quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

« Fuller, dans ses précédents films, s'était déjà permis pas mal de choses. Cette fois, il se permet tout. Et le climat de folie de Naked kiss, qui provient d'un surcroît d'énergie et d'intensité dans la façon dont réagissent les personnages, provient aussi du schématisme généralisé dans lequel Fuller a voulu enserrer son film. Schématisme de l'histoire, des personnages, du genre lui-même. Le génie de Fuller est qu'à travers ces divers schématismes finisse par s'exprimer le schématisme des conceptions sociales et morales des sociétés actuelles (telles que les voit Fuller), et que le propos critique de l'auteur soit finalement exalté par les excès mêmes de son oeuvre. »

Jacques LOURCELLES

Présence du Cinéma n° 24-25, outono 1967

5 comentários:

Júnior disse...

Pathos contra norma. Ou: da Natureza como mestre de cerimônias da civilização hehe.

bruno andrade disse...

Cara, o texto do Lourcelles sobre Fuller na Présence n° 20 é provavelmente a melhor coisa que ele já escreveu, e conseqüentemente é provavelmente a melhor coisa já escrita sobre Fuller. Título: Tema do Traidor e do Herói - Observações livremente inspiradas pela obra de Samuel Fuller.

Em dado momento, Lourcelles fala sobre o "classicismo invertido" de Fuller - traço que primeiramente distanciaria Fuller de todo o cinema americano e que no entanto completa e ratifica esse cinema definitivamente e de uma vez por todas. Para tanto, compara Objective Burma a Merrill's Marauders. No primeiro, diz Lourcelles, um soldado doente é um elemento que fragiliza e atrapalha o prosseguimento da ação e que precisa portanto ser inoculado, eliminado; no segundo, é justamente a doença - a malária, a febre - que faz com que os soldados continuem marchando, que lhes dá uma força invencível, um acesso último a um excesso de energia.

Depois Lourcelles segue falando sobre o "Scope enlouquecido" de Forty Guns, que após descrever as características marcantes da obra de Fuller o nome que vem naturalmente à sua pluma é o de Louis-Ferdinand Céline etc.

Aquele tipo de texto raro, para não dizer escasso, que faz com que você reveja tudo e refaça todo o percurso do que havia pensado até então sobre o cineasta, os filmes etc.

Júnior disse...

Esse primeiro exemplo me lembrou tb as peças didáticas
( paradidáticas, na vera) de Brecht, tipo Aquele que diz sim, onde um indivíduo deve ser sacrificado pela sobrevivência da comunidade. Só que o conceito de sobrevivência em Fuller- assim como Brecht- é altamente problematizado e ambíguo, e se torna um petardo dirigido tanto a favor do pathos "que transfigura", na doença ( e a importância acordada por Lourcelles ao colapso cardíaco que mata o Jeff Chandler no filme e na vida demonstra bem seu conhecimento da complexidade das relações de força em Fuller) - quanto contra a norma fascista uniformizante que nega todo pathos, na figura da coação social.
Como em todos os grandes, mão dupla de forças, circuito de proliferação de signos,genealogia, travestismo, simbioses, etc. Não é coisa pra criança não, bebê hehe.
E Céline certamente é um fantasma na obra de Fuller, tenha ele o lido ou não.

bruno andrade disse...

Porra, bingo: o que são Shock Corridor e The Naked Kiss senão reencenações terminais e portanto modernas da Ópera dos Três Vinténs?

A comparação foi perfeita.

Júnior disse...

Terminais, é por aí. Fim de rota do sentido, recomeço da roda das forças.

Arquivo do blog