quarta-feira, 2 de abril de 2014

Tento sempre partir do concreto para conseguir... não sei se essa abstracção de que tu falavas... Tento partir das mais pequenas coisas, lugares comuns: construir uma casa, comprar batatas, ir à visita ao hospital, acordar, lavar uma escada. Volto ao princípio da conversa, ao gosto pela história: o que me interessa e me entusiasma é o mesmo que interessa ao comum dos mortais, ao Ventura ou à Vanda, é construir. A gente constrói - a palavra construção, ao Ventura, cola-se-lhe à pele - associamos uma série de coisas, recordações, palavras, locais, objectos, compomos uma longa cadeia sentimental que vamos usar para construir o filme. Depois vem o momento de passar à acção e não se pode ceder nem cair... tudo depende da tensão da nossa construção, do trabalho da argamassa bem remexida, do tijolo bem colocado, laje contra laje. Deve ser este o primeiro e o último interesse de qualquer cineasta, de qualquer músico, pintor, escultor, actor...

Quase toda a gente associa a construção à escrita do chamado “argumento”, ao guião cinematográfico. Não é nada disso. Quando falo em construção estou a falar do filme, das suas imagens e dos seus sons e das relações e ligações entre eles. Não estou a falar das palavras nem da linguagem – ao contrário do que ensinam nas escolas,
o cinema não é uma linguagem – não estou a referir-me ao texto escrito nem aos diálogos. Acho que era o Fritz Lang que dizia que a ficção só se torna forte quando encontra o documentário. Pensemos no “Man Hunt”, por exemplo. Mas também pode ser o contrário: o documentário “só lá vai” com a ajuda da ficção, isto é, com o esforço duma construção.

---

Ce sont les problèmes de construction d'un film qui me passionnent le plus. Premièrement, j'essaye de rompre les schémas attendus, de faire des films autrement sans que le grand public s'en aperçoive. Deuxièmement, je travaille la matière même du film, de manière quasi invisible pour les spectateurs, à la limite de la philosophie. Et dernièrement, mélanger des éléments soit surréalistes ou fantastiques avec presque systématiquement des éléments érotiques et je m'aperçois que très souvent, la plupart des gens ne remarquent pas les thèmes fondamentaux de mes films. Ça me laisse assez perplexe. Par exemple, presque tout le monde voit De Bruit et de Fureur comme un film social réaliste, ce que je refuse absolument.

Nenhum comentário:

Arquivo do blog