quinta-feira, 16 de abril de 2015

5 comentários:

fernando lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
bruno andrade disse...

Oi Fernando,

só a título de esclarecimento: apesar de admirar, tendo estudado consideravelmente e, portanto, conhecendo razoavelmente bem, os textos escritos por alguns integrantes do “Círculo do MacMahon”, e apesar de admirar as obras de um corpo de cineastas cuja valorização e fortuna crítica foi feita principalmente pelos integrantes desse Círculo, eu não sei se sou um admirador “do MacMahon”. É um movimento atrelado a um momento histórico específico (cineclubismo, prospecção de filmes raros em salas de cinema) do qual não faço parte; desse movimento o que chegou a mim foram apenas alguns ecos. São alguns desses ecos - nominalmente a teoria crítica depreendida da visão desses filmes raros como articulada nos textos do Michel Mourlet, do Jacques Serguine, do Marc Bernard ou do Lourcelles, o trabalho de pesquisa e a conseqüente refutação de alguns valores vigentes - que me parecem dignos de interesse. Eu estudei e pesquisei a fundo o macmahonismo, assim como estudei e pesquisei inúmeras outras coisas...

Sobre o que o Filipe falou: olha, o Filipe não é a pessoa que eu particularmente procuraria para trocar uma idéia sobre questões tocantes ao macmahonismo, tanto no campo da teoria como no da produção crítica. A única pessoa aqui no Brasil que fez um estudo estimável, isto quer dizer que foi aos autores, fez todo o trabalho hermenêutico (não apenas leu Mourlet como remontou a Hegel, Kant, Valéry, ou seja, foi atrás de toda a tradição crítica sobre a qual o macmahonismo se funda), em suma, foi sério e pertinente com a produção crítica e teórica do macmahonismo, foi o Luiz Carlos Oliveira Jr. O trabalho do Jr. é mais recente que o meu (em 2006 ele ainda não sabia da existência da Présence du Cinéma nem conhecia epígonos tardios do movimento como Biette e Guiguet), está mais voltado para a academia, mas é basicamente o que tem de pertinente aqui no Brasil. O resto é incompreensão e vulgarização, quando não confusão filtrada por um espectro cultural precário (sequer é possível exigir qualquer esforço hermenêutico de pessoas que acham que a história do modernismo começa e acaba com a semana de 22 e as vanguardas européias dos anos 20 e 30).

Sendo mais específico, eu simplesmente não consigo entender a que ele se refere quando fala em “transcendentalismo” (isso vale tanto para Bazin como para Mourlet, diga-se de passagem). Qualquer estética que se funda na ontologia da imagem fotográfica ou na preeminência do ator (o próprio Mourlet deixa bem claro - “tudo está na mise en scène” - e Losey é o cineasta ideal porque “Sua grandeza é ter compreendido que não há saúde fora da inteligência. Donde sua comum atitude diante das metafísicas e de todas as construções arbitrárias do espírito. Seu domínio é aquilo que pode sentir, tocar, dominar”) necessariamente refuta toda e qualquer idéia de transcendência; a essência está intrinsecamente ligada à existência (versão Rivette), à evidência (versão Mourlet). Rivette, em 1953, sobre Howard Hawks: “É uma beleza que demonstra a existência pela respiração e o movimento pelo andar. O que é, é.” Mourlet, em 1960, sobre Joseph Losey: “A é A. O real não apresenta nenhuma ambigüidade e surge à consciência na iluminação da evidência.” Ou seja: a evidência é o único princípio plástico de coação da essência. Em outras palavras, a idéia no nível abstrato - “existência”, “movimento” - é conjugada pelos seus movimentos concretos - “respiração”, “andar” -, os quais fornecem o substrato material do trabalho realizado pela mise en scène (que nos filmes em que é bem sucedida funciona tanto sobre o ajustamento como sobre o deslocamento entre a abstração e essas coordenadas concretas, como, por exemplo, nos filmes do Preminger e do Rivette justamente). Não sei se foi a essa abstração que Filipe quis se referir quando falou em “transcendentalismo”. Se for esse o caso, é um lapso bastante revelador.

bruno andrade disse...

Quanto a “awe at physical presence”, eu substituiria “awe at” por “grasp of”. E ainda assim eu diria que isso “multiplicado a 1000” leva menos ao macmahonismo (Ida Lupino, Raoul Walsh, Loseys americanos, Siegel, Fleischer) que aos cinemas de Jean-Marie Straub, Jean-Claude Rousseau, Hou Hsiao-hsien, Marguerite Duras, Andy Warhol e Pedro Costa (não há nenhum paradoxo, por sinal). E mesmo assim eu diria que isso ainda seria tomar a parte pelo todo - ou seja, restringir toda a bibliografia de textos macmahonistas a Sobre uma Arte Ignorada, Apologia da Violência e Educação do Espectador, imaginar que toda a estética macmahonista converge apenas nas proposições mais excelsas desses textos. Não é o caso e os textos mais teóricos, como os do Marc Bernard sobre The Chapman Report, Rififi à Tokyo e Lawrence da Arábia, os do Lourcelles sobre Mankiewicz, Dwan e Le sette spade del vendicatore (sem falar no próprio Sobre uma Arte Ignorada, mas nessas horas a parte teórica parece passar batida diante do estupor causado pela retórica assertiva do Mourlet), deixam muito claro como no macmahonismo a presença do mundo e a manifestação palpável das forças da natureza e da energia física do ator necessariamente se comprometem com uma construção cênica (ou seja, com uma articulação teórica onde os movimentos exteriores coincidem com precisão absoluta aos tensionamentos do esqueleto dramático). Marc Bernard: “No vácuo, os dois princípios de um roteiro são que este possa ser cósmico e teórico. Ser cósmico, isto é, manifestar a cada instante a totalidade daquilo que é vivo. Ser teórico, isto é, impor as formas da reflexão e da demonstração à maior ausência de entraves, ao conhecimento mais orgânico. Um realismo aberto deve envolver o corpo, a inteligência e as estruturas do mundo tais como elas são exatamente e tais como nós não pudemos jamais vê-las.” Não vejo nenhuma reverência, nenhuma adoração ao pé de ídolos, nenhum louvor irrestrito (“awe”): vejo ponderação analítica e alcance reflexivo.

Já o “proto fascistic perspective”, isso poderia ser (e já foi, e em alguns casos ainda é, vide a USP) estendido ao corpo dos cineastas eleitos do macmahonismo (afinal de contas Fritz Lang fez sim o dístico indiano, para não falar nos nibelungos, Dwan foi o diretor de Escape to Burma, Walsh o realizador de They Died With Their Boots On e por aí vai). O mínimo que se pode dizer é que seria uma pena se fosse esse o caso. Eu honestamente acredito que esse equívoco generalizado se dá mais pelo tom assertivo do Mourlet e por ele finalmente descrever uma estética absurdamente bem fundada que, sendo muito fechada, exclui alguns objetos de adoração (Welles, Resnais, Chaplin). Mas acho curioso como, por outro lado, alguém como o Kubelka faz basicamente a mesma coisa e mesmo assim não vejo muita gente acusando-o de enunciar uma estética com uma perspectiva protofascista.

Então é óbvio que nada do que o Filipe falou procede, a não ser como caricatura.

fernando lima disse...

Obrigado Bruno. Bastante esclarecedora. Eu não conheço muita coisa desse assunto, vi poucos filmes dos diretores (do Lang só os mais famosos mesmo) e fui curisoso pesquisar sobre o assunto.

Mas creio que o Filipe tenha feito uma caricatura sim, uma zombaria. Visto que no mesmo lugar que ele disse isso, ele também indicou o Luiz Carlos Jr e o famoso livro dele que até a presente data não tive a oportunidade de ler.

agradeço o tempo.
Fernando.

bruno andrade disse...

O comentário original do Fernando (que o apagou):

ola bruno, sei que voce é admirador do mcmahon e queria saber sua opinião sobre isso (o que procede?):



"Get Bazin, multiply the transcedentalism and awe at physical presence by 1000, add proto fascistic perspective that makes good old conservative Andre look like one of those commie catholics.

There's Macmahonism."
- Filipe Furtado

obrigado

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