segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O prólogo é ambíguo: o espectáculo de um bloco de prédios a ser implodido.

Depois há uma multidão num cemitério, reunida à volta da campa de uma certa Henriqueta Souza, uma mulher reverenciada cuja tumultuosa biografia é nos contada e que, como vamos descobrir, guardou a cabeça do amante morto como relíquia.

O objectivo do filme é claro: Qual a relação entre lugares e memórias e entre narrativas e espaços?

Outros locais e outras construções seguem, todos abandonados: um bairro silencioso, um restaurante, um cinema, um complexo balnear, uma igreja, uma casa abandonada e uma fábrica em ruínas. Os habitantes actuais são invisíveis, esses lugares estão situados num tempo suspenso pelo poder exclusivo da imobilidade. No entanto existem alguns seres vivos, os de ontem: Vozes de homens e mulheres, de um sítio ou outro, recitam. Enumeram os pratos de uma rica ementa do século XVII, perdiz e caldo; uma troca epistolar sobre o tema da divida; uma lista de receitas obsoletas e até canções de trabalhadores. Variações subtis sobre as fortes ligações entre os espaços e a escrita, que subvertem a evidência ilustrativa e montam emboscadas aos princípios vulgares.

Jean-Pierre Rehm Viennale 2009

4 comentários:

André Dias disse...

Um belo filme, infelizmente recusado num festival brasileiro recente.

bruno andrade disse...

Basicamente um hábito por aqui.

Algo que não cessa de me surpreender em meio a isso: os realizadores brasileiros têm chiliques quando não são aceitos pelos festivais locais, inclusive organizando contra-festivais (o que para mim significa pelo menos força); quando é um Mozos, um Vecchiali ou um Laurent Achard, em outras palavras cineastas da maior importância mas que até o momento não entraram no ilustríssimo hall dos queridinhos badalados da imprensa (leia-se: hype) internacional, incapazes de converter seus estilos em teologia mercantil para salões; quando são esses os nomes esnobados os realizadores locais, que sempre se valem da força e da importância de um suposto cinema contemporâneo mundial para falar de seus próprios filmes, não parecem nem um pouco preocupados em se manifestar. É por essas e outras que não se fala por aqui de Mozos e de Rousseau, como até há pouco não falavam de Green e já começavam a esnobar Ruiz. Resultado: uma asneira como I'm Not There é muito mais discutida que filmes essenciais como La vallée close, Les signes, os últimos de John Flynn, o próprio Ruínas etc.

João Gabriel disse...

Bruno, como você ouviu falar desses cineastas?

bruno andrade disse...

Mozos veio recomendado pelo José Oliveira e por outros conhecidos de Portugal; Achard: elogiado pelo Skorecki e por outros nomes de confiança; Green na entrevista em que Godard falava de Toute les nuits; Vecchiali através dos textos do Biette etc. Agora tô perseguindo os filmes do Harry d'Abbadie d'Arrast, assistente do Chaplin no A Woman of Paris. Li uma nota muito interessante sobre ele numa Cahiers dos anos 60, lá no apê do Sérgio (a Cahiers era do Sérgio).

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