quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Et je me demande comment, face à ces dernières scènes, la critique en pâmoison a pu parler de la maturité de Tarantino. Je me demande quel film ils ont vu.

(...)

Sous leurs histoires simples, certains westerns italiens savaient parler de leur époque et de leur pays. De quoi nous parle le film de Tarantino mis à part des fantasmes de son auteur sur le sujet ?

Único texto escrito até agora que lida com o filme que o Tarantino de fato fez.

11 comentários:

bruno andrade disse...

Jusqu'à Death proof, Tarantino joue avec le cinéma de genre, il s'en amuse, nous amuse et cet univers pop, coloré violent, musical, peut supporter tous les excès. Inglorious Basterds aussi si on le voit comme métaphore du pouvoir du cinéma. Mais quand on commence à vouloir lui donner des implications sérieuses sur les juifs et les nazis cela ne passe plus.

Igor disse...

(Para não abusar do espaço do Sérgio, respondo aqui)

Mas, Bruno, eu entendo que o Tarantino tenha imaginado esse conceito estapafúrdio em que chama vingança por justiça, mas não é por isso que a vingança deixará de se chamar vingança e a justiça deixará de se chamar justiça. É no mínimo um erro semântico, mas como não estamos na esfera linguística, há um equívoco moral do Tarantino. Como sabemos, a arte não é uma entidade autônoma e mística, detentora da sabedoria e da verdade, mas apenas um ato de comunicação de um homem, um grupo de homens ou de um povo, e por isso mesmo, por se tratar de um discurso, analisamos esse discurso e cobramos o seu emissor, por ele responsável. Tarantino ter imaginado, projetado e construído essa fábula idiota, essa valsa hedionda, não implica que o espectador necessariamente entre na dança. Supondo que houvesse mesmo essa redenção moral pelo espectador, antes ele teria que se ver como o ignóbil, se enxergar nesse homem capaz de tamanhas atrocidades. Antes, ele se enxerga como a Shoshanna, o mal é o outro, e deve ser extirpado, eliminado, exterminado de forma fria, bruta e cruel. A Shoshanna não “cria” nenhuma justiça, pois, como suas aspas bem observaram, não há justiça quando uma barbárie se substitui à outra barbárie. Ao menos não a justiça pela qual homens como eu e você, ao pronunciarmos nossa reação, lutamos. Porque justiça e barbárie não se misturam, e onde há uma não pode haver a outra, vice-versa.
A vingança de Shoshanna, insisto, não redime moralmente o espectador através de uma “suposta ‘justiça’” ao holocausto, pois se se dispõe as peças no tabuleiro à maneira como Tarantino faz, não há sequer possibilidade de discutí-las de um ponto de vista moral.
Você falou em Rossellini, Resnais etc., mas não podemos nos esquecer de Rohmer e não podemos nos esquecer de que há algumas décadas, havia críticos que se preocupavam com essas questões morais nos filmes, que hoje não parecem importar a ninguém que não seja visto como ultrapassado, antiquado, reacionário.

O Tarantino coloca a coisa toda como uma justiça, e é justamente por isso que o repreendo, por chamar algo por um nome ao qual não corresponde. Mas Tarantino está no seu direito de expressar-se à maneira que bem entender e cantar seu delírio juvenil aos brados, propondo odes sangrentas e estúpidas. Problema dele, isso apenas reflete sua própria estupidez. Para mim o Tarantino nunca passou de um mau espectador de cinema, apenas. É o que ele demonstra filme a filme (ainda que possam parecer bem decupados, elaborados, originais, vibrantes etc., não sustentam muito firmemente a fachada que encobre suas caricaturas, seus pastiches; e o que até então ele fazia com sua péssima leitura do cinema, ele agora estende para sua não menos ruim leitura da História). Entretanto, do espectador não posso aceitar que se sinta redimido moralmente, pois trataria-se de uma incongruência, ainda que satisfazendo a intenção de Tarantino.

Em tempo, nossa divergência nem é em relação ao filme, pois vemos do mesmo modo o problema: a discrepância entre um ato de vingança (o objeto) apresentado como um ato de justiça (a construção). Divergimos quando você afirma que o Tarantino orienta o espectador à redenção moral, porque o Tarantino prova com esse filme que não tem nenhuma preocupação moral, que talvez nem entenda bulhufas disso (mesmo que evoque o assunto de forma leviana em algum outro filme), e que orienta o espectador, SIM, e através da personagem Shoshanna, a se sentir vingado, porque afinal, para Tarantino, a vingança parece ser uma boa vestimenta para a justiça. E, engraçado notar que essa apropriação que Tarantino faz dos “poderes do cinema”, como você colocou, nos remete diretamente aos sórdidos procedimentos nazistas e que com esse filme Tarantino acaba se assemelhando um pouco a um tipo como... Goebbels. Lamentável.

bruno andrade disse...

Eu basicamente concordo com o que escreveste, ainda mais em vista do público visado pelo Tarantino desde Kill Bill, o público que vai aos cinemas nos dias de hoje, o público mais ridícula e caricaturalmente gramscita, acéfalo-hipster-revolucionário-de-facebook-twitteiro-deslumbrado, o que mais basicamente compõe a cultura muito bem integrada aos parâmetros econômicos e sociais atuais da pose contracultural (burguesia altamente acomodada de esquerda com má-consciência da sua condição, uma burguesia de esquerda cuja constante necessidade de redenção ideológica é plenamente saciada por esses últimos filmes do Tarantino).

bruno andrade disse...

Discordo especificamente de que Tarantino "orienta o espectador, SIM, e através da personagem Shoshanna, a se sentir vingado" (de resto, "para Tarantino, a vingança parece ser uma boa vestimenta para a justiça" está corretíssimo, e por isso mesmo o que ele tem feito é aberrante e moralmente repugnante). Basta restringir-se às construções dos filmes: em Kill Bill (Bill), em Death Proof (Stuntman Mike), mesmo no Django (os lacaios do Di Caprio e mais particularmente o house negro do L. Jackson, embora haja uma questão problemática e difusa aí que vou comentar mais abaixo) essa vingança é vingança porque, como em qualquer vingança, ela tem um objeto, um receptor certeiro (assim como no Era uma Vez no Oeste ela deixa de ser vingança e se torna uma espécie de justiça cósmica pelas mãos do fantasma/ponto central de interrogação que é o Bronson e principalmente pelo papel para ele atribuído na ficção do filme, a do fantasma que encarna todos os homens assassinados pelo personagem do Fonda, como Leone deixa bem claro na cena de interrogatório do primeiro pelo segundo, o que projeta a ação do filme para além dos limites do tempo e do espaço aos quais o Leone social e economicamente, i.e. historicamente, a insere e a integra). Qual o receptor da vingança da Shoshanna? Um público integralmente abstrato de alemães=nazistas, presente em peso naquele cinema-antecâmara-do-inferno (é um apocalipse antinazista aquilo, não? Pena que estamos longe da inteligência satírica e cruelmente semi-brechtiana do Aldrich, cf. aluno do Losey, que coloca um negão jogador de futebol americano para acender as chamas da sua pequena atualização espetacular de Sodoma e Gomorra num castelo-mausoléu em território nazista mas com o discernimento, o entendimento sintético, a moral perversa e incorruptível daqueles que representam pela condensação absurda das coisas as suas totalidades - neste caso, o negão acaba estupidamente metralhado pelas costas por um soldado alemão, e o xadrez moral da coisa acaba totalmente recombinado e concluído, visto que "só a violência ajuda onde a violência reina"). Para quê se utilizar da história e mesmo da meta-história, para quê dar este peso solene, toda essa dimensão de importância e de piada cósmica à vingança pessoal/solução final da Shoshanna que, ademais, é um personagem ridiculamente acessório e que emperra quase que completamente aquela que seria a verdadeira trama do filme (Pitt e seus soldados à caça de Hitler, o que de fato é obstruído por uma construção realmente terrível - mas quem hoje em dia dá a mínima para questões escolares como construção da forma em filmes narrativos...)?

bruno andrade disse...

O dado curioso e revelador do qual eu soube há pouco é que o filme é profundamente odiado no leste europeu. A questão não é mimetizar "a História", o que seria uma pantomima ridícula e indigna; a questão é que ao representá-la, ao condensá-la, adensá-la, expandi-la, recompô-la, você no mínimo oferece ao espectador do espetáculo um extrato, uma síntese, uma aproximação poética, um traço, um diagrama abstrato, uma descrição das linhas gerais que integram a sua composição. Problema é que o Tarantino substitui à liberdade poética uma liberdade abjeta: primeiro que ele não trabalha no nível sintético, segundo que ele muito oportunamente nos terceiros atos dos filmes desvia dos assuntos que ele inicialmente escolheu - nazismo, escravidão - para em algum momento extrapolá-los e locupletá-los com os seus próprios fantasmas, seus próprios delírios ("I finally made my masterpiece", herói masculino galopando com a sua mina no cavalo branco etc.). Nisso ele é o mais digno sucessor do que o Spielberg fez no A Lista de Schindler, outro filme que aberrantemente tenta promover uma mais do que duvidosa redenção moral do espectador pelas vias de uma reconciliação impossível.

bruno andrade disse...

Não sei quanta gente vai comentar isso, que é uma coisa bem rasteira até, mas como todas as coisas rasteiras, está lá: o filme nada mais é que a fantasia do salvamento do negro pelas mãos do homem branco consciencioso, o processo de conscientização do negro pelas mãos do homem branco, sua conquista de poder pelo saber adquirido com o seu "salvador" e a eventual inversão de papéis onde o negão retribui aos outros brancos aquilo que ele viu os brancos fazendo aos negros. Primeiro que não é dialético, como por exemplo Sergeant Rutledge é, segundo que o filme não chega a síntese nenhuma (a não ser que negão galopando com a mulé na garupa seja uma síntese e não uma solução ridiculamente fácil e falsa), como por exemplo o Sollima chega em Faccia a faccia. Tarantino, como no Bastardos, apenas estabelece uma simples lógica de inversão - direita vira esquerda, esquerda direita etc. Como diz o Vecchiali sobre essas ficções de esquerda dos anos 60/70, ele nada mais faz que um filme reacionário apesar das suas convicções porque utiliza argumentos e métodos reacionários (câmera lenta na hora em que tiram a Brunhilde do fosso de água; zoom lento, montagem paralela e subseqüente dilatação/maximização/exploração barata do tempo da agonia e da raiva crescente do L. Jackson antes dele ir pros ares com o terrível palacete sulista? Pela madrugada, isso é nível Ilha das Flores...).

Pelo menos as políticas de filmes como Death Wish e Rambo II são bem claras. O problema é que o público do Tarantino, que é também o público de filmes-instalações (o Tarantino se utiliza dos álibis culturais mais manjados da contemporaneidade - desconstrutivismo, inversão de mitos, releitura vulgar da contracultura - com a mesma nuance e o mesmo controle de um caminhoneiro esfomeado num espeto corrido) e de outros paragões ridículos da pós-modernidade (Bonnelo, Malick) jamais terá a honestidade intelectual e mais simplesmente honestidade pessoal de admitir que, no fim das contas, aprecia um filme cuja lógica de acertos de contas é intercambiável com a de filmes que eles julgam reacionários, repreensíveis etc. Mesmo as reportagens segregacionistas do Jacopetti são infinitamente mais potentes e provocativas que essas lambanças que o Tarantino tem feito na cola de Kill Bill.

bruno andrade disse...

A completa falta de escrúpulos do Jacopetti não é de forma alguma mais repreensível que o bom-mocismo de falsos escrúpulos do Tarantino. Pelo menos ele tem uma espécie de cortesia profissional básica da qual o Tarantino se ressente; de antemão ele deixa claro que é um gigolô dos assuntos que explora. E mesmo fazendo um filme no final dos '60/começo dos '70 não banca o justiceiro contracultural.

Igor disse...

Bruno, eu decidi consultar o dicionário para me certificar de que estávamos falando das mesmas coisas. O Houaiss define redenção como “ato ou efeito de remir; resgate”; “resgate do gênero humano por Jesus Cristo”; “auxílio, proteção que livra de situação difícil; salvação”; e ainda “esmola dada para remir cativo”. Vingança é definida como “ato ou efeito de vingar-se”; “ato lesivo, praticado em nome próprio ou alheio, por alguém que foi real ou presumidamente ofendido ou lesado, em represália contra aquele que é ou seria o causador desse dano; desforra, vindita”; e ainda “qualquer coisa que castiga; castigo, pena, punição”. Após a consulta decidi manter a minha afirmação, afinal, o que o Tarantino tenciona oferecer ao espectador é ou não uma compensação (sádica) pelas atrocidades cometidas pelos nazistas? Uma compensação, portanto, uma desforra. Então, uma vingança. Você questiona a quem é direcionada a vingança. Oras, aos nazistas sim. Ao regime, à metafísica do mal, ao símbolo, escolha o nome que preferir. Não cabe aí, no meu entendimento – e não estou de má vontade – uma redenção, um resgate moral do público através da personagem Shoshanna, ou mesmo do bando de inglórios bastardos. Para haver o resgate moral, deveria antes existir a degradação moral do espectador. Nessa história, o lugar da degradação moral é o lugar dos nazistas. Por que o público haveria de ter sua moral resgatada nessa história, com essa encenação? A não ser que fosse um membro do partido nazista arrependido que estivesse no lugar de Shoshanna, aí quem sabe poderíamos pensar que o Tarantino desejasse redimir uma moral alemã. Gérard Blain filma Paul (César Chauveau) em Um Garoto na Multidão (1976) consolando uma jovem alemã hostilizada pelos franceses no contexto da Segunda Guerra [a cena está disponível no Youtube]. Aí sim vejo um belo e perturbador exemplo de resgate moral.
Vamos lá Bruno, você se rende ou vamos ter que decidir na biriba? Hehe. Afinal, já estamos fora do filme, quase discutindo aspectos filosóficos para os quais se deve ter uma disposição que eu não sei se tenho, e de qualquer modo acho que chegamos a um consenso quanto à direção desastrosa do Tarantino (que derrapa feio, por exemplo, num elemento básico que devia ter aprendido com os filmes do Leone: ritmo), chegamos ou não chegamos?

Igor disse...

Quanto ao Django, não assisti. Não me surpreende que seja da forma que você descreve e se for isso, é mesmo asqueroso, ofensivo, racista, belicoso. Taí, algo acaba de me ocorrer: se eu fosse corresponder o cinema do Tarantino a um ícone da cultura popular, corresponderia-o a uma daquelas camisetas com a imagem do Che Guevara. Os filmes do Tarantino são essas camisetas.
E quanto à sugestão ao Jacopetti, vou ver e depois te falo.

Muito cordialmente,
Igor.

Igor disse...

Vi o filme. No Jacopetti e Prosperi ao menos há crítica e síntese (o que falta no Tarantino, como você observou). Eu chamaria de crônica caricatural e grotesca, com algumas escolhas questionáveis como o ponto de vista assumido; a sua autodefinição como um documentário; a abordagem escolhida ao filmar certas imagens... Resumindo, vejo maior problema na forma pela qual optaram do que em seu conteúdo. É importante noticiar o que acontece no mundo, onde o homem é submetido ao horror, à violência, à violação de sua liberdade. É importante narrar, relatar, provar: “isso acontece”. Seria até positivo se houvesse hoje, agora, um Jacopetti e um Prosperi filmando, por exemplo, os enforcamentos em guindastes no Irã de Ahmadinejad, para dirimir de vez a simpatia que alguns nutrem por esse regime.

Miguel Marías disse...

¿De quién es esa crítica? Creo que tiene toda la razón, y que el último es el peor film de Tarantino, absolutamente inaceptable ni como broma (sin gracia)

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