terça-feira, 1 de março de 2011

I wept and wept, from start to finish

por Nick Cave

Um amigo me convidou para assistir a uma projeção de um filme russo no Soho. Perguntei como era o filme e ele respondeu: "Bem, na verdade não acontece nada, e em algum momento alguém morre. Vem pra cá. Você vai gostar muito". O meu amigo estava distribuindo o filme nos EUA, então senti-me obrigado. Assistir a um filme russo é do tipo de coisas que se fazem pelos amigos.

Cheguei tarde e sentei na primeira fila no fim dos créditos. Dez minutos depois, comecei a chorar calmamente e continuei chorando durante os 73 minutos que dura o filme. Já chorei em filmes antes, mas não consigo me lembrar de chorar tanto, sem pausas, durante todo o tempo. Quando o filme terminou e as luzes se acenderam, uma mulher com os olhos raiados de vermelho, sentada atrás de mim, acenou um kleenex na minha direção e me perguntou se iria escrever alguma coisa sobre o filme para um dos jornais.

O filme chama-se Mãe e Filho e é realizado por Alexander Sokurov. Mãe e Filho explora o último dia na vida de uma mãe moribunda (Gudrun Geyer) e do seu filho adulto (Alexei Ananishnov). É de manhã. A mãe quer que o filho a leve para dar um "passeio", o que significa que ele a carregue no colo por entre uma série de paisagens de sonho, depois do que volta à casa simples e isolada onde habitam, dá comida a ela e deita-a na cama. Então o filho afasta-se da casa para dar um passeio sozinho e volta para descobrir que ela morreu. Tudo isto em 73 minutos.

Mas o que testemunhamos durante esse tempo é uma coisa de uma tal beleza, de uma tal tristeza, que chorar, para mim, foi a única resposta adequada. Mãe e Filho é um filme sobre a Morte, sobre o Amor e sobre a Graça. O amor entre a mãe e seu filho transcende a forma comum do amor naquilo que é purificado pela iminência da morte. A morte espera os dois com absoluta certeza: a mãe que irá morrer, o filho que será deixado só. O tempo parece ter abrandado respeitosamente para um compasso no qual o cuidadoso movimento do amor tem espaço para o seu balanço: nenhuma ação é apressada, já que simplesmente isso precipitaria a morte. As personagens alcançaram um estado de graça emocional e espiritual. Parecem desgarradas das suas histórias, estranhas ao ambiente e imunes ao mundo que está para além do seu próprio mundo. Tudo que existe são gestos de conforto, de cuidado, de ternura. O filho escova o cabelo da mãe, aconchega o cobertor em volta dela, dá-lhe de comer por um frasco com tetina. A mãe responde com afagos e carícias: tudo o que a sua debilitada força permite. Em certo sentido, é uma relação que não deve ser presenciada. É sagrada, religiosa, sem a complicação das intrusões inerentes aos pruridos da análise do século XX. É uma visão da humanidade que se torna verdadeiramente transcendente; no entanto, Sokurov não se furta à natureza trágica da morte. A morte paira pesadamente sobre tudo, entristecendo cada gesto, prostrando cada ação. Até a paisagem parece estar plangente perante o falecimento eminente da mãe. Aqui vemos a Paixão, mostrada em quadros que ocasionalmente refletem a história de Cristo: a Paixão, não da mãe enferma, mas do filho, não de quem morre mas daquele que é deixado para trás.

Também o diálogo parece estranhamente ineficaz, como se o amor e a compreensão dos protagonistas tornasse a linguagem desnecessária. Quando conversam, parece faltar um verdadeiro sentido às palavras que proferem. Elas nem confortam, nem clarificam, pois tudo está dito na sabedoria contida em cada gesto. Nas palavras há psicologia, complicação e dor. O que é sobretudo evidente na conversa final, quando os dois discutem razões para morrer e razões para viver. O diálogo é fútil e cruel e só serve para reacender as mágoas.

Diz a mãe: "É tão triste. Ainda por cima você tem que passar por tudo aquilo que eu sofri. É tão injusto".

"Dorme um pouquinho, mãe", diz o filho. "Eu volto já".

O filho sai de casa e anda pela extraordinária paisagem que o cerca. É nestas seqüências longas, demoradas, quase imóveis, que o filme atinge o cúmulo da mais emplogante beleza. As paisagens de Sokurov não carregam nenhum desejo de realismo. Os seus planos estão transformados em telas cinematográficas, bastante mais próximos do ato de pintar do que de filmar, inundados de luz artificial opalescente. Estas vistas quiméricas evocam o trabalho dos pintores românticos alemães do início do século XIX, o de Caspar David Friedrich, onde tudo é suavizado por um brilho lácteo. A vastidão e o mistério desta natureza elevada cria uma espiritualidade independente de qualquer fórmula do Cristianismo tradicional. E o cuidado que Sokurov aplica nestes planos habilidosamente trabalhados encontra o seu eco no cuidado com o qual as suas personagens tratam uma da outra — a devoção ao detalhe, a ternura sem pressa, o amor.

Toda esta beleza tem uma medida própria, uma escala temporal ditada pela intromissão da morte. Cada fragmento de ação, cada gesto — lento, plangente, importante, sagrado — permite ao espectador o tempo para sucumbir ao seu fascínio e para ser seduzido pelos seus impulsos poderosos e muito sérios. Vendo este filme, somos forçados a confrontar-nos com a inevitabilidade da nossa própria mortalidade e da mortalidade dos outros.

As emoções são despertas em nós segundo uma forma há muito tempo ausente no cinema.

A minha primeira resposta a este filme foi derramar lágrimas pela tristeza das coisas. E a sua vibração única não tem deixado de ecoar em mim desde então.

16 comentários:

Sérgio Alpendre disse...

paixão e lucidez. Não lamento que Nick Cave seja músico porque adoro seus discos. Mas... cacildis.

bruno andrade disse...

Nick Cave > malucos comentando na IMDb que Over the Top é "perhaps the finest 93 minutes of cinema ever produced" > crítica brasileira

Felipe disse...

I don't believe in an interventionist God But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you

Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms, O Lord, into my armsInto my arms, O Lord, into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you

To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk,like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms, O Lord, into my armsInto my arms, O Lord, into my arms

But I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of pathThat we can walk down, me and you

So keep your candles burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord, into my armsInto my arms, O Lord, into my armsInto my arms, O Lord, into my arms

Jesús Cortés disse...

Una de las mejores canciones de los 90, Felipe.

Felipe disse...

Jesús, completamente de acordo. Estas seriam as minhas canções favoritas dos anos 90:

. Sadly Beautiful - The Replacements (http://www.youtube.com/watch?v=lfOd8zqenX0)

. Into my Arms - Nick Cave and the Bad Seeds (http://www.youtube.com/watch?v=ctP61EFeLdo)

. Harvest Moon – Neil Young (http://www.youtube.com/watch?v=1tspqEfVMMQ)

Felipe disse...

Bruno, quais seriam as possíveis favoritas do Zumpa? Algo me diz que seriam essas daqui:

Cose della vita - Eros Ramazotti (http://www.youtube.com/watch?v=zGiPrQ1Og9I)

I’m too Sexy - Right Said Fred (http://www.youtube.com/watch?v=39YUXIKrOFk)

Mmmbop - Hanson (http://www.youtube.com/watch?v=oCdMqpsUc2o)

David disse...

O que você pensa do Radiohead, honorável Bruno?

bruno andrade disse...

Não entendo de música, nunca entendi. Alguém que entende infinitamente mais do que eu disse o seguinte: "Eu não os odeio. Não desejo que sofram acidentes. Acho que os fãs deles são chatos e feios, e eles não parecem se divertir."

Quanto a mim, prefiro escutar Gipsy Kings às 03:00 da madrugada num puteiro.

Jesús Cortés disse...

Bueno, Felipe, las mías son más "eclécticas": "More than I can do" de Steve Earle, "Jesus Christ pose" de Soundgarden, "I wonder" de Blind Melon, media docena sin preferencia clara de Raging Slab, "Wish" de NIN, "Nothing´s alright" de Demolition 23, "Be sweet" de Afghan Whigs, "Past the mission" de Tori Amos, "Chaos AD" de Sepultura, "Over and over" de Neil Young & Crazy Horse, "Inmortality" de Pearl Jam, "Jimmy´s fantasy" de Redd Kross, "Interestate love song" de Stone Temple Pilots, "This is Shangrila" de Mother Love Bone, "Sistinas" de Danzig, "Only" de Anthrax, "Them bones" de Alice in chains, "three days" de Jane´s Addiction, "So young" de Suede, etc, etc.

Felipe disse...

http://musica.terra.com.br/noticias/0,,OI4968522-EI1267,00-Liam+Gallagher+diz+para+Radiohead+ir+se+danar.html

Sérgio Alpendre disse...

po, Bruno. Chatos, feios, não parecem se divertir? Cada bobagem. Escute Radiohead que é bom.

bruno andrade disse...

Já escutei. Chega a ser mórbido de tão aborrecido. Rigor mortis total. Música repleta de ruídos repetitivos, grudentos, fofinhos, arrastados, sensoriais - tudo o que há de mais repugnante não apenas em cinema e em música, mas em toda arte. Como já disse: prefiro escutar Gipsy Kings às 03:00 da madrugada num puteiro.

E já que falo de Radiohead e puteiro, vou aproveitar e estender a minha diatribe para o último capítulo dessa piada também conhecida como "cinema brasileiro", intitulado Bruna Surfistinha. Da mesma forma que as bichinhas inconformadas e escalafobéticas de sempre sobem nas tamancas quando falamos em "cinema brasileiro" e não de "filme tal, fulano tal, festival tal, prêmio tal", o infeliz que faz um filme sobre prostituição e coloca música do Radiohead é evidentemente alguém que nunca pôs os pés numa zona, num puteiro, num inferninho qualquer de centro de cidade ou num apartamento de garotas de classe média que fazem programa; que não deve saber a diferença entre gp e pg, e otras cositas más. Não deve saber, o infeliz, que são todas coisas bastante diferentes umas das outras, envolvendo pessoas diferentes, classes sociais as mais diversas, riscos os mais inimagináveis. Mas o meu repúdio não tem a ver especificamente com realismo ou verossimilhança não; tem a ver com você vincular Radiohead a qualquer um desses ambientes, à vivência de quem participa de qualquer tipo de putaria, o que constitui apenas mais uma ocasião de estetização ignóbil da parte de um cineasta brasileiro (alô Karim "joga purpurina na bicha para politizá-la" Ainouz, alô Fernando "vamos fraturar narrativamente o espaço e o tempo, exatamente no momento em que o personagem se vê encurralado por gangues rivais, só para impressionar os espectadores com uma pirueta de construção roteirística" Meirelles).

Isso tudo me faz retornar a uma questão que há algum tempo me atormenta: por que cineasta brasileiro insiste em fazer filme sobre o que desconhece mais flagrantemente? Por que o Andrucha vai pro nordeste fazer filmes sem propósito ao invés de fazer um filme sobre morar na Zona Sul, cheirar pra caralho e dar a bunda? Por que o Waltinho não faz filmes sobre ser filho de dono de banco sem nenhuma consciência real do que é um dia de trabalho ganho na base do fedor do suor da cachaça (e talvez, no fim do dia, também dar a bunda)? Por que o Ainouz faz O Céu de Suely, o Furtado os filmes que faz?

bruno andrade disse...

Talvez por isso todos passam essa sensação incômoda de que não tiveram qualquer prazer no momento em que faziam seus filmes - e quando passam essa sensação, trata-se de uma emoção das mais irresponsáveis, mesquinhas, cruéis, irrefletidas: Ainouz jogando bem cedo no filme purpurina por cima da bicha para mais tarde politizá-la oportuna e convenientemente, quando ela obviamente será espancada e presa (sangue + purpurina = herói da biopolítica foucaultiana); Meirelles fraturando tempo e espaço no momento em que o personagem se agonia à beira de uma possível morte - e não falo de qualquer morte: trata-se de fuzilamento, execução mesmo. Prazer "às custas de", sempre, e não prazer como um traço da liberdade experimentada com a criação, como um traço da verdadeira liberdade, aquela que traz consigo as maiores responsabilidades: liberdade de si mesmo. Porque no fim das contas o que paradoxalmente está em jogo é unicamente a noção vaidosa da potência do olhar do autor sobre determinado universo ficcional, sem que se passe realmente por algo como a restituição da presença concreta e material desse universo em todo seu peso, com todos os riscos que traz consigo, através da capacidade de abstração de um olhar (nem para se servir do que realmente há de proveitoso na autoria são capazes). O autor suprimido, exaurido, exorcizado pelo seu trabalho como finalidade, justamente, da autoria (o Barthes espertamente se escorou nas costas do Mallarmé para retomar essas questões após a maldita intervenção do Duchamp, mas eu não quero nada com Duchamp e me interesso pouco por Barthes; o negócio é com Mallarmé mesmo).

Mas enfim, não gosto de Radiohead.

Sérgio Alpendre disse...

ok. Ouviu, não gostou. Bem melhor que "tem fãs chatos e feios, que parecem não se divertir". Sobre cineastas filmarem o que não conhecem, totalmente de acordo. Mas ainda não vi Bruna Surfistinha.

bruno andrade disse...

A-Ha, absolutamente sublime.

Felipe disse...

Sérgio, sou um completo mongol, gosto dessas provocações do Liam Gallagher, hehehe.

Bruno, a Secco aparece nua no filme? (Única razão para pensar em vê-lo. Sério, interesse zero.)

Já sobre o A-Ha, You are the One é clássico. Por sinal, a lista de som que rolou na noite anterior aqui em casa:

You are the One - A-Ha

Walk of Life - Dire Straits

Alive and Kicking - Simple Minds

Holiday Road - Lindsey Buckingham

Legal Tender - B-52's

Enjoy the Silence - Depeche Mode

Slave to Love - Bryan Ferry

Voyage, Voyage - Desireless



A propósito, eu queria mandar um beijo para a minha mãe, o meu pai e para você.

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