sábado, 7 de junho de 2014

Aparentemente o único neo-academicismo importado prescrito para os jovens cineastas brasileiros, a bem dizer fortemente recomendado (melhor não chegar a dizer que por "motivações pessoais", visto que isso diria respeito à política e, portanto, ultrapassaria o papel da crítica que, se não prescritivo, é certamente menos especulativo que propositivo; e ainda existir a necessidade de se esclarecer algo tão primário apenas mostra que há ainda um longo caminho a ser feito, a despeito do que acham nossos carrancudos 'jovens' críticos), é aquele que dilui Lucrecia Martel com colorações de Anthology Film Archives e Apichatpong, sem esquecer da referência obrigatória a Sganzerla e algumas elocubrações (filme-ensaio, filme-processo, vídeo-diário) para ocupar nossos teóricos-críticos.

(sem falar que a verdadeira crítica, nas mãos daqueles que a praticaram verdadeiramente, de Diderot a Biette, passando por Faure e Frye e até mesmo por Baudelaire, fortemente propositivo que foi ao fundar a crítica moderna, jamais se ocupou de prescrever o que quer que fosse - ao contrário da falsa, aquela que sempre fala em devires e deveres, que aborda com excitação adolescente tudo o que encontra pela frente, das agitações mais superficiais ao que já se sedimentou no tempo e para além dele, aquela que conserva sempre a mesma avidez por novidades, a qualquer custo, mesmo que este acarrete no mecanismo implacável, e implacavelmente injusto, que implica a valorização indevida, obrigatoriamente seguida pelo movimento de devida substituição progressiva ou imediata, o qual se dá a partir do exato momento em que essas novidades, agora incômodos vestígios de miopia, de empolgação - mais precisamente de ausência de reflexão -, e finalmente de simples incompetência, deixam de ser novidades e precisam ser substituídas por outras descobertas, por outras "novidades"... E assim por diante.)

Mas se sair da zona de segurança implica em fazer filmes com prazo de validade, os tipos de filmes que asseguram o papel dessa crítica autofágica, perfeitamente satisfeita consigo mesma, então que o Gray continue sendo o cineasta rigorosamente seguro que é - muito embora Two Lovers e The Immigrant, para quem vê filmes com olhos de ver ao invés de olhá-los como quem já traz mais de um ou dois hábitos de abordagem televisiva para tratar conteúdos que trazem mesmo que o menor resquício de espessura dramática e construção novelística (pobres Luchino Visconti, Alexandre Astruc e Paulo Cesar Saraceni, sem falar em Renoir e no próprio Welles, pelo menos aquela encarnação neo-acadêmica que se ocupou das adaptações de Soberba e Falstaff), meio que sugerem um adensamento considerável do território descrito e delimitado pelos três primeiros filmes (e esse foi um fator determinante para finalmente o escolhermos para a pauta principal da terceira edição da Foco).

Não que falar de naturalismo a respeito de uma obra que comporta The Yards e Little Odessa já não seja, mais do que uma aberração, o traço de uma miopia que não se apaga, não se afasta, não se desfaz em um dia. Ou em dois.

2 comentários:

bruno andrade disse...

Só deixando ainda mais claro aqui, porque uma das características da miopia é a incapacidade primária de discernir as coisas:

quando falo em papel propositivo da crítica, quero dizer que o papel da crítica consiste em propor nomes, e mais especificamente em propor nomes em detrimento de outros. A enciclopédia do Diderot não comporta todos os artistas; o Faure elege somente alguns representantes de cada época em cada arte, os mais expressivos, os mais duradouros; a política dos jovens turcos não foi outra coisa senão o prolongamento lógico na crítica cinematográfica disso. O trabalho da crítica, então, consistiria fundamentalmente em retraçar as linhas de força que sustentam e dão corpo às obras realizadas por esses nomes.

Prescrever? Valer-se de nomes que se quer compartilhar porque se julga que são pouco ou insuficientemente conhecidos e abordados em relação à real dimensão de suas importâncias e impacto (e que, com exceção do Fuller e talvez do Carax, foi o que fizemos em todas as edições da Foco) para fins de auto-promoção? Não, obrigado, passo, e basta ver o quanto obtive com a crítica desde que comecei a Foco (e você em particular sabe bem o quanto). Até porque já vi isso sendo feito pelos profetas do "cinema contemporâneo" da Contracampo e da Cinética, e já vi que só gera cascata, tanto no campo da reflexão como no da produção cinematográfica. O crítico não tem que prescrever nada em primeiro lugar porque isso esconde fajutamente uma tendência ao unanimismo, ao consenso, ao nivelamento rasteiro do campo heterogêneo que está na origem da criação artística, e em segundo lugar porque crítica não remedia nada; antes o contrário.

Mas isso tudo, novamente, é tão primário, e ter que falar e relembrar ponto por ponto tão pouco recompensador...

bruno andrade disse...

Quando a verdadeira recompensa está em, sei lá, ver que hoje você pode basicamente baixar todos os filmes do Brisseau no MKO com legendas em português, Astruc ser um pouco mais falado, provocando um pouco mais de curiosidade, Flynn finalmente tendo seu Best Seller integrado ao acervo do MKO, a nuvem de bicho-papão jingoísta do Milius sendo de pouco em pouco mais dissipada e esclarecida, mesmo que para que se veja melhor o quanto há de verdade nisso, já não se pode falar qualquer coisa a respeito do Gray como se falou à época de We Own the Night e Two Lovers... Enfim, são coisas desse tipo que nos satisfazem, e não ser chamado para curar algum festival não sei aonde ou cobrir tal e tal mostra.

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