segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Tiago, você tá TOTALMENTE errado, e não só na forma como entende o que chama de "moderno" - que não é o novo e sim a RELAÇÃO entre a novidade e a tradição, e nesse sentido sim, é uma coisa à qual "estamos condenados" - como também na forma como entende o que chama de "neomacmahonismo fora de época" (que é o que toda uma ala contrariada da crítica brasileira, no conforto de suas "igrejinhas", sejam estas acadêmicas ou político-administrativas de outra espécie, pretende, ou pretende acreditar, que estamos fazendo, quando na realidade o regressismo e o academicismo está, precisamente, nas percepções e nas imprecisões dessa ala - favor ler ou reler com atenção o que se escreveu sobre Lupino, Newman, Eugène Green, Guiguet e o próprio Gray).

Moderno é propriamente o que o Rivette fazia nos Cahiers, é o que mais tarde o Vecchiali, o Biette e o Guiguet vão fazer na Diagonale, é também o que o Sganzerla fez aqui no Estadão e no Copacabana Mon Amour, é se situar como o Resnais fez na aventura do cruzamento entre cinema e teatro: ou seja, é atravessar Fritz Lang e Holderlin por música serialista, Borges e Ionesco; é diagonalizar Cocteau, Mizoguchi e Grémillon com pornografia e Gabriel Faure; é achatar Uchida e chanchada com Noel Rosa, Godard e Jimmy Hendrix; é vitalizar as adaptações de peças do Ayckbourn com o teatro do Sacha Guitry, irrigando o segundo no primeiro a fim de evitar um engessamento da modernidade em formas puramente ecunêmicas (ou seja, a enésima imitação de cacoetes marienbadianos).

Muito, mas muito mais importante - moderno, contemporâneo e, portanto, urgente - que colocar lado a lado "o Fassbinder dos anos 70" (...) "com o Godard dos 60" (esta sim "a repetição de um debate muito gasto pela 'política dos autores'", basta lembrar do que escreveram nos anos 80 Yann Lardeau, Daney, Bergala, Aumont, whatever) é colocar lado a lado o Fuller ao Fassbinder, o Fassbinder ao Vecchiali, o Vecchiali ao Brisseau, o Brisseau ao Laurent Achard, e dar continuidade a esse esforço não numa forma linear impossível, nessa idéia absurda de que a modernidade se depaupera, apenas "segue em frente", e sim numa forma circular possível - isto é, fechando esse círculo com o Laurent Achard sintetizando Argento e Treilhou, Michael Powell e, quiçá, Holy Motors.

Ao invés disso, o que se vê por aqui é sempre a mesma coisa, sempre as mesmas figurinhas tarimbadas falando do Apichatpong, do Garrel, do Wes Anderson e do resultado do Festival de Brasília. Desculpe-me, mas quem são os conservadores? Para essas coisas já bastam a Film Comment e o Rosenbaum.

Sobre a "realidade do cinema brasileiro", uma última pergunta: por que essa impressão de que ao se falar sobre "moderno cinema brasileiro", a palavra mais importante é sempre "brasileiro", seguida de "moderno" e só depois de "cinema"?

5 comentários:

bruno andrade disse...

E só para deixar outra coisa bem clara: nós sempre falamos de Biette e Rivette tanto quanto de Mourlet, do Daney e do Guiguet tanto quanto do Lourcelles, do Bénard e do Sganzerla tanto quanto do Astruc e do Rohmer, do Aprà e do Skorecki tanto quanto do Rissient, sem falar na presença constante de textos do Moullet. Estudem um pouco mais a crítica cinematográfica francesa e os seus epígonos brasileiros, espanhóis, italianos, ingleses, finlandeses, que é a crítica cinematográfica que de fato importa.

bruno andrade disse...

O autor em Hollywood, o gênio no sistema, o genuíno representante do classicismo cinematográfico

...

Bellocchio é um excêntrico que retrata os dramas das encruzilhadas morais de artistas e de personagens notáveis da história política de seu país enquanto Gray nada mais faz que coincidir sua vocação verista a uma inclinação verdadeiramente trágica, filmando com nobreza e dignidade aristocrática uma classe operária abordada com um respeito e uma afeição exemplares. O que eles têm em comum, porém, é uma mesma compreensão do papel da rebelião como elemento norteador. É esta a proposta de ambos, exacerbada por Bellocchio e magnificada por Gray, e é desta forma que podemos ver neste último, mais até que em Fassbinder, o digno sucessor de um espólio de filmes que retrataram a inquietação e o desconsolo de jovens adultos diante dos tumultos e das dificuldades a que foram condenados pela sociedade, pela família ou por ambas, e contra as quais lutam. (...) Cumprindo seu papel de exceção, Gray renova o filão dos filmes de incitação à revolta através das magníficas personagens interpretadas por Tim Roth e Edward Furlong (...)

...

De uma atitude em que o rigor e a recusa se confundem e levam o cineasta à ruptura com a época corrente decorre um inevitável isolamento, que permanece para nós formidavelmente precioso.

bruno andrade disse...

Se o Sganzerla estivesse vivo, queria ver a reação de todos os soldadinhos da contemporaneidade quando ele dissesse que os 10 melhores filmes do mundo são 10 filmes do Mizoguchi (como ele aliás fez numa de suas últimas entrevistas).

bruno andrade disse...

Onde começa o Moderno

bruno andrade disse...

e sim a RELAÇÃO entre a novidade e a tradição

Como aparentemente anda meio difícil para a maioria das pessoas deduzir umas coisas bem simples e auto-evidentes/auto-esclarecedoras, deixo escrito bem claramente aqui o "vice-versa" que, como em qualquer relação de uma coisa com outra, está implicado na própria premissa do que seria uma 'relação'.

Mas enfim: e vice-versa.

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