quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O que é dado a se ver de "vigor" num filme em que a violência energúmena das personagens é excedida somente pela violência estúpida da realização - fiel, nesse sentido, ao vigor que localizamos, por exemplo, no comportamento das bestas ou dos espécimes larvais?

Assim sendo, a única coisa na qual Cabeça a Prêmio realmente parece se empenhar é em constituir o catálogo de todas as práticas cinematográficas mais abomináveis da atualidade: cruzamento de imagens desbotadas e hipersaturadas na foto; nenhuma articulação entre os planos que decupam no tempo e no espaço um local ou, no caso específico da montagem, de uma idéia, mesmo que abstrata, da totalidade formada pelas trajetórias tão fatalistas e deterministas das personagens, que acabam convergindo para esse lugar nenhum que é o universo do filme (a não ser que admitamos de uma vez por todas que o essencial da construção do universo de um filme se dá não no trabalho sensível que o cineasta exerce sobre o seu material, mas no papel atribuído a uma extrapolação do papel da cenografia, corroborada por, e não "acordada a", uma fotografia que não lida mais com espaços mas com "ambientações" - portanto, com decoração, com lugar comum, com ornamentos, paredes de espeluncas engorduradas do chão ao teto, com soberania da cenografia sobre a foto e desta sobre a direção visual do filme, com publicidade em suma, mas não com realização, e menos ainda com mise en scène); Otávio Muller mais uma vez convocado para a enésima imitação de Carlos Vereza; final "aberto", provavelmente para injetar uma ambigüidade que dramaturgo e cineasta não foram capazes de desenvolver durante todo o filme; etc. etc.

Evidentemente está sendo elogiado pelos mesmos que há anos (e anos e anos e anos...) só conseguem lançar o mesmo olhar viciado sobre filme brasileiro, qualquer que seja.

33 comentários:

bruno andrade disse...

Adendo:

Alice Braga = nada.

Um nada com cara de ratinho.

Um vazio anímico.

daniel disse...

Cara, eu gostei do filme. Conheço a tua radicalidade e entendo a firmeza do ponto de vista, mas acho que o filme está muito menos preocupado com "direção de arte" do que essas palavras fazem parecer.

Mas tudo bem, isso é só diferença de impressão. Na verdade, eu só quis deixar o comentário pra dizer que a frase final, além de deslocada, é... digamos que seja pouco cautelosa, para usar um termo que vc gosta.

Digo isso porque, como falei, gostei do filme. E aí, vc está dizendo que eu tenho um "mesmo olhar viciado sobre filme brasileiro, qualquer que seja"?
Aí eu já acho que vc está dando um passo maior do que deve. E falo isso pensando não só em mim, mas nos elogios ao filme que vi por aí.

bruno andrade disse...

Legal, Daniel. abraço,

Sérgio Alpendre disse...

po, Daniel, pouco cautelosa? que frescura da porra. Acho que mais cauteloso que isso já vira coisa de compadre, algo bem nocivo ao panorama atual, que já é uma lástima e tende a piorar.

daniel disse...

Sérgio, acho que vc não entendeu o que eu disse. Não é uma questão de "compadrio", mas de não forçar a barra.

Se o Bruno quer criticar fulano ou beltrano, tem todo o direito - diz os nomes deles, aponta o que está errado, enfim, questiona com clareza o que quer questionar. Isso é uma coisa.

Outra é dizer "quem defende o filme X é esse pessoal que etc etc". Porque aí joga no balaio qualquer um que goste do filme. Digamos que um tio ou primo dele (ou seu, ou meu) porventura goste do filme - isso significa que o tio ou primo tem um "olhar viciado"?
Foi isso que eu quis dizer com "cautela": é não forçar a barra no argumento. Eu discordo do Bruno com relação ao filme, mas isso é só uma discordância pontual, não é algo que afete o estado da crítica no Brasil ou a crise da civilização ocidental cristã. Não é preciso hiper-dimensionar.

E me parece que o Bruno não se sentiu agredido pelo meu comentário. Que também não pretendia hiper-dimensionar nada: foi só um comentário que fiz no blog dele.

De resto, essa ideia de que "as coisas estão mal" e que "qualquer agressão é benéfica", que vc parece defender, pra mim não se sustenta. Esse mesmo argumento já serviu pra legitimar filmes péssimos ("cronicamente inviável", pra dar um exemplo óbvio).

bruno andrade disse...

Ah, realmente... Porque na linha contrária, a do argumento de que "tudo vai tão bem quanto pode ir" ou o do sujeito flutuante pós-Deleuze incapaz de se arraigar a qualquer coisa, tem surgido uns filmes necessariamente muito bons, muito interessantes (O Céu de Suely, Belmonte, I'm Not There, para dar três exemplos óbvios do parafacismo estético de objetos natimortos, incapazes de apontar para qualquer horizonte que não seja o de um universo fechado em si mesmo confortavelmente isolado pela criação artística; objetos estes que foram indiscriminadamente incensados por essa mesma crítica de olhar viciado).

... uma crítica que, por sinal, há anos só parece capaz de lidar, justamente, com idéias; uma crítica que, a se julgar pelos seus próprios indícios, parou ali pelo ano de 400 a.C. Que já há algum tempo é incapaz de contemplar algo que não seja os contornos do seu próprio intelecto atrofiado, prima pobre que é da crítica jornalística, crítica alimentícia, auto-canibalística, alimentando-se apenas do que ainda é capaz de regurgitar. Uma crítica que quer existir fora da história - da crítica, inclusive -, "alegre" e "ignorante" como essas adolescentes que nem sabem o que foi a queda do muro de Berlim, que apesar de ter se tornado precocemente senil ainda entoa os louvores de uma jovialidade que, além do mais, é absolutamente incapaz de detectar (a tal ponto que detecta esse frescor que tanto anseia e com o qual se anestesia precisamente nos objetos mais alheios à tal "jovialidade").

E eu acho particularmente ofensivo e de uma cara de pau que lhe é bastante característica você dizer, a respeito do comentário do Sérgio, que ele quis sugerir algo mesmo que remotamente próximo de que "qualquer agressão é benéfica". A não ser que você veja crítica como agressão, você está sendo cínico ou não está sendo crítico - o que, aliás, não surpreende nem um pouco, visto que você, Valente, Bragança, e boa parte da turma que hoje compõe a Cinética abandonou qualquer consciência ou ambição crítica e auto-crítica há algum tempo. Primeiramente: uma "crítica" (vamos dar às coisas os nomes que elas têm) minha não é uma crítica qualquer não, eu sei disso e você sabe disso; se fosse, você não estaria aqui, no meu blog, hiper-dimensionando a importância do que foi basicamente um comentário rápido feito no final de um texto. Em segundo lugar, essa tendência a ver como "agressão" a crítica que não faz parte dos consensos que vocês próprios tentam estabelecer a respeito de si mesmos, demonstra apenas como vocês têm uma percepção absurdamente viciada e atrofiada a respeito do que a crítica pode ou não pode, deve ou não deve. Chega a lembrar o episódio lamentável da comediante italiana que teve o programa televisivo retirado do ar porque satirizou uma deputada ou senadora e os políticos da RAI e do Berlusconi alegavam que ela havia "extrapolado" os limites da forma satírica - sim, vocês começam a se assemelhar ao Berlusconi.

bruno andrade disse...

Quanto ao "as coisas estão mal", no campo do cinema pelo menos - porque, acho que vale lembrar, cinema não se restringe ao que é feito aqui no Brasil, e mesmo que se restringisse o argumento do Sérgio já estaria por isso mesmo naturalmente validado -, isso é simplesmente evidente, e querer despistar essa percepção reflete nada mais nada menos que... um olhar viciado. Mas eu nem quero entrar nos méritos dessa discussão; o que importa para mim é o exemplo fajuto que você pegou, o do filme do Bianchi. O filme do Bianchi não é ruim por conta dessa idéia - é ruim pela mesma e única razão pela qual todos os outros filmes são ruins: é mal feito. Quer alguns exemplos de filmes desesperados que apontam muito mais diretamente que o do Bianchi para essa direção do "as coisas estão mal" e que são obras-primas? Vamos lá: Terra Sem Pão, Sem Essa Aranha, The Naked Kiss, TODA a obra do Fassbinder, Les passagers, Violência e Paixão, Film Socialisme, Salò, Moonlighting, Tragédia de um Homem Ridículo, Eles Vivem, vários Rossellini, alguns Hou, vários Sganzerla; Oliveira, Monteiro, Costa, Straub alemão etc. É no mínimo uma visão muito estreitinha, conformada e curtinha, e que pouco tem a ver com cinema ou crítica de cinema, que faz com que se associe automaticamente uma idéia - que por si só não é nem boa nem má, é apenas uma idéia - a uma forma ruim pela péssima recepção que essa idéia teve por determinadas formas. A crítica de cinema, se ela é digna deste nome, lida com a encarnação, feliz ou infeliz, desta ou de qualquer outra idéia na matéria trabalhada pelo cineasta - e só.

No fim das contas, vocês são críticos é de porra nenhuma, certamente não de si mesmos e menos ainda dos filmes que julgam criticar. São apenas um bando de chorões condescendentes ("Semana dos Realizadores") que desejam ocupar o máximo possível de espaços (incluindo o da crítica, que já há algum tempo os deslegitimou), e isso por razões bastante oportunistas, mesquinhas e estratégicas de auto-promoção. Veja no Fábio Andrade a herança do que vocês estão deixando...

Leitura recomendada: Merval e a troca de chumbo na velha mídia

Sérgio Alpendre disse...

nossa, estou sem tempo de ler os dois comentários enormes do Bruno agora, mas... DANIEL, o Bruno é bem grandinho para que eu o defenda. Não foi minha intenção. Também não defendo qualquer agressão. Só ataquei a ideia de cautela nesse caso específico (e poderia atacar em outros casos). O Bruno já atacou de maneira muito mais grosseira e agressiva filmes que eu adoro. Não me senti ofendido. Ficaria ofendido se, sabendo do que ele acha, percebesse uma cautela para não me ferir, ou ferir a outras pessoas. É nesse sentido que eu falei que era frescura seu pedido por cautela.

Alexandre disse...

Nem sei se deveria me meter porque não sou muito experiente na leitura crítica, mas a Cinética também me parece nociva. Só consigo ver auto-promoção e dificuldade de dizer algo minimamente claro da parte dos redatores. São raros os textos que consegui entender ou ler até o fim.

bruno andrade disse...

Adendo: Aos Nossos Amores.

bruno andrade disse...

Redacted, os filmes do Guiraudie também.

Jorge disse...

Se ideias não são boas nem ruins, se só as formas são importantes, onde fica a História e a crítica?

Anônimo disse...

quero só ver até quando vc vai poupar seus companheiros de foco...
vc vai morrer sozinho porque é um invejoso.

bruno andrade disse...

Jorge: http://books.google.com.br/books?id=4L0qd8EYpIMC&printsec=frontcover&dq=Andr%C3%A9+Malraux:+a+reassessment&source=bl&ots=Q5fDimIOWe&sig=ETI20HZwTNrJRiNKbbT_xICgDb4&hl=pt-BR&ei=ALugTN_zHIGC8gbR19j0DQ&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1&ved=0CBUQ6AEwAA#v=onepage&q&f=false

O texto do Mishima no topo da página também é um bom ponto de partida para esse ponto de vista, assim como todo o início de Sobre a Modernidade do Baudelaire.

Mas, por favor, antes de qualquer outra coisa: releia atentamente o que eu escrevi. Não tem absolutamente nada a ver com a leitura que você fez.

Caro anônimo (aviso: mensagens com pseudônimos ou não assinadas não serão mais aceitas deste ponto em diante): obrigado por esclarecer tão precisamente o meu ponto. Não se trata de fazer crítica e de ser intelectualmente honesto, não é? Trata-se apenas de manter-se fiel aos "seus companheiros".

Quanto aos redatores (não são "companheiros", visto que não compomos uma chapa ou um partido) da Foco, o que posso dizer é que no espaço de tempo - um fim de semana - que o Valente publicou quatro textos seus da cobertura do festival do Rio, eu editei três textos de colaboradores, junto a estes colaboradores. Se quiser, pergunte a qualquer um destes - Felipe Medeiros, Matheus Cartaxo e o Sérgio Alpendre, que visitam freqüentemente este blog - a respeito do grau de cobrança exigida e conseqüentemente o número de vezes que os textos voltam para que eles possam melhorá-los ou desenvolvê-los.

bruno andrade disse...

Ainda: vários Bellocchio, vários Ferreri, Invasores de Corpos do Ferrara.

bruno andrade disse...

Ah, e geralmente eu deixo com o Felipe e o Matheus a edição dos meus textos, inclusive alguns que não são para a Foco.

Felipe disse...

Muitas vezes te passo idéias soltas, insights que tive após ver os filmes e daí ficamos na cinfilia, trocando passes de impressões e acho que isso fortaleça muito os textos. Assim como você também faz, o Matheus... É um processo de diálogo, como acredito que deva ser.
Embora nunca tenha recebido maiores sugestões da tua parte, posso dizer que já vi alguns textos reencaminhados sim por mais de cinco, seis vezes. E o trabalho de edição era muito bonito, sem imposições ou guerrinhas de ego. Mesmo porque creio que escrever seja uma prova de risco, você está afirmando algo, pode se arrepender depois, realizar um desserviço a um artista por quem nutra simpatia e valha a pena defender. Mas sem dúvida alguma, nunca houve complacência entre nós. E espero que nunca haja, porque é no confronto que vamos decifrando nossos gostos, que vamos tapando os buracos negros e criando novos links com coisas que a princípio surgiram ao natural sem muito detimento.

...

Sobre os bastidores da crítica brasileira, não tenho muito o que dizer. Nunca li com regularidade a crítica contemporânea feita no Brasil. E não estou fazendo críticas especificamente a um ou outro veículo aqui citado, mas no geral, me parece que os textos são na maioria indistingüíveis como sugere um rapaz acima. Falta tesão, imagens, a encenação do próprio filme - se não se fala disso num filme se fala do que, afinal?
Mas acredito numa coisa: cada um tem o público que merece. Eu pelo menos prefiro ler o que me toca, se não, deixo de lado. Esse lance de discutir em caixas de blogs me soa muito cansativo quando as opiniões se dividem em duas margens contrárias. Em primeiro lugar, porque quase nunca os comentários têm o tempo necessarário para amadurecerem... E em segundo lugar, porque a coisa termina ficando numa punhetagem de réplicas e tréplicas infindáveis. Se você não concorda com um texto, que faça o seu próprio texto, defenda se merecer tamanha importância a ponto de inflamar ânimos em caixas de comentários alheias.

...

E sobre o fato do Bruno ser invejoso, e nisso sim me vejo no dever de defendê-lo (para o resto, como o Sérgio observa, ele já está grandinho o suficiente para fazê-lo só), posso afimar ao anônimo que não, ele não o é. Bruno costuma escrever, por sinal, depois que todo mundo já enviou o seu texto para a edição. Acho até que passa mais tempo cuidando dos textos ds outros do que dos dele.

...

Por sinal, Pialat comanda. E ele sabia antes mesmo do Zumpa existir que nós deveríamos matá-lo.

R. Cavalo disse...

Eu acho que o anônimo não se referia à revista Foco, mas sim foco como objetivo, alvo, ramo: "quero só ver até quando vc vai poupar seus companheiros de foco...", ou seja, deixar de criticar (?) posturas divergentes. Companheiros de foco = aqueles que dedicam-se ao cinema.
Meio descabido o comentário dele, neste caso, mas acho que foi o que ele quis dizer, pois do outro modo (poupar companheiros da FOCO), não faria muito sentido.
Quanto ao segundo parágrafo, o Bruno é uma das pessoas mais generosas que conheço. Ou esse anônimo opina sem conhecimento de causa, ou vem fazer aqui uma defesa que, a meu ver, é parcial (e a ausência de assinatura me faz especular vários nomes prováveis) e passional, sem nenhuma isenção.

Leandro Caraça disse...

Belmonte é algo que não me desce mesmo. Qualquer elogio a esse cara me deixa desconfiado da lesura do responsável pelo texto. E "Cabeça a Prêmio" não apresenta nada de amais.

R. Cavalo disse...

Desconsiderar minha interpretação equivocada sobre o comentário "quero só ver até quando vc vai poupar seus companheiros de foco...", eu li sem atenção.

daniel disse...

É, é lamentável, mas, enfim, caiu a máscara. Ok, as coisas estão claras. Não hiperdimensiono nada, para mim a importãncia dessa discussão não é transcendente, não diz respeito a "um estado da crítica" ou outro tipo de lero-lero, nem vim aqui falar para plateias. Vc quer fazer parecer que se trata de uma discussão sobre "o estado da crítica e do mundo", mas não é isso. Escrevi me dirigindo a você, a quem tratei como amigo. Essa é a dimensão da discussão. Você tornou tudo claro: abandonou a "cautela" para dizer que me considera desonesto, oportunista e cínico. Sugere, falsamente, que digo coisas como "tudo está tão bem quanto pode ser" e chega a me comparar ao Berlusconi, a despeito de eu nunca ter tido canal de TV ou mandato eletivo, e considera a sua própria crítica no nível de Godard, Pialat e outros. Sua fala usa termos como "violência energúmena", "parafascismo estético" e "chorões condescendentes", e eu posso voltar essas acusações a você. Posso devolver a acusação de desonestidade com a suspeita do uso de um recurso retórico chamado "sock-puppet". Mas, mais que isso, acho bem triste que vc me faça essas acusações.

Porque elas são injustas, têm pressupostos falsos e você deveria admitir isso. No seu comentário vc fala que "cinema não se restringe ao que é feito no Brasil", mas foi você quem definiu o foco em filmes brasileiros, no final do post. E a falha das suas críticas é óbvia, gritante: você não viu os filmes! Todo mundo sabe disso, pare de se enganar. Não é "errado" não ter paciência para acompanhar os novos filmes, mas não se deve falar do que não se sabe. Eu não conheço a música eletrônica feita na Inglaterra nos últimos dez anos. Muita gente diz que é relevante e interessante. Eu não opino, porque não conheço. Vc fala em "olhar viciado" e a ironia é clara: parece que vc considera os olhares "viciados" porque ele partem de filmes, filmes que vc não viu, e não de uma visão pronta que vc tem na sua imaginação e repete ano a ano. Você não se interessa em conhecer um número significativo dos filmes recentes, brasileiros ou não. E, pior, não se dá ao trabalho sequer de ler os textos que está criticando. Trata eu e dois sócios de uma empresa como se falássemos e fizéssemos as mesmas coisas - isso é simplesmente não saber do que está falando. Num exemplo da distância entre discurso e realidade, vc faz parecer que Felipe e Eduardo, por oportunismo, fizeram promoção de algum trabalho meu, escrevendo críticas pra encher a bola ou coisa parecida. Bola fora, nenhum dos dois escreveu ou disse nada, nem fez nada para promover os filmes, a peça ou os livros que fiz. Quem chegou a escrever textos elogiosos a um dos filmes que fiz, o Conceição, foram Francis, Filipe, Morris, e mais alguns. Acredito que escreveram porque queriam dizer algo e e estavam sendo sinceros no que diziam. Essa sua lorota ética é furada, vc sabe disso. Fala em Jairo e Inácio, mas prefere ignorar que eles defenderam filmes de pessoas conhecidas - fizeram isso porque diziam algo com sinceridade. Ainda fala de Sganzerla. Cara, fala sério. E vem me acusar de desonesto, "parafascista" e outras babaquices.

O mais lamentável é que eu acho que vc não toma essa atitude nem mesmo por uma ética equivocada ou sequer pra fazer jogo de cena pra sua plateia. Vc está fazendo isso por auto-boicote. Sabe que eu estava tentando conseguir espaços bacanas pra vc escrever. Antes que vc me acuse mais uma vez de forma babaca: não estou falando em troca de favores ou essas asneiras que vc tenta travestir de questões éticas. Estou dizendo que vc me atacou agora justamente porque, por mais que perceba que está sendo injusto, vc quis agredir quem quis te ajudar. Nem é algo original, autoboicote é tão comum quanto autopromoção. Procure saber mais sobre Sganzerla.

daniel disse...

É tristemente engraçado pensar que este é o motivo de vc ter odiado tanto "Shutter island". Vc se identifica demais com o personagem do Di Caprio.

Enfim, azar. Te tratei sempre como amigo, mas estava enganado. Pelo menos as coisas estão claras. É pena, mas é da vida, a sua vida é problema seu e eu não tenho nada a ver com isso.

Fábio Andrade disse...

Bruno, sou leitor constante e silencioso do seu blog, em princípio porque sei - por termos vários amigos em comum - o que você acha da Cinética e conseguia imaginar o que você deve achar do meu trabalho. Daí que, bom, leio sempre o que você escreve aqui e não comento nada... mas leio com interesse.

Só acho importante frisar que - para além de você achar que eu só escrevo bobagem - embora algumas pessoas na Cinética desempenhem diversas funções diferentes ligadas a cinema, há clareza e franqueza de o quanto essas funções correm separadas da revista. Digo isso porque quando eu vou cobrir Tiradentes ou a Semana dos Realizadores - duas mostras curadas por pessoas da Cinética - as coberturas nada têm a ver com promoção dos eventos. Tanto que nos dois últimos anos eu cobri Tiradentes e Semana dos Realizadores, e eu diria que a maior parte das críticas se opõe frontalmente aos filmes (mesmo quando dirigidos por pessoas da própria Cinética). E faço isso não para afirmar ética ou para detonar as mostras, mas sim porque o meu compromisso não é com elas, e sim com os filmes. Dito isso, podemos colocar em crise a natureza dessas críticas (como você faz aqui com o Cabeça a Prêmio - e eu discordo, mas beleza), essa sim uma conversa que me interessa. Agora, fiquei curioso com esse papo de herança aí, se você quiser falar mais...

bruno andrade disse...

Legal saber que tenho amigos. Já que você é uma pessoa tão amiga, tão aparentemente próxima de mim, que a se julgar pelo que escreveu em momento algum se afastou, gostaria de lhe fazer algumas perguntas, perguntas cujas respostas os meus amigos conhecem: eu namorei nos últimos anos? Trabalhei com o quê? Onde morei? Onde moro atualmente? Por quanto tempo morei nesses lugares? Com o que trabalho? Vamos lá, xará - responda. Os meus amigos sabem de todas essas coisas, sem exceções.

Porque você sabe, tão bem quanto eu, que entre boa parte de 2007 e, curiosa coincidência, final de 2008 - isto quer dizer pouco antes ou pouco depois de você ter sido expulso da Contracampo e eu ter sido convidado para colaborar na primeira edição após o famigerado golpe de estado -, você sabe muitíssimo bem que só voltou a conversar comigo, por e-mail e por MSN e por algumas tentativas meio insistentes no meu blog (e, é bom lembrar, essas tentativas sempre partiram de você: nunca comentei no seu blog, nunca lhe enviei um e-mail e nunca lhe procurei no MSN) após esses dois eventos. Então não venha fazer, como um chorão condescendente, o auto-retrato piedoso de si mesmo como o bom amigo que foi enganado: lamentável é você mentir descaradamente, tanto que nesta última intervenção sua no meu blog, no comecinho de 2008, isto quer dizer antes da sua tentativa de reaproximação, você foi bastante taxativo e agressivo (eu apaguei o comentário, era particularmente ofensivo em alguns momentos, mas você deve se lembrar pelo menos um pouco do que escreveu); para quem não sabe, o post se refere a um texto escrito sobre Tropa de Elite escrito pelo Daniel. Não me incomoda a discordância nem o ataque - ela me parece boba e gratuita, vinda de você, na medida em que não procedia de qualquer ponto do filme mas apenas da sua insatisfação pessoal com o que escrevi a respeito do teu texto (e alguém ainda tem alguma dúvida que Tropa de Elite é uma tralha asquerosa por vocês incensada pelas razões mais sub-sociológicas, de fenômeno de massa possíveis?). O problema é que durante quase todo o período de 2006-07-08, sabes muito bem disso e quem acompanha blogs do Brasil também, você contestava de uma maneira praticamente gratuita e bastante sofista, como uma espécie de patrulheiro e quase sempre bancando o esperto, qualquer ponto de vista meu que não participasse dos consensos que vocês tentavam criar (Os Infiltrados ser um bom filme, as bobajadas intermináveis que se escreviam sobre Treze Homens e um Segredo, V de Vingança, Homem-Aranha 3 e Piratas do Caribe 3, frat pack, a ‘jovem crítica’ ou ‘nova crítica’ não serem rótulos mais vazios que garrafa pet destinada à reciclagem) a respeito de si mesmos e, conseqüentemente, de certos filmes e fenômenos. Que houvessem questões críticas pertinentes, bem ou mal colocadas, no que eu propunha à época, isso pouco importava; o importante era fazer a manutenção do mito de vocês próprios, da suposta pertinência e perspicácia crítica dos maus textos que estavam escrevendo então, e sobretudo manter-se longe de mim não porque eu lhe havia feito algo, e sim porque eu estava bem queimado. Poupe-me, então, desse papinho chorão e picareta de amizade, Daniel. Não cola.

bruno andrade disse...

Se você não quer falar para uma platéia, por que então você transformou o Plano Geral em Contrablog e este numa espécie de “tribuna do Daniel”; por que você me interpelou tantas vezes de uma maneira quase sempre despropositada em blogs, muitas vezes com argumentos contraditórios e de sustentação precária; por que você quis se meter nessa discussão do Cabeça a Prêmio e, ainda por cima, insistir nela? Releia essa caixa de comentários, tenha pelo menos esse tanto de sensatez: o meu primeiro comentário foi um simples “Legal, Daniel. abraço” porque simplesmente não me interessava dar corda para a habitual defesa de si mesmo que, como o Valente e o Bragança, tens por costume fazer. Se vocês defendessem, criticamente, os filmes de que gostam com o mesmo empenho que se defendem e se promovem complacentemente, a Cinética seria provavelmente uma revista bem melhor e estimularia um debate bem mais produtivo.

O teu argumento de que comparo minha crítica à do Godard, do Pialat e outros tem tanto sentido quanto dizer que eu comparei a crítica do Bianchi à do Godard, do Pialat e outros ou que comparei a minha crítica à do Bianchi. Só para lembrar: quem falou “as coisas estão mal” não foi o Sérgio nem eu - foi você; é a sua leitura do que nós falamos. Insatisfação significa pessimismo? Mais uma vez: “É no mínimo uma visão muito estreitinha, conformada e curtinha, e que pouco tem a ver com cinema ou crítica de cinema, que faz com que se associe automaticamente uma idéia - que por si só não é nem boa nem má, é apenas uma idéia - a uma forma ruim pela péssima recepção que essa idéia teve por determinadas formas. A crítica de cinema, se ela é digna deste nome, lida com a encarnação, feliz ou infeliz, desta ou de qualquer outra idéia na matéria trabalhada pelo cineasta - e só.” Eu estou falando de cinema, de realização cinematográfica, e você vem dizer que uma idéia que você supõe, equivocadamente, que eu tive, escrita por mim numa caixa de comentário de blog, tem alguma relação qualitativa com o trabalho que certos cineastas operam na matéria de suas artes e na forma dos seus trabalhos? Preciso dizer como é absurdo, sofista e extremamente viciado o processo do teu raciocínio? Não preciso não, e se quiser achar que o Bury, o Felipe, o Leandro Caraça e o Rodrigo são “fakes” ou “sock-puppets”, sinta-se à vontade, se isso te reconforta.

bruno andrade disse...

Sobre eu não ter visto os filmes... de que diabos você está falando? A Concepção no Canal Brasil, Cabeça a Prêmio no FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul, onde inclusive houve uma palestra sobre a Filme Cultura, se você precisar de uma garantia ou algo que legitime a minha presença na ocasião), O Céu de Suely na Globo, I’m Not There no Festival de São Paulo e depois no Telecine, Film Socialisme baixado do e-mule, e todo o resto dos filmes citados pela vida afora. Ah sim: Treze Homens e um Segredo na TNT com SAP, Piratas do Caribe 3 na Globo, há pouco tempo (dublado, mas quê importa?), V de Vingança e Homem-Aranha 3 em algum canal da cabo (não cheguei a ver até o fim nenhum desses quatro, porém, assim como A Concepção e Nome Próprio; você me concede o direito de não assisti-los até o fim?). Ao contrário de você, caguei para o que todo mundo acha ou pensa que sabe: todos os filmes de que falei até agora foram por mim assistidos.

Já que você é amigo meu, imagino que deva se lembrar de uma lista que fiz - que me foi pedida, como você deve lembrar - com os 20 melhores filmes da década. Você deve se lembrar, portanto, dos títulos, dos nomes, dos autores. É verdade que ando me ocupando bem pouco dos filmes feitos nesta década, assim como tenho visto poucos filmes feitos nos anos 90, 80 e 70. Mas eu vi filmes do Christophe Honoré. Eu vi filmes do Assayas e vi sua última contrafação, Carlos. Vi um filme desse sub-Chris Marker que é o tal do Arnaud des Pallières, muito chato, sobre a Disneylândia européia; vi o primeiro longa da Mia Hansen-Løve, que parece drama do Sautet dos anos 70 com a Romy Schneider (e confesso que, uso esculhambado de lente zoom por uso esculhambado de lente zoom, fico com o Sautet). Vi Meu Nome é Dindi no Canal Brasil (até o fim) e foi uma enorme perda de tempo (mas o Safadi parece ter uns segredos guardados na manga); vi O Plano Perfeito; não vi 2046, A Espiã nem os últimos da Denis; vi A Questão Humana (mais uma vez não consegui chegar ao fim, infelizmente) e A Esquiva (deste eu cheguei ao fim, infelizmente); não vi o filme da Axelle Ropert e vi os do Jia, pouca coisa do Hong, alguns Sokurov e muito Hou... Mas isso tudo, o que vi ou não vi, realmente pouco importa - não para mim, mas para a discussão. O que me parece inusitado é você dizer que eu considero os olhares viciados “porque ele partem de filmes, filmes que vc não viu, e não de uma visão pronta que vc tem na sua imaginação e repete ano a ano.” Não vou fazer auto-defesa; apenas digo que, mesmo assistindo os filmes (o que me parece meio condicional), esses olhares dificilmente partem dos filmes - mas até aí morreu o Neves: nós sempre entendemos de uma maneira muito distinta o que é um olhar que “parte dos filmes” -, mas sobretudo partem, sim, “de uma visão pronta”. Exemplos disso aos borbotões: quase tudo o que se escreveu sobre Os Infiltrados, sobre Miami Vice e Inimigos Públicos, sobre A Dama na Água - e deste não foi pouca coisa - e os últimos filmes do Carlão (independente da simpatia que se possa ter por esses filmes, são todos eles bastante problemáticos e não há praticamente menção a estes problemas nas críticas). E aí não preciso dar nomes aos bois, até porque, mais uma vez ao contrário de vocês, o que me interessa nesse debate não é “o crítico” - o nome, a pessoa -, mas a “crítica” - a produção, o raciocínio: cada um tem consciência do que faz.

bruno andrade disse...

Sobre conhecer um número significativo de filmes brasileiros dos anos recentes, confesso que conheço pouca coisa mesmo. Vi alguns dos mais incensados, e me parecem quase todos invariavelmente muito fracos (prefiro, por exemplo, A Erva do Rato a Cleópatra, apesar de também gostar muito do último). Não conheço muita coisa do cinema japonês atual também, o que eu lamento muito mais que não conhecer grande parte do cinema brasileiro atual, e do resto do oriente conheço sobretudo as coisas manjadas de sempre. Não conheço muita coisa também da produção do Suriname, do Sri Lanka, da Andorra e de Antígua e Barbuda. Mas deixa eu te perguntar uma coisa: você conhece um número significativo de filmes recentes do Jean-Claude Rousseau? Do Jacques Nolot? Do pessoal da Point Ligne Plan? Do Paul Vecchiali? Do Manuel Mozos? Do Aparna Sen? Do Raoul Ruiz? Da Sandrine Rinaldi? E você conhece um número significativo de filmes, estes não tão recentes, do Losey, do Lester James Peries, do Yu Sun, do John Berry, do Ritwik Ghatak, do Artavazd Pelechian, do Ted Tetzlaff, do Harry d’Abbadie d’Arrast, do Edgar Neville? Conheço alguns dos filmes destes diretores, de outros não conheço nenhum, ouvi falar ou li a respeito e tenho a curiosidade de conhecer. Mas eu fico aqui imaginando se você ainda tem a capacidade de perceber como vocês partem de uma noção miserabilista da produção contemporânea e da sua importância, como essa suposta curiosidade de vocês é pouco mais que uma forma de condescendência cultural para com a época que vivem, essa maneira insidiosa de fazer com que os filmes contemporâneos existam fora do tempo, num continuum de si mesmo, fora da história, fora de qualquer trabalho dialético - atitude não crítica por excelência.

bruno andrade disse...

O que você disse sobre eu não ler os textos que estou criticando: faça-me o favor. Se tem alguém que lê e acompanha bastante a crítica brasileiro sou eu. Localize onde escrevi que Bragança e Valente fizeram críticas de filmes seus para encher a bola ou você dos deles, por favor, e recopie no seu próximo comentário (tenho a certeza de que haverá um). De nada adiantará: não foi o que escrevi (assim como não escrevi que você é parafacista; disse isso sobre um grupo de filmes), e não tente jogar areia nos olhos de quem acompanha essa discussão, não tente desviar o foco. A Cinética é, ou pelo menos passa essa impressão muito forte de ser, esse aparelho de autolegitimação; da parte do Bragança e do Valente especificamente, um veículo para eles se legitimarem junto a um circuito nacional e internacional de jovens autores paparicados por mecanismos culturais engessados, isso sem falar nas coberturas de festivais curados por membros da revista (as entrevistas do Bragança com realizadores internacionais ou nacionais são praticamente auto-entrevistas onde o Bragança quer colocar nas bocas destes realizadores espécies de sanções para o cinema que está tentando fazer; aquele texto ridículo, lamentável, risível, pavonesco, autopromocional, uma desonra para qualquer publicação séria, assinado pelo Bragança, O presente, hoje, onde ele basicamente busca se legitimar junto a alguns outros realizadores, é a mais perfeita manifestação de tudo o que estou falando). Se você quer chamar isso de ética, de moral, de pudor, de cautela ou de autoboicote, fique à vontade: eu particularmente chamo de falta de senso crítico e excesso de senso de oportunidade. Pouca coisa de cinema e crítica de cinema realmente nos debates que vocês levantam (a não ser que vocês realmente reconheçam grandes méritos em se discutir BusTv, os paradoxos biopolíticos do reality show e trocar e-mails sobre quadro de punição no BBB num momento em que Pedro Costa, Hou, Rivette correm o seríssimo risco de serem cada vez menos vistos e exibidos), e apesar dos textos de cobertura e as próprias coberturas se alongarem enormemente, exaustivamente, dificilmente - ou mesmo nunca - acabam por enunciar sinteticamente os problemas que serviram de premissa para as questões que tentam levantar. E você apenas confirma o que estou dizendo: serviu-se na sua argumentação dos precedentes mais questionáveis do Inácio e do Jairo, mas não fala que o Jairo falava mal, por exemplo, do Copacabana Mon Amour, e que o Sganzerla não tinha muitas papas na língua para falar mal de filmes de conhecidos.

bruno andrade disse...

Sobre o motivo de eu ter odiado o filme do Scorsese, é tristemente engraçado ver você fazendo essa observação sobre um filme que, justamente esse, eu não vi.

Mas talvez esse seu último comentário infeliz demonstre melhor do que eu seria capaz em palavras a diferença entre a forma como você entende o cinema e a minha, e porque “partir dos filmes” são coisas distintas para mim e para você. Você fala de eu me identificar com o personagem do DiCaprio, o que mostra como você na sua posição de “amigo” realmente entendeu bem como sou (ainda mais levando-se em consideração que odiei este personagem mesmo sem ter visto o filme), enquanto para mim as razões pelas quais não gosto de um Os Infiltrados têm muito mais a ver com, por exemplo, coisas como ritmo, textura, robustez, presença (ou, como é o caso com o filme, de suas ausências), e mais simplesmente com a estupidez de 12 dos raccords mais desleixados da história do cinema; em outras palavras com as horrorosas composições de quadro (é de se imaginar que ninguém se deu ao trabalho de ver que a lente escolhida distorcia monstruosamente o espaço e toda a noção de contrução do cenário); a grosseria com que a câmera revela aqueles dois X no chão do corredor, e principalmente o fato de não ter um diretor ali para ver que facilidades simbolistas como essa e a do cachorrinho latindo para o Damon são realizadas de uma forma aborrecida e constrangedora; a falsa eficácia do movimento efetuado pela câmera (trata-se mais de mal gosto visual que de eficácia); a insignificância dos trajetos dos atores no momento em que se cruzam, na forma em que se movimentam e o espaço com eles; o fato do Scorsese aparentemente acreditar que pintar dois X em vermelho no chão de um cenário mal feito sana a feiúra plástica e a incongruência espacial do que a câmera está fazendo neste plano. Mas também não gosto deste besteirol pela incapacidade do Scorsese de fazer alguma coisa com o corpo de Damon em todos os instantes, uma incapacidade flagrante de simplesmente dirigir o que acontece com esse corpo retumbante no momento em que se choca contra uma porta, um corpo na realidade molenga, sem robustez alguma (como a direção do plano, aliás) e que não teve a sua postura trabalhada por um diretor (o que são os ombros de Damon neste plano e em todos os outros, o pescoço, os braços largados?), e disto tudo finalmente não ter qualquer qualidade de presença, de choque, de espessura, de alma, do que quer que seja que faça valer a pena ver um filme; no fato do movimento do Damon no plano seguinte contrastar completamente com o que se viu no plano anterior, o peso que fez com que seu corpo se precipitasse contra a porta sumindo num simples virar de chaves e em alguns passos indistintos; na pobreza da decupagem feita por Scorsese e da montagem efetuada por Schoonmaker nos planos do interior do apartamento, a pobreza dos ângulos, a inoperância da fotografia; uma luz que simplesmente inexiste como elemento de composição da cena, de transição de planos, ou ainda de maneira mais elementar que participe do drama, de tensão ou de fisicalidade justamente num momento em que a cena requer do drama, da tensão e da fisicalidade algum tipo de extrapolação que não vem de nenhum componente da cena, não vem de lugar algum, e por fim acaba por não existir; e finalmente esse plano-contraplano insistentemente mal montado, que se repete umas quatro vezes e o fato de que em momento algum os corpos parecem ocupar o centro da cena - não o centro do plano, do espaço da cena, mas da cena em si, da sua respiração, do que ela representaria, do que ela não consegue representar afinal. Mas enfim, boa sorte na defesa de mais uma tralha imprestável e sem direção.

Faça um favor ao mundo, Daniel: jamais tente a prática da psicanálise. Sério.

bruno andrade disse...

Fábio, eu vou responder o seu comment hoje ainda ou amanhã. Acabei de voltar de uma viagem de 12 horas de São Paulo para Florianópolis, na qual pude descansar bem até, mas foram cinco dias vendo quatro filmes por dia e dormindo muito muito pouco. Estou cansado agora, vou deitar, mas devo responder-te logo. Achei legal que tenhas te aberto para um contato mesmo após eu dizer que não gosto dos teus textos - atitude firme e respeitável.

bruno andrade disse...

Uma coisa que talvez não tenha ficado clara: entre boa parte de 2007 até a segunda metade de 2008 nós basicamente não tínhamos mais contato, a não ser em discordâncias de caixas de comentário de blogs; sei disso porque ainda tinha você no meu MSN durante esse período e portanto via você online, e nós simplesmente não conversávamos. Mas... não preciso lembrar você disso né?

bruno andrade disse...

Fábio, há uma porção de coisas a serem ditas (sobre as funções correrem separadas na Cinética, por exemplo; sobre essa maneira quase onipresente de cobrir todos os festivais tão típica da Cinética - que não é algo ruim em si, pelo contrário, mas deixo essa pergunta no ar: o que de fato é produzido de reflexão nessas coberturas que, pela própria maneira em que são feitas, não permitem ações muito profundas?), mas já que você abriu uma abertura para um diálogo, prefiro falar sobre coisas que, imagino, te dizem mais respeito.

Os textos que leio na Cinética, quase todos, passam essa impressão, muito cansativa à leitura, de que ou tentam extrair leite de pedra ou recorrem deliberada ou desesperadamente a obscurantismos para, sei lá, legitimarem-se mesmo que em meio a dúvidas e incertezas - ao invés de lidarem rapidamente com elas, ou extraírem dessas dúvidas e incertezas algo que faça com que as idéias do texto avancem, não cessem de se desenvolver, não estanquem em amontoados de divagações. Os textos da Cinética são muitas vezes desnecessariamente extensos, usam de uma retórica jargonista desgastante e geralmente recorrem a muitos lugares-comuns da escrita jornalística, quando não da crítica.

O que quis dizer precisamente com herança foi: a Cinética, desde antes da tua entrada, desde os seus auspícios - e na realidade isso é provavelmente algo que veio do período que a própria Contra atravessava naquele momento, a meu ver o pior da história da revista -, vem empobrecendo assustadoramente a prática reflexiva da crítica de cinema no Brasil. Posição desagradável, posição individual, mas é o que honestamente acho. Rumina-se muito, sintetiza-se pouco. Poderia me queixar, poderia falar da influência nefasta da teoria acadêmica de cinema e de um conhecimento, na melhor das hipóteses, universitário do cinema nos textos desse período - para nada. Não que os textos do período 98-04 sejam maravilhas intocáveis, oásis de uma espontaneidade perdida, nada disso: não consigo hoje em dia ler um único texto meu dessa época, são ingênuos e bobos e muito, mas muito mal pensados (pretensiosos também, por serem mal pensados inclusive), e acho o mesmo de muito outros textos de figuras importantes deste período. Mas o que sinto é que houve no período um real desenvolvimento, que seguia intermitentemente, com dificuldades, mas seguia - e em algum momento isso simplesmente entrou numa desregragem, virou um sistema entrópico, entorpecido e viciado. É em 2005 que isso ocorre e é quando começam a surgir os primeiros sinais claros de desgaste na Contra que, pouco tempo depois, prosseguirão com o nascimento da Cinética em 2006.

O que importa aqui, é dizer que houve toda uma geração que se serviu com inteligência, em meio a dificuldades gigantescas (falta de tradição de um trabalho crítico constante e consistente no Brasil, inexistência de revistas que não se sujeitassem aos formatos acadêmicos ou culturais, jornalismo cultural pobre se reivindicando como crítica etc.), do que o Inácio escrevia na Folha nos anos 90. Essa influência foi decisiva e determinou em grande parte várias das ações que vimos entre os anos de 98 e 03, 04. De lá para cá acho que o Inácio perdeu essa importância, por cansaço ou falta de espaço condizente com o que fazia de melhor (os textos de sexta-feira das estréias, aqueles que ocupavam uma ou duas páginas), situação que a meu ver só se agravou quando ele passou a escrever para o blog. À geração que se seguiu restou... exemplos muito desgastados, muito esquemáticos. E eu acho que é nessa sobrevida de desgaste e esquema que você, e outros críticos, vem produzindo.

bruno andrade disse...

De todo modo, falando um pouco da minha experiência, o que posso dizer é que se não me satisfaço com absolutamente nada do que produzi no intervalo de 01 a 07, de lá para cá vendo tentando algumas coisas um pouco mais independentes - de mim mesmo e de certas referências importantes que me marcaram profundamente -, que tento ter alguma noção das minhas deficiências e dos meus limites (pelo menos daquelas e daqueles que aparecem mais claramente no que escrevo), e que acredito piamente que só é possível se fazer crítica, realmente, quando a experiência que se tem com o filme é alguma coisa da ordem da revelação, algo que escape da cognição, que extrapole a linguagem, um mistério em suma - a crítica sendo justamente esse reflexo, crítico, de tentar encontrar uma forma ou de tentar impingir, com a linguagem escrita, uma ordem à percepção do inexprimível, de tratar ou lidar com essa experiência única que se tem com o filme - filme a filme, diga-se de passagem.

No frigir dos ovos, é disso que sinto mais falta nos textos que leio hoje em dia: esse caráter único, insólito, efêmero que vem da experiência - a única possível, que no entanto será diferente em cada pessoa - possível de se ter com aquele filme específico - e que não difere não de pessoa para pessoa, ao contrário do que querem os absolutistas do relativismo de plantão. A compreensão que venha depois; a crítica (de arte também: basta ler Croce, Diderot, Stendhal, Borges) lida com a experiência, com a sua riqueza (de possibilidades e finalidades), com os seus limites também - eis a verdadeira face de sua beleza.

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