domingo, 15 de fevereiro de 2009



Revendo Rolling Thunder - algumas vezes nas últimas noites, diga-se de passagem.

Basta compará-lo a Taxi Driver* para medir o abismo que separa a imaturidade (estética, moral, psicológica - como um adolescente se antecipando rumo à decadência e sucumbindo à degeneração) do refinamento, esse outro nome da precisão, da calma, da inspiração e da justa tonalidade. Em outras palavras, basta comparar as conseqüências pueris da revolta do personagem de De Niro (que em raríssimos momentos é retratada como conseqüência de um transtorno, e ainda por cima abstraída enquanto tal nos poucos instantes em que é assim tratada, fundamentalmente porque Scorsese, realizador inconseqüente e maniqueísta que é - e aqui bastante concretamente: a conseqüência literalmente precede em importância o fato que a originou - saliva em espera do obrigatório climax catártico, típico do seu cinema de transcendentalismo de bazar) à nobreza serena, natural e trágica do personagem de William Devane. É a vocação trágica do herói, sua existência solitária e melancólica, voltada sobre si mesma - é dela que o guerreiro tira ao mesmo tempo força e tenacidade, qualidades intrínsecas à sua raça, e por isso mesmo inevitáveis.

* segundo Olivier Assayas, "uma aula de cinema moderno". Apenas mais uma evidência que os vendedores dessa indistinta sopa pelicular internacional que nos servem hoje em dia deviam estar catando batata em Pato Branco.

4 comentários:

Rodrigo disse...

"É a vocação trágica do herói, sua existência solitária e melancólica, voltada sobre si mesma - é dela que o guerreiro tira ao mesmo tempo força e tenacidade, qualidades intrínsecas à sua raça, e por isso mesmo inevitáveis".

Não haveria melhor descrição.

Anônimo disse...

¿Te gusta "Rolling Thunder"? Creo que entendí mal el comentario, ahora me asalta esa asombrosa sospecha... es un film que encontré efectista, tramposo y repugnante.
Miguel Marías

bruno andrade disse...

Adoro. http://signododragao.blogspot.com/2007/04/e-por-falar-em-morte-do-cinema.html

Francis Vogner dos Reis disse...

Shut up. Scorsese é (ou foi) um cineasta maior.

Estava falando com o Sérgio e chegamos a uma conclusão: Ato Falho (seu filme) é muito parecido com aquele primeiro filme do scorsese feito na faculdade. O que não desabona nenhum dos dois.

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