo, todo texto cita um francês(quando não um alemão), mimetização da crítica francesa. Outra coisa irritante dele é de chamar tudo o que desgosta de reacionário, e o pior é que seus seguidores pegaram essa mania também, e como não tem a mesma cultura e politização do inácio, usam o termo sem sentido nenhum, escrevendo comentários e textos bizarros, textos escritos pra si mesmo.

david disse...

E mesmo quando usam o termo corretamente, é igualmente ridículo, porque acham que estão no paredão da cultura, onde podem ditar que o que é progressista é bom e o que é reacionário é ruim.Esse pessoal me lembra um episódio do south park, onde as pessoas gostavam de cheirar o próprio peido.

A.C. disse...

Se ela confude isso,não sei bem.
De qualquer maneira,os franceses( Truffaut,por exemplo) eram doutrinadores á sua maneira.
Se não fosse aquele doutrinamento de Chabrol,Rohmer e do anteriormente citado,Hitchcock não teria defesas à altura. Nem tampouco tantos outros artistas,como Ray,Fuller,Minnelli...
Não adianta atraiçoar a paixão,fingir que o subjetivo não reside ali.Mas esse,uma vez assumido honestamente,estaria(como dito pelo Felipe)casado com a capacidade reflexiva.
Arte é sensibilidade, e o treinamento dessa é o apuramento do perceptivo.
Não ser um legista de cadáveres,asfixiador analítico e teórico de uma obra,mas treinar intuir seu movimento,ao menos.E tentar expô-lo,de alguma maneira, no papel.
Qualquer coisa que se diga quanto à estilos de escrita poderá castrar a melhor maneira que cada um teria de se expressar.Que não é a mesma.Como Truffaut não escrevia como algum grande crítico americano,nem Chabrol como Truffaut ou Bazin,etc...mas todos contribuiam bem, por alguma forma.Suplementando-se e complementando-se.
Então falar sobre isso seria prescrever demais,perder nuances que se somam e se somaram na história.
Prefiro pensar mesmo em treino do movimento do olhar,no intuir(algo bergsoniano)do movimento de uma obra.
Com muito questionamento sim,mas sem fazer esforço para fingir que não há prazer,paixão(como no "Prazer do Texto,de Barthes).Pois de alguma maneira esse elemento de prazer irá escapar,e de tão recalcado,deixaria tudo ainda mais asfixiado e deslocado.

bruno andrade disse...

Pois é Alessandro, nesta relação a crítica brasileira no geral infelizmente está mais para Truffaut que para Rohmer, mais para Arts que para a Gazette du cinéma. Curto e grosso: há uma relação de causa e efeito aí, e é absurdo que numa prática de escrita e de pensamento crítico sobre o cinema o "doutrinamento" seja muitas vezes a causa ao invés de um efeito da repercussão das idéias de um texto. É por isso que as idéias de Truffaut no geral são bem menos interessantes que as de Rivette, Moullet, Rohmer, Demonsablon etc.

Citei (vejam só, culpado do pecado original) a Gazette du cinéma porque essa revista, fundada pelo Rohmer e na qual participaram Rivette, Bazin e Godard, foi na realidade o berço de um questionamento profundo sobre certos valores tidos como imprescindíveis no cinema francês (a saber, a dupla Aurenche/Bost, Clément, Duvivier, René Clair, Carné) e sobre um certo valor atribuído (pouco atribuído, na verdade) ao cinema americano de então que mais tarde se consolidaria nas posições mais extremadas destes e de outros críticos no Cahiers. As posições firmes dessa revista foram o corolário de um período importantíssimo (e interessatíssimo, infelizmente pouco comentado hoje em dia) onde Rohmer e seus colegas investiram uns bons dois anos numa espécie de revertério de valores e conceitos (muitos beirando o dogmático - as posições da crítica de esquerda de então, por exemplo).

A.C. disse...

Aliás,o Rohmer sempre me pareceu um cineasta mais consequente que o Truffaut e quem sabe seja reflexo disso que vc está a falar.
Só que também não seria cabível pensar que Truffaut não tivesse ideias de cinema.Ok,Bazin as tinha,foi influente e tudo.Mas sempre o vi mais como teórico do que como crítico.O que havia em Bazin é que ele procurava sistematizá-las teoricamente.
Já,por outro lado,essas "ideias de cinema", ao mesmo tempo que abriam caminhos,fechavam muitos outros.No caso de Bazin,o caso mais óbvio de não conseguir reconhecer Hawks e Hitchcock,por exemplo.
De maneira que essas "ideias",digo teorias,operavam como prisão,castração de outras perspectivas.No caso de Truffaut,como não estava aferrado a elas,poderia usufruir e resenhar cinema,considerando maior número de nuances.Se ele tivesse tanto essas "ideias"tão fundamentadas,talvez não conseguisse uma maior flexibilidade,qoe o permitia reconhecer tantos outros artistas que Bazin sequer considerava.

bruno andrade disse...

O Bazin era na realidade muito mais flexível que os jovens críticos do Cahiers, capaz de se retratar publicamente a respeito de um juízo equivocado, muitas vezes revisando tal juízo em algum momento ou em outro, coisas raras na crítica de então (mais ainda na de hoje). Rohmer: "É que para ele (Bazin), como para o sábio, existem uma verdade e um erro objetivos, ao passo que isso não ocorre com o doutrinador ou o impressionista". (a atualidade da crítica cinematográfica sendo feita por Rohmer há 50 anos atrás; nada de novo até aí, helas)

Voltando ao Rohmer, é sabido que ele sempre foi um admirador de Carné e Clair - o que não o impediu de criticar o último no final dos anos 50, nem de ser reticente a alguns aspectos da obra do primeiro. Como explicar que ainda assim a obra fílmica de Rohmer (crítica e artística) seja mais "conseqüente" que a do Truffaut, e que as defesas que Truffaut fez de Bérri, Lelouch, Rappenau pareçam absolutamente incoerentes vistas à luz dos ataques ferrenhos que fez ao cinema de qualidade dos anos 50? De um lado a cautela crítica, do outro a incoerência emotiva.

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