quarta-feira, 19 de maio de 2010

(...) O freqüentador mais assíduo de Marie-Louise era um de meus colegas; Menard era filho do dono de uma loja de ferragens da cidade. Havia-se engajado no regimento local para não ficar longe da família durante o serviço militar. Dividia as noites entre os pais, com quem jantava várias vezes por semana, e Marie-Louise, que visitava nos outros dias. Nós éramos suboficiais no mesmo esquadrão e tínhamos freqüentemente oportunidade de estarmos juntos, principalmente no cassino de oficiais, onde não deixávamos de fazer um sacrifício ao rito sagrado do aperitivo.

Um dia, não pude esconder dele minha desaprovação pela maneira como ele havia tratado Marie-Louise na noite da véspera, exigindo de parte dela as complacências mais ignóbeis, e isso na frente de vários suboficiais, entre os quais seu servidor. Menard ficou estupefato com minha observação: “Ela é puta, respondeu-me, está fazendo o seu trabalho.

Insistiu no fato de que ela fazia aquilo sem idéia preconcebida e que seria a primeira a se espantar com minha atitude incompreensível. “A gente pode satisfazer certas necessidades com uma mulher da vida, observei, mas sem humilhá-la.” – “Ela não se sente humilhada, retorquiu Menard, pela simples razão de que ser humilhada faz parte dos deveres da profissão dela”.

Lançou-se numa grande explicação, comparando as casas de prostituição àquelas barracas de parque de diversões, onde se pode quebrar toda a louça que se quiser pelo preço de um bilhete. “O homem direito, que durante a vida inteira tem que prestar atenção para não lascar os pratos de medo de uma cena com a senhora sua esposa, encontra nesse massacre a revanche de seus receios acumulados. É a válvula de segurança. Sem ela, ele ficaria louco, ou mataria a mulher.

Para nós, é a mesma coisa. O ajudante nos trata igual a lama e trememos com o mínimo franzir de sobrolhos do chefe do esquadrão. É humilhante passar o tempo todo de olho na aprovação de um cavalheiro que tem o direito de arruinar nossa vida porque tem uns galões a mais que nós.

No bordel, encontramos nossa revanche. Humilhamos por nossa vez. Novamente, a válvula de segurança!
” Esse raciocínio não deixava de ter valor. A continuação já era mais sujeita a caução. “Você entende, continuava Menard, há duas espécies de mulheres, as moças honestas e as putas.

As primeiras, você casa com elas, elas te dão filhos, tomam conta da casa. São mais que nossas companheiras. São nossas sócias. O campo delas é a família. As alegrias da carne são o campo das especialistas em galanteria. Só estas conhecem realmente a questão porque passam a vida a estudá-la. Em nossa época, somos especialistas e, numa sociedade bem organizada, não se deve misturar alhos com bugalhos.


Jean Renoir, Arte ou Indústria?, Screen Producers Guild Journal, 23 de dezembro de 1963; Positif n° 173, setembro de 1975

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