sábado, 26 de abril de 2014

Ouro dos tolos

Há também o inverso perfeito de um cinema em que o sistema de produção determina o sistema estético: Spielberg, Gomes, Scorsese, Bonello, Assayas, Almodóvar, Malick...

Ou mais simplesmente toda e qualquer produção feita de acordo com os parâmetros - ou seja, que cumpre com aplicação louvável (reconhecida em forma de consenso, e quase que simultaneamente, por festivais, críticos da Cinema Scope e especuladores/meretrizes de ativos no mercado da inflação autoral internacional) os pressupostos - de editais e outras contingências (Gomes e filiais/filiados; Bonello e suas putas conservadas menos pelo formol da arte museológico-acadêmica que pelo perfume repulsivo do cinismo rigorosamente dosado para seduzir e enganar um público falsamente consciencioso, na realidade mais tapado que sol em dia de chuva; cinema de mal-estar social decalcado de filmes romenos, por suas vez decalcados de Dardennes; Assayas filmando '68 como uma propaganda da Ellus etc.);

Ou ainda produtos sub-desenvolvidos, quando não abortos e aberrações lastimáveis - e que, como no primeiro caso, também cumprem com as expectativas de avarezas que tentam se passar por riquezas, e que como tais buscam apenas comoções injustificadas, sem falar no circo de pompa vazia das vaidades que lhes dão origem -, de sistemas de produção degringolados/envelhecidos/ultrapassados/desgastados de uma indústria abatida e agonizante (Spielberg, Scorsese, Burton).

2 comentários:

Luan Gonsales disse...

E já não é de hoje: o Skorecki faz um diagnóstico disto no Contra a Nova Cinefilia - ainda e sempre pertinente, falando que quando a política dos autores passou pelos "muros e mídia", a maioria dos cineastas que tiveram seus status reconhecidos por ela já estavam parando de filmar, e muitos jovens querendo inscrever seus nomes sobre nas insígnias luminosas do cinema já se apresentam com os "papéis em ordem" (temas à prova de balas, obsessões e estaturas de poetas, etc ), e isto com a legitimização da crítica: não se fala de um cineasta, de um autor, senão para vendê-lo como um produto.

Abraço!

bruno andrade disse...

De lá para cá (e lá se vão mais de 35 anos...) pouco ou nada mudou, incluindo as palavras - proféticas, premonitórias, calmamente apocalípticas - do Skorecki sobre a televisão. Talvez apenas uma coisa tenha mudado - ou melhor, finalmente acontecido: os tapados deram-se conta de que perderam o bonde da história, tentam agora "tirar o atraso" e divagam sobre uma suposta mudança de paradigma, o tal 'deslocamento' do "espetáculo cinematográfico" para o "televisivo", sem nem ao menos se darem conta - o que é um pecado - de que mesmo quando se deslumbravam com Kar-wais e toda a sorte de sedução exótica, um pouco antes da derrocada do cinema pela tv, o que os cativava era tão-somente o aspecto folhetinesco de tramas romanescas filmadas de forma um tantinho mais pitoresca que o habitual (e por isso amam Lynch e Twin Peaks em particular) - o que não é nenhum pecado, contanto que se tenha consciência disso e que se assuma sem culpa/má consciência nenhuma, sem filtragens culturais e leituras a fórceps de "subtextos" e outros acessórios (os tais "papéis em ordem", que hoje culmina naquela coisa grotesca e semi-caricatural filmada em p/b saturadérrimo - cof cof caução artística à vista - pelo Miguel Gomes).

Abração.

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