sexta-feira, 17 de julho de 2009



Tem 6.000 anos que um filme desses estava para acontecer.

8 comentários:

Wesley disse...

vou ver esse filme agora.
vc me empolgou mto ontem
e isso é um problema, expectativa é sempre fatal. ou não.

o problema msm é q vou ve-lo numa tv de 14" !!!

isso é foda!

outra coisa:
sempre q vou num sebo ak em joinville eu me lembro de vc.
eles tem uma biografia do mickey rourke q eu não me lembro o título no momento.
vc tem alguma biografia do cara?
essa custa 4 reais.

se kiser compro pra vc. é só entrar em contato comigo por email ou orkut.

T+

bruno andrade disse...

Cara, eu tenho várias biografias do Rourke. Mas acho que eu sei qual a que você está falando - é a do Philippe Durant, capa azul. Valeu pela lembrança.

Wesley disse...

acabei d ver o filme
achei do caralho.
mas ainda prefiro "os monstros.." pela temática.
a pobreza interna e a podrêra da família mto me atrai.

"sem essa aranha" é maior sim, pobreza interna do mundo, vida pela instinto, entre outras coisas,

foda foram as condições, além da tv de 14", a cópia q eu assisti era horrivel!

som totalmente fudido, destorcido, péssimo. a imagem tava bem ruim tb, bastante envelhecida.
foi gravado do canal brasil.

kero ver de novo mas em outras condições. desse jeito não dá!

bruno andrade disse...

O que me atrai no Aranha, e me faz achá-lo o melhor filme já feito em terras tupiniquins, é que o Sganzerla ali chegou num cinema genuinamente primitivo: é como se tivesse descido ao Etna para entalhar nas paredes a história do século em que viveu e ainda dos outros séculos que seguiriam o seu. Primitivo porém profético, ensaístico e romanesco, teatral e metateatral - é a perfeição de todo o seu cinema, de toda a sua aprendizagem e técnica.

Júnior disse...

Só em Di e Idade da terra, Gláuber, por exemplo, chegou
( alcançou) aquela baixeza. Esta imanência absoluta, esse ateísmo, essa figuração baixa: planetazinho fodido, performances que se auto-implodem, esgarçadas e tornadas tautológicas pelos longos planos sequência, esse giro camaleônico da camera que se perde e se encontra, e vai redistribuindo os papéis, vai implodindo e reimplodindo tudo: Aranha/Zé Bonitinho/Zé do morro/Ditador de terceiro Mundo, Helena Ignez/anjo afásico/musa de terceiro mundo/Imperatriz Galante da Boca, Maria Gladys musa de quinto mundo/imperatriz galante da Fome/Maria GLADYS.
Nada permanece no lugar em Sem essa aranha, aho que é isso o sentido das pans circulares, da circularidade auto-implosiva da tudo aliás: uma constante reconquista de si e do mundo através de um sistemático perder-se de si e do mundo.O dom só se dá num desperdício de si, numa part maudite, precária, faminta e fodida de si: dialética do êxtase.
Lembro que quando vi o filme pela primeira vez fiquei horrorizado e maravilhado ( esse "e" é na vera), porque ainda talvez não tivesse descoberto que o cinema preexiste aos filmes, assim como o Pathos preexiste aos corpos que ele investe,e o mundo etc. Imanente , ateu again.
Foi um aprendizado quase masoquista até.

Wesley disse...

amém!

o q eu percebi é q o sganzerla faz uma observação social dos brasileiros, escancarando uma população pobre (economicamente tb), ignorante, sem cultura, alienada, estagnada e decaindo, sem perspectiva, q vive apenas para comer, foder e cagar.

interessante q ele (sganzerla) é o outro, ele está a parte (e talvez acima?), ele não se coloca junto a essa população.
ele percebe q há pessoas q podem fazer, viver, perceber d maneira diferente e ele é um deles.

ele e todos nós q assistimos a esse filme e conseguimos extrair alguma coisa dele.

bruno andrade disse...

Não sei Wesley... Isso que você fala, do "outro", corresponde muito mais a uma descrição do cinema do Bianchi, com as suas mais-valias, sua patologia de botequim e seus valores de mercadoria para tudo, incluindo aí para a linguagem com a qual os personagens se tratam e se destratam conforme o interesse da demonstração ("beltrano superior a fulano, sicrano inferior a fulano"). Essa questão da linguagem é no Sganzerla, como em todos os grandes homens de teatro do século dele (Welles, Guitry, Losey que ele adorava), crucial: a linguagem do Aranha é em vários momentos a linguagem do próprio Sganzerla, e a mesma coisa com a Helena Ignez, com a Maria Gladys, com o Moreira da Silva. O teatro dessa linguagem não deixa de ser um teatro que leva às últimas conseqüências esse pensamento do Sganzerla. Existe uma dialética, sim, mas também existe algo como uma ágora na qual ele situa esses... Deuses de papelão? (Acho que a expressão é do Jr. inclusive, cunhada para os personagens de A Idade da Terra.) E é nesta Ágora que o Sganzerla coloca o Gonzaga tocando Boca de Forno, é dela que o Aranha desce pra ir jogar no bicho naquele que é talvez o plano mais inacreditável do mais inacreditável filme já feito no Brasil. Eu acho que é isso: o Sganzerla escancara, mas escancara mostrando as coisas pelo que são - e lá vai a câmera acompanhando o Jorge Loredo berrando "Iemanjá!" morro abaixo, indo fazer o seu joguinho...

Júnior disse...

é, deuses de dentadura. Aliás, justamente na cena do morro
( quando os personagens sofrem literalmente uma avalanche,quando tudo ameaça submergir e desabar, mas aí neste limite tudo é retrocedido/retroagido e o jogo recomeça novamente, eu tou com fome!,)que Helena Ignez me parece representar o papel do Sganzerla: um sismógrafo, alguém que capta e é captado por, com um certo aturdimento e centrífuga "participação" extática, o caos
( realmente, captar e ser captado por, movimento duplo e sincrônico, sujeito e objeto ao mesmo tempo e no mesmo fluxo), mas é neste corajoso movimento pelo "valor de uso" do êxtase e sua fúria decadentista que o filme consegue dar conta de um monte de ambiguidades, de chiaroescuros
( apesar de parecer justamente o contrário de uma obra "chiaroscuro"), de fantasias narcisistas e projeções ritualísticas coletivas, típicas de seu tempo e de seu país.
Acho que na sequência do morro Ignez encarna legal o Sganzerla mesmo: alguém que tenta resistir ao transe, alguém que de certa maneira conhece o horror e a necessidade do demoníaco- como forma de conhecimento profundo do mundo e de refiguração de si-, mas já está jogado nele, reivindicado por ele, as cartas já estão dadas, não há como voltar atrás, o Brasil é uma doença, o Cosmo está com câncer, etc: apoteose espetacular do trágico. Mas o artista é médium, é sismógrafo, não é mero oficiante do misto- do mistério-mas é aquele a quem cabe a "palavra" do mito , sua decifração metafórica, o oráculo, a Pitonisa: como uma força ativa, apesar de tudo.

E o "terror e tremor" que ela testemunha- de que seu corpo transparente é testemunha, aquela mulher é mesmo um médium, santo Deus!-, com os olhos entrefechados, na iminência do abismo e na corda bamba do gozo, rodando em torno da câmera que roda em torno dos outros, é isso mesmo, é a aposta de vida e de morte de toda grande obra de arte, aposta de auto-desintegração/loucura ou auto-transfiguração/iluminura.

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