terça-feira, 8 de setembro de 2009

Uma conversa entre Straub e Daney na Microfilms, emissão semanal de rádio onde Daney conversava com algum cineasta. É de 87.

É também absurdamente clarividente, lúcida, profética e precisa.

8 comentários:

André Dias disse...

Repara como a discussão sobre os dois naturalismos repete a confusão de Moullet sobre Deleuze...

bruno andrade disse...

Não só isso; a discussão em torno da declaração do Rohmer - a de que cineasta não é alguém que trabalha com imagens e sim um sujeito que agencia planos (mais ou menos nos mesmos termos que Biette caracterizará o trabalho nove anos mais tarde no Qu'est-ce qu'un cinéaste?) -, apontada por Daney cuja importância Straub vai enfatizar, parece uma resposta direta, e bem pouco positiva, aos "regimes de imagens" do Deleuze. Em vários momentos, e isso não surpreende, o Straub vai deliberadamente contra boa parte do pensamento que se produzia à época, muitas vezes na cola do Deleuze, e inclusive sobre cinemas como o dele. O que surpreende é o Daney detectar que esse trabalho, se estivesse sendo feito naquele momento, para além de Straub e mais alguns, estaria sendo feito justamente por alguns "portugueses loucos" (ele menciona Oliveira, e tenho certeza que pensava também em Reis; mais tarde somaria os nomes de Monteiro e Costa).

O que Straub fala sobre o naturalismo, no mais, é recorrente demais nos dias de hoje e é também o que verificamos nesses exercícios de incompreensão que são obras como as de Assayas, Desplechin, Martel etc.

André Dias disse...

Sempre pensei que o conceito de imagem é profundamente desadequado para pensar (com) o cinema. Mas não creio que estivessem a apontar qualquer coisa ao Deleuze, que de resto não emprega imagem no sentido corrente. O Straub porque não deve ter tido paciência para o ler (pouca dialéctica), o Daney porque o admirava bastante. Mas isso são pormenores escolares sem demasiada importância...

Straub vai definitivamente contra tudo :)
É muito interessante a consideração mútua que lhes permite continuar a conversar mesmo quando claramente empregam termos em sentido diverso. A conversa passa então pela clarificação do que cada um quer dizer, amigavelmente...

Para os menos afortunados, aqui fica:
Serge Daney, "Microfilms": Jean-Marie Straub

bruno andrade disse...

Bem lembrado, eis dois problemas que tenho com Deleuze: o ato de não enunciar as coisas pelos seus sentidos correntes, ato que pode até ter valor estratégico (i.e. Godard, Straub) mas que no que Deleuze escreve parece muitas vezes (i.e. nem sempre) resvalar em puro capricho de exegeta, abstrato e prolixo; e essa desatenção que faz com que muitas vezes não passe pelos tais pormenores escolares (alguns são sem importância, já outros... Enfim, prefiro o Rancière falando de cinema). Mas acredito que no sentido em que falaram, nem tanto pelas menções a Beineix e Besson como pela de Fassbinder, há sim um parentesco não muito vulgar com o que Deleuze produzia à época (não é de se estranhar que Daney acredita que Fassbinder, dentre os cineastas que negociaram com o maneirismo, foi o que o fez de maneira mais lúcida enquanto Straub o escurraça pela mesma razão). Não à toa a voz do Straub sobe alguns decibéis nesses momentos, enquanto a de Daney pondera e respira.

'Brigadão pelo link; não sabia que a entrevista estava circulando no rapidshare (baixei-a via KG). A conversa de Daney com Biette é igualmente muito boa, recomendo.

André Dias disse...

Quanto ao "ato de não enunciar as coisas pelos seus sentidos correntes", creio que se chama simplesmente filosofia, esse exercício de pequenos desvios. E os conceitos em Deleuze têm uma amplitude muito grande, de um plano concreto a um ontológico, coisa que em Rancière não têm, o que os torna talvez mais notórios, quer dizer, menos passíveis de passar desapercebidos, para o bem e para o mal.
Quanto à desatenção que referes, se percebo o que lamentas, creio que ele tem uma atitude extremamente saudável, que aliás tento repetir. A de recusar os supostos temas irrecusáveis, de não passar por onde nos impõem, de não sujeitar a nossa atenção, precisamente, ao incontornável alheio.
Mas ele não precisa que o defenda. E as incompreensões são tantas vezes mais produtivas que as afinidades servis...

Esses momentos de exaltação e de ponderação e respiração que mencionas são os de divergência, mas uma que é assumida dentro de um entendimento, e não força a uma daquelas rupturas precipitadas.

Quanto à entrevista, arranjei-a do mesmo modo. Mas coloquei-a no rapidshare para permitir a alguns outros o seu usufruto neste contexto. Mas a culpa é tua, por teres falado nela ;) Abraço

bruno andrade disse...

Sim, é filosofia. Mas os desvios aqui, digo no Deleuze, têm algo de preocupante, de pouco exemplares (apesar de serem dos mais exemplificados hoje em dia, e não só na academia): desviando-se de certos caminhos comumente impostos (mas quem impõe, e será que ainda o fazem?), supostamente irrecusáveis (mas há quanto tempo, e desde antes de Deleuze até, vêm sendo recusados?), Deleuze acaba por impor outros caminhos, mais e mais irrecusáveis igualmente (basta ver Martel filmando A Mulher Sem Cabeça como se ainda estivesse deslumbrada com o que Deleuze escreveu sobre Antonioni). Até aqui nada de novo; acho que Moullet inclusive menciona algo assim no seu texto. O que me preocupa é a desatenção de que falo; ela surge, ao que me parece, da coincidência perigosa de uma tendência à generalização crassa e descuidada com uma espécie de displicência calculada (imagem-tempo = moderno, imagem-movimento = clássico... Desculpe-me, mas e John Ford aí? Tourneur, e como deslocar coisa de outra em Bresson ou Oliveira?). Se conseguisse conduzir-me a mim mesmo acharia ótimo, mas esses desvios parecem feitos para que no fim do caminho Deleuze me fale como se estivesse a me dar papinhas quando o que quero fazer é fechar a boca e virar o rosto.

É o mesmo problema com conceitos como opacidade e transparência, clássico e moderno: não significam nada, ao menos para mim. Opacidade por opacidade, existem filmes que apagam mais os traços sobre os quais avançam que os últimos Lang, mais abstratos, mais inacessíveis que estes? Mas isso também já é uma velha história, não tão velha porém como alguns querem nos fazer crer (os filmes de Lang, como os de Mizoguchi, não são velhos nem novos, e há muito tempo se sabe como chamar aquilo que nem velho nem novo é). Vejo apenas graus de intensidade, energias diversas e a altura do tom do discurso. Eis porque prefiro ler a paixão de alguns críticos por John Carpenter, mais por esse tipo de coisa que por ver nos seus gestos algo da minha própria paixão.

bruno andrade disse...

Por sinal, essa conversa é curiosa porque estive recentemente relendo trechos dos livros, e lembrei-me agora da sensação que tive ao ler a comparação de Welles a Nietzsche: após algumas linhas muito boas sobre Carné algumas páginas antes, toda uma insistência, um esforço ingrato, a necessidade de provar a todo custo... Não são os tipos de problemas que se têm, por exemplo, com Bergson ou Valéry - para mencionar dois que foram capazes de intuir o tal "devir-cinema".

André Dias disse...

Concordo em espírito com o que dizes, se bem que não totalmente na letra, quer dizer, no detalhe. Não tem importância...

Sobre a imposição, no entanto, vejo-a por toda a parte. A aparente liberdade com que se mexem os realizadores é um equívoco. Crítica, idem. Parafraseando, a tela ou a folha está já preenchida de clichés. Quando alguém a rompe (podemos não concordar quem) isso sente-se sobremaneira...

Quanto à imagem-tempo=moderno, imagem-movimento=clássico, revejo-me nela de forma não ortodoxa. No fundo, trata-se de tentar captar uma ruptura, se e só se a sente em alguns filmes. Se não a sentes, se não te perturba, não tem que ser sua preocupação. Eu sinto-a deveras, e minha pertença ao cinema está intimamente ligada a essa percepção. Ou seja, se gosto do cinema clássico, é porque o cinema moderno me obrigou a amar o cinema todo. E há muitas maneiras de dar conta dessa ruptura, no caso de se a sentir. Para usar um exemplo extremo escolhido a dedo, como posso eu conciliar Eisenstein e Glauber no mesmo espaço de efeitos? O problema deste esquema, a meu ver, não são tanto os autores da transição ou continuidade (que podem ocupar ambos os lados parcialmente, em filmes particulares, ou mesmo em bocados de filmes), mas mais os "modernos" contemporâneos, como Kiarostami ou Hou Hsiao-Hsien, por exemplo.
A imagem da papinha é muito boa, sua recusa idem. Mas Deleuze não gostava nada de comida, preferia a bebida e a anorexia ;)

Já agora, em que é que "graus de intensidade", "energias diversas" e "a altura do tom do discurso" não carecem de explicação e podem ser entendidas em simples sentido corrente? Há sempre um investimento na linguagem porque se tenta exprimir algo que escapa. A minha consideração irá sempre para os que se expõe à crítica por o tentarem...

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