sexta-feira, 21 de maio de 2010

São obras que marcam uma certa indiferença do tempo à passagem dos fatos – indiferença, logo, à idéia de mudança, de transformação. Obras que pensam estar na vanguarda, quando na verdade um thriller barato do Larry Cohen nos anos oitenta feito com roteiro ruim e atores desconhecidos estava muito mais próximo de dar prosseguimento aos experimentos de Warhol do que um filme, vídeo experimental, cine-diário, vídeo-instalação ou seja lá o que for que se locuplete com imagens de faróis de motos na estrada, formigas andando no quintal da casa da vovó, nuvens refletidas na poça d'água, bolas de sabão gravadas com uma câmera de celular etc.

2 comentários:

Anônimo disse...

texto muito bom. identifico esses diagnósticos dados e percebo o perigo que há. mas ao mesmo tempo tem uma coisa que me incomoda: os exemplos de vídeo experimental, cine-diário etc. são extremamente bobos. bolas de sabão? o conteúdo foi colocado no nível do ridículo em prol de uma tese. acho importante afirmar larry cohen e seus filmes baratos como lugar de resistência do plano, do cinema, mas acho bitolante ter que logo depois ridicularizar o que pode ser tb um lugar de criação, como o exemplo do brown bunny.
ricardo pretti

bruno andrade disse...

Acho que se trata menos do conteúdo ser colocado no nível do ridículo que um certo nível de ridículo ser detectado num conteúdo. Se o texto do Jr. peca por alguma coisa, seria menos por discernir esse grau de exagero e exacerbação nos usos destes procedimentos, quase protocolares hoje em dia, do "filme-vídeo-instalação-diário-ensaio-para-circular-festivais" (lamento ter que recorrer a um estereótipo tão grosseiro, mas é que muitos destes trabalhos se reduzem grosseiramente a estereótipos lamentáveis) que por não determinar, restringir ou nomear os maus usos destes procedimentos. E, estritamente falando em termos de estratégia crítica, não me parece que Jr. chega a cometer pecado algum: o ponto de partida é mesmo a condenação de um certo aparato, e para isso identifica-se no filme do Gallo a nítida concretização de uma criação bem sucedida. O texto não me parece "bitolante" na medida que ao filme do Gallo poderiam substituir ou seguir alguns trabalhos da Claire Denis, do Garrel, do Rousseau, um filme do Luc Moullet como Os Naufragos da D17 ou trabalhos como os do Nolot em Avant que j'oublie e do Vecchiali em Bareback - filmes que igualmente vão fundo "nos desdobramentos de seu(s) movimento(s) cíclico(s) de estagnação no presente" ou que também estão "intensa e imediatamente requisitado por experiências concretas" ao mesmo tempo que "desconectado(s) de tudo, da sociedade, das pessoas". Mas me parece muito mais importante, muito mais necessário e eficaz para um texto crítico a identificação de procedimentos a se criticar, para o bem e para o mal, que a menção a um grupo, seleto ou não, de títulos. Como leitor, posso escolher quais filmes adequar ao que Jr. descreveu - sou mais livre, menos cúmplice e portanto mais intelectualmente implicado e solicitado pelo texto. Que é o quê importa, enfim...

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