sexta-feira, 9 de maio de 2014

Não há nada que um professor de cultura contemporânea aprove mais que um bom aluno, aplicado, disciplinado (mesmo que sob uma fachada de rebeldia conscienciosa, a anti-rebeldia por excelência) e obediente, desses alunos que se esforçarão em repercutir e propagar, sem questionamento e auto-questionamento alguns, as idéias propostas pelo professor, e mais especificamente pela autoridade vigente e institucional desse professor enquanto tal. O processo que decorre de toda essa engrenagem é comumente chamado de "arrivismo".

Da mesma forma não há nada que um iconoclasta moderno, alguém que por definição não professa o que quer que seja, refute mais que esse bom aluno.

Ou toda a diferença entre modernidade e contemporaneidade: a modernidade é, e sempre foi, discurso de ruptura (não a ruptura pela ruptura, afastamento gratuito que não se relaciona mais com o que o antecedeu por mero capricho, mas a ruptura que estabelece, como um marco limiar, justamente que tipo de relação se tem com aquilo que a antecedeu, cf. Buñuel Straub Fuller Oliveira Guiguet Brecht Eliot Joyce), do que decorre sua essência eminentemente romântica, enquanto a contemporaneidade apenas dá continuidade, consensual e ecumênica como todas as formas de continuidade (sejamos mais diretos: de passagem de poder), legitimando em termos de discurso (desconstrutivismo, mera inversão de valores para reforçar e acentuar ainda mais os contrastes de corpos sociais incômodos etc.) essa continuidade (ou "continuum", como gostam de definir os próprios contemporâneos cheios de culpa e má-consciência), mesmo quando esse "continuum" de contemporaneidade dá vazão e conduz apenas e tão-somente aos frutos mais depauperados, ordinários, frustrantes, degenerados e equivocados (à catástrofe, em suma; e nisto, mas não somente nisto, não se afastando em absolutamente nada do nosso bom e velho academicismo) daquilo que um dia foi moderno.

Modernos:









3 comentários:

bruno andrade disse...

Em outras palavras:

Spring Breakers, filme mais CONFORMISTA (ou seja, reprodutor dos padrões de pensamento mais unívocos, conformado às oposições mais maniqueístas da época em que foi feito) dos últimos anos.

Mais abjeto.

E mais entendiante também.

bruno andrade disse...

Qualquer filme do Sternberg, do Pabst, do Walsh, qualquer peplum do Freda ou mesmo de um Paolella é muito mais perverso e subversivo que esse catálogo/portfólio primavera-verão capturado de transmissões da VH1.

bruno andrade disse...

Um amigo:

Hoje subverter o sistema não é libertar-se de gestores e marketeiros, mas converter-se neles. Isso é o que se passa por "autonomia" - a oportunidade de transformar-se naquilo que devia se combater. E apenas por esmolas, doações!

A grana de verdade é distribuída de acordo com as diretrizes do Comunismo de Capital dos sovietes financeiros (cf António Guerreiro). E as migalhas que sobravam pros artistas tão indo pra escritores de projeto de pau mole!

Projetos existem pra disfarçar a ignorância e a mediocridade, pra convencer e enganar. É revelador que o Design, grande serviçal do mercado, hoje tem como máxima "Design É Projeto". O especialista em projeto não o é por sua capacidade criativa, mas antes pela posição social que ele ocupa e a sua familiariedade com as novíssimas tendências.

A capacidade de pensar e se expressar apenas atrapalha quando o importante é identificar e reproduzir. (a doença do VIRALISMO)

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