quinta-feira, 5 de março de 2015

Tirando tudo, Pompéia é exatamente esse espetáculo sublime ao qual tantos hipsters metidos a iconoclastas (a iconoclastia de acordo com o cardápio do dia, o que necessariamente conduz apenas ao mais profundo e ordinário conformismo) dedicaram loas.

Para quem vê algo sequer remotamente semelhante a uma “liturgia” num filme do Cottafavi transfigurado pela truculência formal e o sadismo morde-assopra de um von Trier, é mais do que um prato cheio.

E chega a ser provavelmente mandatório para quem já desaprendeu por completo a ter uma relação minimamente sensível (para não dizer saudável) com um corte, uma mudança significativa de escala de plano, contrastes e saturações que não correspondam às mais grosseiras aplicações de receitas de pós-produção, um instante gratuito de autonomia da ação ao invés da subordinação incessante desta à opressão de uma maquinação narrativa primária (para ficar em apenas duas chaves de potencial transgressão no interior de um quadro narrativo, o filme tem ao mesmo tempo 0 da gratuidade dionisíaca e revolucionária das jornadas de contemplação dos Ford, Walsh, Cimino, Manns, McCarey, Hawks, Dwan e 0 do fatalismo ferrenho e da malícia destruidora dos Lang, Tourneur, von Sternberg, Ulmer, Bava, Siodmak), para não falar de qualquer investimento moral (algo compartilhado por todos os cineastas dos dois grupos acima, isto quer dizer por todo cineasta digno de ser chamado de cineasta) capaz de reger e elevar uma técnica a algo mais que uma aplicação burocrática, flácida, energúmena e insensível de faturas e procedimentos os mais, esses sim, “vulgares” que se pode imaginar.

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