domingo, 27 de dezembro de 2009

Agora com mais tempo, lendo alguns textos recentes e outros nem tanto, e após essas leituras acho que posso afirmar com tranqüilidade que o quê me incomodou profundamente na produção crítica desta década foi alguma coisa semelhante ao que se vê nesses sítios do tipo Twitter e Orkut, alguma coisa da ordem de um toque de recolher intelectual, um aburguesamento da crítica, tão corriqueiro hoje em dia que a ostentação freqüente de signos culturais - mais ou menos sempre os mesmos, aos quais os críticos recorrem para de antemão se prevalecerem intelectualmente sobre os seus leitores - não espanta nem mesmo o leitor mais cauteloso. É esse tipo de prática que faz com que, por exemplo, um filme como I'm Not There constitua o modelo perfeito para uma crítica que não se quer como muito mais que um procedimento de intimidação intelectual, uma crítica que solicita a existência do espectador de hoje em dia, esse espectador "especializado" (isso quer dizer proselitista e pedante), o tempo todo chantageado intelectualmente por um filme (ou por um texto) que dispõe um número exorbitante de alusões, piscadelas e indicações numa espécie de marcha desgovernada e por isso mesmo intimidante; um filme, um texto, por fim um modelo de crítica que nada mais é que um grande exercício cognitivo, mas que no entanto se refere a esse filme e a si mesma, criticamente inclusive, como o exato oposto disso.

Nesse sentido, é absolutamente sintomático ver alguns "especialistas" já apressando uma tabula rasa da produção cinematográfica desta década ao adiantarem as listas de melhores filmes da década um ano antes do fim da mesma. Seria essa pressa em passar a régua o sinal de uma má consciência generalizada? Mesmo isso seria esperar demais de gente tão arrogante...

É a crítica à moda do proselitismo generalizado dos dias de hoje, crítica como exercício arrogante de tradução da mensagem criptografada de uma temática obscura, inacessível à maioria e destinada preferencialmente a uma espécie de elite intelectual, na qual o crítico exerce essa função de orixá, de iluminado, vidente ou privilegiado, único e onisciente na medida em que se reporta aos seus conhecimentos (que, mais do que dividir, ele detém) somente para propor aquilo que ninguém mais viu, que ninguém mais pôde ver, que de todos escapou - incapaz de imaginar que quem o lê talvez tenha visto mais, e mais a fundo, do que ele, de sequer supor a possibilidade de que um leitor é também um espectador e que talvez este espectador seja capaz de eventualmente prospectar algum aspecto da obra que escapou à sua percepção ou de simplesmente ter uma experiência mais fecunda com essa obra, incapaz também de se dar conta que a crítica serve, ou deveria servir, também para auxiliar a prospecção e fruição da obra, contrariamente a esse exercício de intimidação e desestimulação intelectual que parece compor, cada vez mais, o quadro da crítica cinematográfica contemporânea.

A crítica mais estimulante que se produziu até hoje sempre esteve em comum acordo quanto a essa espécie de mínimo denominador comum da cortesia intelectual que decorre tanto da inteligência quanto da generosidade do crítico. Cada vez mais a produção de hoje se distancia disso.

15 comentários:

Anônimo disse...

Un signo evidente de lo que comentas, precisamente a cuento de "I'm Not There", es lo poco (si alguna vez) que se citó "Renaldo and Clara", el personalísimo, sin duda confuso pero no hecho ni para el espectador ni para la crítica, brutalmente "en bruto", que dirigió el propio Bob Dylan, y del que sale mucha de la información y algunas de las ideas con algún interés del film de Todd Haynes. Y eso que no era un film desconocido por completo (entre los que no lo citaron, estaban algunos de los que han santificado y mitificado a Serge Daney desde su muerte; lo que es revelador, ya que fue precisamente Daney, y si no recuerdo mal Skorecki, el único que habló bien y varias veces de "R. and C."). Otro hecho sintomático es que Haynes, tras las excelentes "Safe" y "Velvet Goldmine", accede a "primera división" (premios, expectativas críticas) justamente tras su reciclaje simplificador y subrayón, manierista y pretendidamente "aggiornato" al gusto de lo hoy "políticamente correcto" (lo que nunca era Sirk) y su publicitado "caleidoscopio" sobre Dylan.
Miguel Marías

Anônimo disse...

eu concordo com o primeiro paragrafo e 3o paragrago, cara, mas nada a ver isso de listas no "final da decada"..

voce mesmo postou varias listas aqui (e ja li outras, tipo biette/skorecki anos 70) que funciona no 0 a 9, e nao no 1 a 10. enfim, o problema nao sao as listas sendo feitas na hora errada, mas PORQUE elas sao feitas... geralmente é só chantagismo cultural mesmo.

Anônimo disse...

e chantagismo cultural mesmo, parece uma "prestação de contas" ou coisa assim, tem um tom irritante natural essas listas incrível..

bruno andrade disse...

Se lhe pareceu isso, o equívoco foi meu. Não quis estabelecer essa questão das listas como uma regra. É uma coisa bastante contextual (coisa que aliás essas listas no geral são), bastante local, e tem a ver sobretudo com um dado específico: a rapidez e a profusão com que essas listas surgiram nos últimos dias, nada menos que impressionante (não estamos nem em 2010 ainda, e é lista para todos os cantos). Há listas curiosas, bem interessantes, geralmente aquelas em que a subjetividade foi trazida para o primeiro plano, mas no geral o que incomoda é precisamente esse aspecto de "prestação de contas" que você menciona somado ao intento absurdo de uma percepção global e com poucas lacunas.

Sérgio Alpendre disse...

queria saber quem é o anônimo aí de cima, senão fica com cara de clube fechado isto aqui. Bruno, essa é minha crise desde que eu comecei a escrever sobre cinema. E vc conseguiu resumir em boas palavras. E sobre esse negócio das listas vc sabe o que eu penso, né. Me divirto com elas e com quem as leva a sério.

bruno andrade disse...

Acho que pegamos uma época de poucas glórias, tanto na crítica de cinema quanto no cinema. Hoje em dia há mediação demais, é difícil ter o tête-à-tête que em outros tempos Inácio, Jairo, Sganzerla podiam ter com os filmes por aqui, que na França os cinéfilos mais empenhados puderam ter com os filmes descobertos na Cinemateca ou nos cinemas de bairro - hoje há televisão, publicidade, internet, universidade (esta talvez seja a pior de todas, a que mais faz e traz estragos)... Durante uma certa época o VHS possibilitou uma prospecção, um certo aguçamento do gosto e dos sentidos, que podia também ser uma coisa extremamente desorientadora (você podia calhar de ver muito filme ruim da América Vídeo e da F.J. Lucas antes de vir a descobrir alguma coisa especial), mas com um detalhe: o circuito nessa época não era essa coisa suicida de hoje, o que fazia com que essas atividades em videolocadoras fossem complementares e não, como é hoje com os fóruns de torrents e quetais, alguma coisa de essencial para a sobrevivência de um gosto pelo cinema (e não falo isso somente porque eles possibilitam um contato com as raridades antigas, falo também por auxiliarem no acesso às raridades atuais).

Há também essas crias de Michel Maffezoli, que deviam poluir os cursos de moda e publicidade ao invés de desgraçar a compreensão do cinema, com essa porra de culto à contemporaneidade e à linguagem mais afetada e menos adequada possível à expressão de uma experiência com o cinema (que, curto e grosso, é o que crítico de cinema faz).

Eu também levo a sério (mas com cuidado, e não muito) esse negócio de listas - e é por isso que não levo várias listas a sério, sobretudo as que já se levam. Quando a hierarquização toma o passo da subjetivização na composição de uma lista pessoal, a merda está feita. Depois quando vem o pessoal da turminha "a crítica é um exercício subjetivo e só" atrapalhar os dados, a seriedade com que essas listas são compostas só os auxilia.

Leo Cunha disse...

Legal o texto, Bruno.
Sobre as listas, eu confesso que gosto de acompanhar. Não me interesso por nenhuma lista isoladamente, mas acho muito revelador o exercício cotejar as diversas listas e perceber tendências, modas, modismos, etc.

bruno andrade disse...

Também acho revelador o exercício de composição de listas na medida em que revela justamente os problemas dessas tendências, modas, modismos etc.

Anônimo disse...

En buena parte, diría que estoy casi de acuerdo, pero... El problema de las generalizaciones (o de los juicios universales) es que todas son falsas (incluso esta). La crítica de la crítica sólo vale si se incluye uno mismo en lo criticado (todos hemos caído alguna, varias, muchas veces, en algo de lo que criticamos). El resultado puede ser más paralizante que regenerador, o conducir a la asepsia precavida del consenso, de la "corrección política" o de la falsa objetividad. Como se dice en España, "de la sartén al fuego". Así que yo me andaría con cuidado, mientras piense que la crítica no sólo sirve para algo, sino que es necesaria (incluso para el cine, para los espectadores y para los cineastas), a menos que nos ciñamos a objetivos muy concretos. Lo mismo con las listas. Una pensada, trabajada, sincera, es interesante (si te interesa su autor o te descubre películas), si no, nada de nada.
Miguel Marías

bruno andrade disse...

A sua reação me parece sensata e honesta, Miguel, e é sobretudo disso que tento falar no post: sensatez e honestidade.

A idéia de um post de blog está justamente na abertura de um tipo de diálogo, num prolongamento das premissas dadas no post inicial (que pode ou não passar por todos os tipos de questionamentos e transformações), que até agora (ainda bem) foi possível de se ter com todos que comentaram por aqui. Parece bobo afirmar isso, mas mesmo assim parece-me necessário pois ao que me parece 99% dos blogueiros (e dos twitteiros) aderem a esse sistema que possibilita os comentários dos leitores somente para serem endossados por estes, e nada mais. Proselitismo intelectual, mais uma vez.

bruno andrade disse...

Até onde eu sei esse ataque atingiu algumas pessoas que eu nem imaginava que se sentiriam atingidas, muitos menos ofendidas, por esses juízos. Suas reações no geral apenas confirmaram a suspeita que animou originalmente a postagem: a de que todo um repertório cultural comum a esse grupo de pessoas apenas reveste o que no fim das contas é pouco mais que vaidade intelectual, que por sua vez se converte em charlatanismo crítico. E ao contrário do que alguns comentadores locais acreditaram, isso me parece muito mais um fenômeno internacional - especificamente francês e norte-americano (e para ser ainda mais específico, parisiense no caso da França) - que propriamente brasileiro (embora tenhamos diversos exemplos de acomodamento intelectual numa crítica que parece cada vez mais satisfeita com o que produz, o que é basicamente o exato oposto de uma postura crítica, e cada vez mais corporativista, oportunista e omissa das causas importantes, o que certamente apenas piora a possibilidade de mudanças).

A maneira de afrontar esse desgaste, não me pareceu necessário mencioná-la no post, mas ei-la: localizar os méritos e deméritos, encontrá-los e expô-los pelo que são. Chamar a atenção para o que de bom se produz e se produziu (e hoje em dia isso precisa ser feito urgentemente, não só com os filmes mas com a crítica também) é uma parte importante; a outra é dar nomes aos bois quando se trata de uma produção francamente insatisfatória, hoje em dia sustentada por toda uma estrutura de pensamento utilizada para sancionar gostos momentâneos e preferências locais (retrocesso da crítica em cinefilia adolescente, o que muitos por sinal desejam - sobretudo em Paris, vide Inrockuptibles e quetais, revistas de bairro e direcionadas a um público burguês e sectarista ao extremo). O próprio formato de postagem em blog, sua rapidez (que não auxilia muito procedimentos mais reflexivos e críticos), possibilita muito essa confusão adolescente; sei disso bem, porque em vários momentos deixei com que idéias fáceis tomassem a dianteira de algumas postagens.

bruno andrade disse...

Produzir algo que escape desse desgaste seria ainda outra parte, e sem sombra de dúvida a mais importante; e aí, sem dúvida, o resultado pode ser tanto paralisante quanto regenerador, porém tanto um como o outro parecem igualmente insatisfatórios no presente momento. Essa reversão da crítica em mero exercício de gosto (cada vez mais freqüente) tomando o passo da reflexão a partir da qual a experiência que se tem com o filme se consolida numa forma - que podemos chamar de gosto tanto quanto de visão e predileção - exige, e eu sei que isso é uma visão pessoal, mais que apenas uma reforma. É o limite de um impasse muito mais vasto, cujo debate vai muito além da crítica de cinema ou só do cinema, e que hoje em dia, na crítica de cinema, vejo incorporado aos textos de Maxime Renaudin, Pierre Léon, Frédéric Majour, da Pascale Bodet, do Serge Bozon, do Luís Miguel Oliveira e do Jean-Sébastien Chauvin também (outros, como Christophe Fouchet ou Jesús Cortes, escapam praticamente ilesos dessa confusão).

No mais, quando falei que "a produção de hoje se distancia disso" (no caso, do "mínimo denominador comum da cortesia intelectual"), já estava incluindo a mim mesmo nessa produção (mesmo que esporadicamente, escrevo sobre cinema, e tudo o que descrevi são coisas que me atormentam diariamente).

Anônimo disse...

Creo, Bruno, que el peligro mayor de internet (blogs o lo que sea, no conozco nada de twitters u orkuts) es su aceleración, más amiga del impulso que de la reflexión, y que un nuevo post hace abandonar un debate más importante o interesante (llega "Avatar" y el "estado del cine" o de la crítica se olvida), que entiendo imprescindible para el ejercicio de la crítica: el gusto o el disgusto son reacciones instantáneas, medir cuánto y averiguar por qué lleva un cierto tiempo, y a menudo requeriría una visión más. Por otra parte, eso que se pinta lo mismo como una "democratización" que como una "invasión de los bárbaros", tiene, a mi entender, la ventaja de encontrar a muchos críticos (amateurs o aficionados, que prefiero a los "profesionales") desconocidos, que hay que juzgar por lo que dicen y cómo lo dicen, sin el peso del medio en el que escriben, es decir, como las películas que no vienen precedidas del "reconocimiento" general del cineasta o de premios o grandes resultados de taquilla. Ignoro los casos brasileiros a los que te puedes referir, pero el fenómeno es sin duda instantáneo y universal, pues todos los síntomas que describes los puedo reconocer en lo que leo, cualquiera que sea su procedencia, en España o fuera, aunque más bien en prensa escrita (que tiene que vender y acepta publicidad de las películas que se estrenan) que en internet, en conjunto más interesante, al menos para mí, hace unos años. Hay blogs que leo enteros según cuelgan cosas, mientras que apenas resisto ya la mayoría de las revistas impresas que aún intento leer, con bastante poco provecho y notable aburrimiento: o dicen pretenciosamente algo obvio, pocas veces original, o que ya sé, o dicen cosas arbitrarias y sin fundamento (y sin embargo previsibles, paralelas a o tributarias de otras). Creo acertado señalar, lo mismo que películas "oscuras" que conviene ver, críticos que parece interesante tener en cuenta.
Miguel Marías

Marlon disse...

sou eu nos comentários acima, Sérgio.

Sérgio Alpendre disse...

valeu, Marlon.

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