sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O Insigne Ficante e O Guru e os Guris vistos.

Muito mais para Straub e Tex Avery que para Jonas Mekas, ao contrário do que se pensa na imediata pós-visão.

P.S.: A Concepção visto em seguida. Uma merda inclassificável.

15 comentários:

daniel disse...

Tex Avery eu até entendi, mas qual foi a relação com Straub que vc viu?

Tiago disse...

É inapelável.

bruno andrade disse...

Ambos usam a palavra como parafrase da evidência. É um trabalho difícil e raro - bem mais difícil de se fazer e raro de se localizar que comumente se imagina.

No caso do Jairo em particular, isso me parece igualmente verdadeiro para os textos.

daniel disse...

A idéia é boa, mas no caso do Straub, em que filmes vc vê isso?

bruno andrade disse...

Qualquer um. E não é idéia: está nos filmes, é matéria.

daniel disse...

Acho que eu não concordo muito sobre isso acerca de filmes como "En Rachâchant" e "Gente da Sicília", mas beleuza.

bruno andrade disse...

http://www.youtube.com/watch?v=5uIqs6UDifM

E no En Rachâchant também. Há inclusive uma lousa no filme que não está lá pra bonito.

A matéria não é uma coisa intermitente como a idéia: por ser física, por ser concreta, ela tem contornos, nuances, asperezas, valores desiguais, intensidades indetermináveis; é, em suma, sinuosa. Tem peso e densidade, força, e portanto trabalha - um trabalho que, cultivado e conduzido no interior de uma duração, vem completamente à superfície quando solicitado. Esse permanece o principal ranço dos intelectuais e acadêmicos que lidam com o cinema: uma mesma incapacidade de base para compreender que no cinema a idéia é restrita, delimitada pela matéria, e portanto não muito suscetível a delírios e exercícios de vaidade.

daniel disse...

É verdade, há matéria nos filmes. Mas aí vc tem o seguinte problema: interpretação. O que transtorna qualquer desejo de verdade numa análise crítica é isso. Caso contrário, não seria crítica, mas clínica. São coisas inteiramente diferentes. Por isso, o que parece delírio a um pode parecer transparente a outro. É assim desde que a arte deixou de ser feita para o divino e passou a ser feita para os homens. Ou não?

bruno andrade disse...

Não quando a interpretação resvala no delírio e no exercício de vaidade e da indolência - o que é mais ou menos o caso mais freqüente. A transparência não pode estar contida na interpretação assim como a significação não tem como anteceder o evento do qual tem origem. Melhor pensar em outro termo, fazer outro trabalho - o de mediação, talvez. Aí talvez seja até possível se falar em transparência.

A interpretação muitas vezes é um trabalho e um esforço exaustivo e perfeitamente dispensável, ao menos para mim, tão dispensável que parte de um princípio praticamente oposto ao do contato com uma matéria, que é o de decifrar uma temática criptografada que dá acesso a uma temática recôndita. Um abre-te Sésamo lingüístico a que alguns poucos iluminados (e eis que a arte parece regredir à época em que era feita para algumas entidades superiores e sumidades) têm acesso, geralmente gente da academia - gente pedante, que geralmente se tomam por semi-Deuses, desnecessário dizer. Talvez por não suportar até hoje a interferência da academia no campo da análise crítica eu permaneço completamente avesso a essa supremacia da linguagem, da interpretação, na crítica de cinema - que aliás já havia se virado muito bem obrigado com o seu objeto muito antes dessa intervenção das lingüísticas, do estruturalismo, da semiótica e de todas essas picaretagens aí. Não são coisas aparentemente lá muito necessárias para uma arte simples que conduz uma figuração do espaço através de uma duração, uma técnica, com suas restrições e possibilidades. Seguindo esse raciocínio, um texto, e não necessariamente crítico, pode ser bom quando é capaz de sugerir ou evocar algo como a intensidade do timbre ou do tom da obra a que se refere. Quando de comum acordo no que tange suas restrições (limitadoras) e suas possibilidades (infinitas), um trabalho bastante profícuo pode ser realizado na crítica; até lá, é pouco mais que gastar saliva.

Com relação ao divino na arte, eu pensei que já tinha deixado bem claro de onde parto e o que penso com relação a essa questão há alguns posts atrás. Talvez você tenha lido. Se não leu, é meio assutadora a sua insistência com essa questão toda e qualquer vez que alguém - ou talvez apenas eu - não partilha sua opinião.

bruno andrade disse...

Inversão ali em cima: "talvez você não tenha lido. Se já leu..."

bruno andrade disse...

"temática criptografada" = "mensagem criptografada", mais uma.

daniel disse...

Não, peraí, não vamos confundir os papéis (ou virou papeis?): eu não tenho problema nenhum quando alguém tem uma visão sobre qualquer obra que seja inteiramente oposta à minha. Às vezes eu vejo isso na sua fala, como se fosse possível garantir o que é aceitável e o que é "delírio" - mas talvez seja apenas impressão minha ou seja apenas um excesso de entusiasmo seu, não uma imposição retórica.

Daí vem essa insistência que falo no divino e no humano, e vc não deve tomar essa crítica como pessoal ou direta a você - na verdade, só se pode falar em crítica (historicamente mesmo) a partir desse momento em que a metafísica divina deixa de ser a base do olhar sobre o mundo. É aí que surge a crítica e o vazio em torno da qual ela roda. Esse vazio é nossa alma que não existe mais - passa a ser interpretação e escolha. Daí, acho injusto sugerir que eu não aceito outras escolhas.

Porque, na verdade, entendo a sua preocupação com a questão da interpretação, mas qualquer palavra sobre uma obra é uma interpretação. Não existe palavra que se refira estritamente à matéria. O filme já existe por si só, não tem como ser refeito no texto - a matéria já está lá, não estará no texto. No texto só há espaço para outra coisa que não é a obra (regra básica sobre matérias: uma coisa não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo). O texto não consegue ser mais do que uma reação subjetiva a um universo simbólico.

Outra coisa: acho bem redutor sugerir que linguística, estruturalismo e semiótica podem ser todos jogamos no mesmo saco intitulado "picaretagens".

bruno andrade disse...

Estamos acordados que parafrase nos dois Straub então?

Cara, eu só vejo insistência, não vejo crítica (construtiva ou de outro tipo) alguma. Nenhuma. Dá pra perceber que é algo que incomoda você, mas dá para perceber igualmente que é algo com o qual você é um tanto paranóico. Daí a tentar detectar pêlo em ovo... Com relação ao que historicamente vai ser a crítica, caso você não tenha lido anteriormente o que escrevi, o que posso dizer é que o Mourlet está em dia com o Nietzsche dele e vocês estão mais ou menos de comum acordo. Há algumas horas, por sinal. E pra mim crítica de cinema é... Mourlet + um punhado.

Agora, quem está fazendo confusão, desculpa, é você: eu falo em sugestão, eu falo em evocação - falo de um mapa. O mapa não pode ser uma reprodução mecânica, supostamente fiel ao território - senão ele é o território e não mais um mapa (é mais ou menos assim que surgem cânceres). O que eu repreendo é que muitas vezes esse trabalho - o do mapa - sequer é feito, parte-se para suas especificidades (a parte de interpretação) antes de se fazer o devido trabalho de reconhecimento, ou apenas deformam a extensão do território, sua área, ou ainda não dão conta de seus elementos constitutivos, suas propriedades, suas riquezas, suas pobrezas etc. Mapas mal feitos, nos quais é tão fácil se perder quanto difícil se localizar. Quanto a parte de interpretação, quando muito, ela deve se prestar a apagar seus traços na medida em que avança - caso contrário ela acaba por sufocar algo muito mais importante e sem o qual todo o exercício crítico acaba sendo um mero exercício de vaidade, que é a intuição. Daí os delírios inescapáveis, daí uma leitura interminável.

Sobre as picaretagens (desculpa mas não vou fazer questão de usar as aspas), a partir do momento em que não são importantes para o exercício da crítica - e não são -, não vejo muito bem de que outro modo chamá-las quando elas são tão freqüentemente a torta na cara do leitor e a muleta do crítico indulgente.

daniel disse...

Libera meu comentário aí, tio.

bruno andrade disse...

Ele foi liberado e nada, nadinha até agora. Isso aconteceu com mais uns três, quatro comentários.

Mas desde que comecei a mexer em layout, template e moderação o blogger vem me pregando umas boas.

Vou ver se acho o e-mail de recebimento do comment, aí qualquer coisa colo o conteúdo aqui.

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