sábado, 14 de março de 2015

Não sou muito de falar deste tipo de coisa (geralmente fica reservada para os vassalos mais desprezíveis e deprimentes do circuito do arrivismo político, os curadores-empreendedores e os críticos-especuladores de plantão, seres que se previnem nas suas escolhas preguiçosas e tortuosas pondo em circulação a falsa moeda corrente em valores acima de 10 reais, 10 euros, 10 dólares ou 10 minutos), mas tem dois curtas que vi nesta década que, mais do que dignos de atenção, são legítimas obras-primas: o que o Daniel Pereira fez com o pai dele catando batatas, que em menos de dois minutos consegue fundir o realismo bruto dos Lumière com as articulações lógicas e a invenção resplandecente do Méliès, e um que o Pedro Faissol me enviou agora. Um minuto cravado e a realidade rasga a tela. Não se pode pedir mais.

2 comentários:

bruno andrade disse...

Ainda sobre o curta do Daniel: se alguém imagina uma colheita filmada pelos Lumière (ou mais simplesmente um filme sonoro dos Lumière) que no arco descrito por batatas sendo arremessadas de um canto para outro do quadro acaba se transformando num musical materialista dirigido pelo Méliès, e consegue imaginar isso tudo no interior de um quintal, numa horta, com uma potência de evocação concreta de pertencimento ao séc. XXI comparável ao séc. XIX nas fitas dos irmãos, tá mais ou menos no caminho certo.

Nada faltando, nada sobrando: está tudo lá.

bruno andrade disse...

E faz, sei lá, uns dois ou três anos que vi, e ainda hoje permanece uma das sensações mais fortes que tive com os filmes vistos nesta década.

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