terça-feira, 26 de outubro de 2010

Revisão (incompleta) de Bastardos Inglórios.

Como Kill Bill, piora na medida inversa em que Death Proof (revisto três vezes em cinema na semana passada) e Jackie Brown melhoram.

13 comentários:

Sérgio Alpendre disse...

mala...

bruno andrade disse...

Pode ser. Mas menos que o Tarantino, que fez um filme carrancudo e hierático só para pegar bem com a sua equipe européia.

Anônimo disse...

A mí ningún film de Tarantino me ha mejorado en segunda visión. Sospecho que lo hace para una sola. A la seguda el espejo se rompe, el castillo de naipes se desploma, lo brillante resulta enfático y arbitrario. Quedan, a veces, algunos diálogos, manchas de color, algunas de las actrices.
Miguel Marías

Anônimo disse...

hierático? why?

bruno andrade disse...

http://www.youtube.com/watch?v=ji92tbjZiiQ

Há hieratismo em Ford e De Mille, em alguns momentos dos seus filmes pelo menos. Mas é impossível separar esse hieratismo de uma dinâmica da decupagem clássica que permanece um segredo perdido.

O que você não vê em nenhum dos dois, e que é onde o Tarantino mete os pés pelas mãos e se transforma numa caricatura de cinema acadêmico e aborrecido, é essa hipertrofia do close, essa ênfase no histrionismo da expressão. O plano com a Shosanna correndo e chorando em close constitui um dos piores exemplos dessa tendência, junto ao plano de Kill Bill em que a noiva acorda, se levanta na cama, abraça a sua barriga, levanta o roupão, vê que não há mais nada, se dá conta de que perdeu o bebê e chora um dos choros mais falsos do cinema - zoom, obviamente, fechando na sua careta incapaz de comunicar o que quer que seja.

Tarantino é bom filmando caipirões anacrônicos, assim como De Palma é bom filmando mulheres ensaboadas se masturbando; De Palma nunca deixou de ser o grande cineasta vulgar que é, ao passo que Tarantino, quando se convence que é um cineasta sofisticado, faz seus filmes mais aborrecidos.

Anônimo disse...

Interessante.
Mas essa blindagem que você dá ao Ford e o De Mille não é também de certa forma legitimar um cinema já consensualmente definido como de qualidade?
Vamos dar tempo ao Tarantino...

Assisti "3 godfathers" outro dia e penso que se uma pessoa avalia cinema por seu hieratismo vai simplesmente DETESTAR o filme.

bruno andrade disse...

Tem mais a ver com conhecer as obras desses dois diretores e extrair da experiência com os filmes uma apreciação. Se são consensos hoje (o De Mille pelo menos ainda está longe de ser), não o eram há 10 anos atrás, e mesmo isso não torna, nem de longe, seus cinemas "de qualidade" ou mais tradicionais - quantas pessoas, mesmo em Hollywood na época em que eles trabalhavam, eram capazes de dar a essa sensação de uma composição plástica muito firme da cena esse sentimento de que qualquer perigo rondava esse equilíbrio; de que uma lufada de vento, uma passagem de nuvens ou algumas pedras no meio do caminho pudessem interferir na estabilidade dessas imagens?

Hieratismo não precisa, como Tarantino nesses filmes (e nesses filmes especificamente - ou o que, vamos passar as mãos na careca dele mesmo quando ele faz filmes mal resolvidos por em alguns momentos de outros filmes ele parecer um cineasta inspirado?), virar sinônimo de "carrancudo" (como eu já escrevi, acima). Em si, o hieratismo serve tanto a Ford e De Mille como a Resnais e Antonioni - a questão é o que se faz com ele, e eu não vejo o Tarantino compor mais que um bastante frágil castelo de cartas.

Estou dando tempo ao Tarantino, até porque ele parece se dar tempo a si mesmo, o que com certeza é mais importante. Caso não tenhas notado, no post eu inclusive mencionei os dois filmes dele de que realmente gosto.

PSL disse...

Gosto dos outros filmes dele, bastante (com exceção de Kill Bill, que caiu à beça), mas são mesmo os 2 melhores filmes dele: 1) Death Proof e 2) Jackie Brown. O Tarantino sempre se sai melhor quando verdadeiramente encontra a boa encenação pelo ordinário.

bruno andrade disse...

Já eu prefiro Jackie Brown a Death Proof, o que não significa nada porque adoro ambos. São os dois de que realmente gosto possivelmente porque mostram como uma liberdade sem restrições é fruto do rigor mais intransigente e vice-versa; em outras palavras, é a fidelidade a si mesmo o que fode Tarantino nos seus filmes engessados.

Anônimo disse...

hieratismo maior existe em cinemas muito pouco vistos, como Akira Kurosawa faz principalmente nos seus primeiros filmes e, também, naqueles filmes mais comerciais. O Japão está repleto dessas anomalias histórico-cinemáticas, vide o próprio Yasujiro Ozu, que nos anos 20 fez talvez os melhores exemplares do cinema asiático.

bruno andrade disse...

Mais acima, sobre a questão do hieratismo, e do que diferencia a paralisia do Tarantino em Bastardos e Kill Bill da força tranqüila, do repouso icônico das figuras filmadas por Ford, De Mille, Ozu:

O que você não vê em nenhum dos dois, e que é onde o Tarantino mete os pés pelas mãos e se transforma numa caricatura de cinema acadêmico e aborrecido, é essa hipertrofia do close, essa ênfase no histrionismo da expressão.

(...) quantas pessoas, mesmo em Hollywood na época em que eles trabalhavam, eram capazes de dar a essa sensação de uma composição plástica muito firme da cena esse sentimento de que qualquer perigo rondava esse equilíbrio; de que uma lufada de vento, uma passagem de nuvens ou algumas pedras no meio do caminho pudessem interferir na estabilidade dessas imagens?

Em si, o hieratismo serve tanto a Ford e De Mille como a Resnais e Antonioni - a questão é o que se faz com ele.

O mínimo que se pode dizer sobre o hieratismo Tarantinesco é que ele forma um circuito fechado que encerra o ícone em si mesmo e corta toda respiração, toda ameaça de presença da atuação das forças naturais na cena; tudo, em suma, o que pode justificar uma abordagem hierática da cena. Lembro-me quando o Vincent Gallo, num programa de rádio do Howard Stern, referiu-se bastante pejorativamente ao Tarantino como um "collage artist" - enfim, é exatamente esse o problema: esse hieratismo é enfraquecido e sufocado pelas bordas recortadas do material (Leone, De Palma, Castellari, Aldrich, Chang Cheh, Lubitsch, whatever) que serviu de ponto de partida para o trabalho do Tarantino.

"anomalias histórico-cinemáticas"??? Você chamaria dessa forma os filmes do Pedro Costa, do Straub, do Murnau, do Oliveira, do Jacques Nolot?

Que tal prosseguir e parar de insistir com a questão do "hieratismo", ou pelo menos tentar entendê-la mais profunda e objetivamente? Não que suas observações sejam destituídas de interesse, mas simplesmente não dá pé falar de 3 Godfathers, Ozu e Kurosawa como se estes fizessem as mesmas coisas que Tarantino faz. É passar ao largo dos filmes, e principalmente, tendo em vista que te interessa bastante, do trabalho do Tarantino. É bastante simples: o hieratismo é um problema nas mãos do Tarantino e, pelo menos na maioria dos trabalhos desses cineastas, não é.

bruno andrade disse...

E sem querer ser chato, até porque a discussão me interessa, mas eu te pediria, se for responder, para por favor assinar o próximo comentário. Eu não tenho por costume aceitar comentários de anônimos ou com pseudônimos, já quebrei três vezes esse protocolo e só posso dizer que não quebrarei uma quarta.

bruno andrade disse...

Achei isso aqui, que vai mais ou menos de encontro ao que acho sobre os assunto Ozu e hieratismo:

Gone is the moving camera and quick cut, the viewer is "fixed" in place by Ozu. Gone is the exposition and visualization of key elements in the story: we only see the echoes and effects of life changing events (like the mother's sudden illness and death) on human faces. The Real reemerges: the emotional, psychological and experiential dimensions of our being in the world and being with others (to use two of Heiddegger's terms from Sein und Zeit). We reassemble the totality from partial information - just like we do as human beings in our normal lives. There is no safe, omnipresent and comforting illusion that weaves everything together. We are simply there in the constructed moment but one whose artifice we can appreciate and sense. It does not keep us from "seeing" and understanding the human drama of Ozu's characters. It amplifies the human scale. It takes a displacement of our habituated expectations about what we will see, feel, and experience to move us past the simulacrum to the Real. Tokyo Story is one of the most moving films ever filmed: it defies while at the same time embodies the traditional aesthetics of Japanese art (wabi/sabi, mono no aware, etc.). This is the power of transcendence through art.

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