sábado, 7 de março de 2015

As tentativas feitas nos últimos três séculos, no sentido de captar a alma, fazem parte daquela tremenda expansão dos nossos conhecimentos sobre a natureza que trouxe o cosmos para mais perto de nós, em medida quase inimaginável. Os aumentos de milhares de vezes dos objetos, por meio de microscópios eletrônicos, rivalizam com as distâncias de 500 milhões de anos-luz. A Psicologia, porém, está muito longe de alcançar um desenvolvimento semelhante ao das demais Ciências naturais. Como vimos, até hoje quase não conseguiu se libertar das malhas da Filosofia. Entretanto, qualquer ciência é função da psique, e qualquer conhecimento nela se radica. Ela é o maior de todos os prodígios cósmicos e a conditio sine qua non do mundo enquanto objeto. É sumamente estranho que o homem ocidental, com raríssimas exceções, aparentemente não dê muita importância a este fato. Sufocado pela multidão dos objetos externos conhecidos, o sujeito de todo conhecimento eclipsou-se temporariamente, até à aparente inexistência.

A alma era um pressuposto tácito, aparentemente conhecido em todos os seus detalhes. Com a descoberta da possibilidade de um domínio psíquico, criou-se a oportunidade de embarcarmos numa grande aventura do espírito, e poderíamos esperar que houvesse um interesse apaixonado nesta direção. Como se sabe, nada disto aconteceu; levantou-se, pelo contrário, uma generalizada reação contra esta hipótese. Ninguém tirou a conclusão de que, se o sujeito do conhecimento, isto é, a psique, tem também uma forma obscura de existência não diretamente acessível à consciência, todos os nossos conhecimentos devem ser incompletos, em proporção que é impossível determinar. A validade do conhecimento consciente foi questionada em uma forma totalmente diversa e mais ameaçadora do que o fora antes pela análise da teoria do conhecimento. É verdade que esta última colocou certos limites ao conhecimento humano em geral, limites estes dos quais a Filosofia idealista alemã tentou se emancipar, mas as Ciências naturais e o senso comum se acomodaram sem grande dificuldade a esta situação, se é que dela tomaram conhecimento. A Filosofia lutou contra esse estado de coisas, defendo uma antiquada pretensão do espírito humano de ser capaz de trepar nos próprios ombros e de conhecer coisas que estão simplesmente além da compreensão humana. A vitória de Hegel sobre Kant significava uma gravíssima ameaça para a razão e o futuro desenvolvimento espiritual, sobretudo do povo alemão, sobretudo se levarmos em conta que Hegel era um psicólogo camuflado e projetava as grandes verdades da esfera do sujeito sobre um cosmo por ele próprio criado. Sabemos como é grande a influência de Hegel na atualidade. As forças compensadoras deste desenvolvimento prejudicial se personificaram parcialmente no Schelling da última fase e parcialmente em Schopenhauer e Carus, enquanto, ao invés, o "deus bacante" desenfreado que Hegel já havia pressentido na natureza irrompia com toda a força em Nietzsche.

A hipótese de Carus relativa à existência do inconsciente estava destinada a afetar a tendência então dominante da Filosofia alemã, e isto tão mais duramente quando se considera que esta acabara de superar o criticismo de Kant e havia, não propriamente restaurado, mas reerguido a soberania quase divina do espírito humano — o espírito puro e simples. O espírito do homem medieval era, no bem como no mal, o espírito de Deus a quem ele servia. A crítica epistemológica era, por um lado, ainda a expressão da modéstia do homem medieval, e, por outro lado, já um abandono ou uma abdicação do espírito de Deus e, conseqüentemente, uma ampliação e fortalecimento da consciência humana dentro dos limites da razão. Sempre que o espírito de Deus é excluído dos cálculos humanos, seu lugar é tomado por um sucedâneo inconsciente. Em Schopenhauer encontramos a vontade inconsciente como nova definição de Deus; em Carus é o inconsciente e em Hegel a identificação e a inflação, a equiparação prática da razão filosófica ao espírito puro e simples, tornando, assim, aparentemente possível aquele aprisionamento do objeto, cuja floração mais fulgurante é a sua filosofia do Estado. Hegel oferece uma solução do problema levantado pela crítica epistemológica que dava às idéias uma chance de provar sua autonomia desconhecida. Essas idéias ocasionaram aquela hybris [orgulho] da razão que conduziu ao super-homem de Nietzsche e, conseqüentemente, à catástrofe que traz o nome de Alemanha. Não somente os artistas, mas também os filósofos algumas vezes são profetas.



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