sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Entre tantos romances autobiográficos, diários íntimos, lembranças, confissões, que de uns anos para cá conhecem uma voga tão extraordinária (como se, da obra literária, fosse negligenciado o que é criação para considerá-la tão-somente do ângulo da expressão, observando-se, em vez do objeto fabricado, o homem que se oculta - ou se mostra - por trás), A idade viril vem portanto ocupar seu lugar, sem que seu autor queira vangloriar-se de algo mais do que ter tentado falar de si mesmo com o máximo de lucidez e sinceridade.

Um problema o atormentava, dando-lhe má consciência e impedindo-o de escrever: será que o que se passa no domínio da escrita não é desprovido de valor se permanecer "estético", anódino, privado de sanção, se nada houver, no fato de escrever uma obra, que seja um equivalente (e aqui intervém uma das imagens mais caras ao autor) daquilo que é para o
torero o chifre acerado do touro, capaz de conferir - em razão da ameaça material que contém - uma realidade humana à sua arte, de impedir que ela seja apenas encantos fúteis de bailarina?

Pôr a descoberto certas obsessões de ordem sentimental ou sexual, confessar publicamente algumas das deficiências ou covardias que mais o envergonham, tal foi para o autor o meio - grosseiro, sem dúvida, mas que ele confia aos outros na esperança de ver-se corrigir - de introduzir nem que seja a sombra de um chifre de touro numa obra literária.


Michel Leiris, A idade viril

Nenhum comentário:

Arquivo do blog