domingo, 16 de março de 2014

Guitry por Bénard

(mais uma vez muitíssimo obrigado, João)

"(...) Como Jean Cocteau, Marcel Pagnol, Jean Renoir ou o Werner Schroeter de Salomé - e talvez também o Straub de Othon e de A Morte de Empédocles - Sacha Guitry punha em crise o fator cinema, para explorá-lo à margem da sua banal função de suporte de uma narrativa. Interessava-lhe menos o traço fílmico de uma peça e o jogo dos seus atores, do que remodelá-los com malícia e rigor num novo jogo que comportava novos riscos, já que o jogo e o risco são os verdadeiros excitantes criativos no teatro. Quando uma representação é absolutamente idêntica à precedente, é porque o trabalho não está bem. No teatro, a qualidade do espetáculo vem de sua mobilidade, comparável a uma performance de circo ou desportiva. Sacha Guitry sabia que no cinema o espectador não pode intervir sobre o ritmo da representação e ainda menos na 'respiração' do espetáculo. Quando um filme palpita no écran, nem os risos nem os aplausos podem modificar-lhe o ritmo, incidir sobre o trabalho dos atores, ou inflacionar a música com novos sentidos. E quando se filma uma peça (ou um texto, seja ele qual for), aquilo que vem do teatro fica, ao nível do trabalho dos atores, na função de um objeto-libreto. Só uma música de imagens e de sons pode levar as palavras a uma nova dinâmica. As astutas manipulações de Guitry-cineasta tinham unicamente este objetivo.

Nisto, Guitry não se aproxima apenas de Orson Welles. É também próximo do Hawks das comédias, de Billy Wilder, Woody Allen, Jerry Lewis e Nanni Moretti. E isto é uma velha história: a do cinema moderno."

Noël Simsolo, Sacha Guitry

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