terça-feira, 24 de março de 2015

O público bem pensante vibra com o peido da Julianne Moore em Mapas para as Estrelas ("nossa, como o Cronenberg é contundente: ele mostra uma atriz hollywoodiana PEI-DAN-DO, que coisa diferente").

O público bem pensante vibra com a leitora da Veja condômina escrota em O Som ao Redor ("nossa, vamos fingir que essa não é a caricatura mais sem imaginação e inofensiva do mundo").

O público bem pensante, que é e sempre foi o público mais vagabundo e preguiçoso do mundo, merece chafurdar na merda de cinema que lhe chega.

5 comentários:

bruno andrade disse...

O problema não é ser caricatural, mas quando se é caricatural e sem um pingo de imaginação (nunca faltou imaginação a Tashlin, Aldrich, Wilder e Chabrol) não tem como não dar em um filme que em menos de dez minutos simplesmente não tem mais para onde ir (ex. no momento em que a Moore aparece em cena qualquer pessoa que viu mais do que três filmes na vida sabe que ela é uma rampeira e que eventualmente vai dar a bunda para alguém... mas certamente não alguém tão previsível como o John Cusack... então talvez seja o rapaz da série Crepúsculo... e por sua vez isso vai resvalar em... etc.).

bruno andrade disse...

Mas fingir que o academicismo não se instalou no Cronenberg depois do Marcas é ainda pior, é tapar o sol com a peneira. Mas já que fingem que o Albert Serra é um cineasta, então por que não?

William Salgado disse...

Bruno, taí o que pensei de Mapas: o filme mais a-ca-dê-mi-co do Cronenberg. E de uma frieza e distanciamento que não traz ou instiga nada. Previsível e quadrado, por último.

bruno andrade disse...

Acho que frieza e distanciamento não são tanto o problema. Vide certos filmes do Carpenter (Halloween 3, The Thing), certos filmes do Kubrick.

Quando se convertem em desinteresse, em execução de procedimentos pura e simples, como no caso de Cosmópolis, como no caso deste, como NÃO É O CASO com M. Butterfly e Spider (para pegar dois filmes dele absurdamente subestimados e mal vistos), aí sim é um problema.

Talvez tenha a ver com o que o Carpenter constatou há uns anos atrás: "he now considers himself an artist. I preferred him as a bum."

Se você pensar o personagem do Spider como a epítome dessa condição "bum" dos personagens do Cronenberg (os protagonistas de Scanners, Dead Zone, The Fly, os de Crash também), talvez haja algo aí, algo bem profundo como costuma ser o alcance do Carpenter.

William Salgado disse...

Nos Carpenter e em certos Kubrick, acho o distanciamento um modo de deixar as coisas se relevarem por si. Saberia zen-budista... Jamais há o desinteresse; há a espera, o aguardar, como no próprio Spider e Crash, onde não é o vagabundo, mas o vaga-mundo que conta e revela mundos (autistas?) que se abrem.

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