segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ok, agora falando sério.

O personagem se fode, o mundo é "cruel" e, no caso, o autor ainda quer afirmar que a miséria e a dor não são deterministas pois esses personagens têm uma potência auto-determinante, ainda por cima "poética"?

Façamos a pergunta de outra forma: há algo no cinema de hoje mais francamente oposto, na contramão direta do cinema do Pedro Costa que O Céu de Suely?

Quero que me expliquem como esse papo de "potência do personagem" não é expediente para eximir o realizador de uma má-consciência burguesa.

O que não seria nada, ou muito pouco, se o Ainouz não fosse tão absolutamente incapaz de dramatizar e encenar devidamente os seus recalques. Há um mundo de diferença separando esse protótipo de cinema acomodado em um olhar supostamente "generoso" (na realidade complacente e até mesmo auto-complacente) dos verdadeiros grandes filmes, generosos ou não, do cinema (Terra Sem Pão, De bruit et de fureur, Rio das Mortes, Millennium Mambo, Sem Essa Aranha, Run of the Arrow, Vício Frenético '92, Au hasard Balthazar, O Franco Atirador, Contos da Lua Vaga, Stromboli etc. etc. etc.).

4 comentários:

Anônimo disse...

É reconciliador

A personagem de Hermila "passa pelo mundo". Não tem vínculos com as coisas e as pessoas, ela está de passagem. Talvez possam dizer que sou reacionário, mas nessa fragilidade (nessa liquidez) de vínculos e raízes (e responsabilidades) o Céu de Suely é reconcilizador: descola Hermila de seu mundo e a joga para além dele. É falso e nem novela ruim das oito ignora o peso e o preço da "liberdade" de seus personagens.

É o anti-Falsa Loura.

Não por acaso vemos Hermila sumir em um ónibus na estrada, indo embora daquele infernozinho.

O ultimo plano de Falsa Loura é frontal. Silmara de cabeça erguida voltando para a fábrica em que trabalha, mas com o mundo desabando, porque este mesmo mundo investe contra ela cruelmente. Ela faz parte deste mundo e resiste, mesmo sabendo dar murro em ponta de faca. há uma transição do rosto dela com a cidade. Enfim, filme (verdadeiro) de gente grande.

Francis

bruno andrade disse...

Por sinal, valeu pela mão.

valeska disse...

tvz o diretor quisesse mostrar a personagem indo atrás de uma felicidade impossível: "aqui começa a saudade de Iguatu". algo aconteceu que isso não ficou claro. o sorriso dela ao fim fala mais que a placa fixa na estrada por quase 1 minuto.
hermila afeta todo mundo, mas não é afetada. impossível. só se ela fosse um sonho das pessoas. e se é sonho de toda aquela gente de iguatu, sonho não sente saudade. é um filme manco.
um filme de quem admira a ousadia a qq preço.

bruno andrade disse...

O Céu de Suely parece-me na realidade o antídoto perfeito para quem admira qualquer gesto de ousadia estética (não à toa mencionei Costa e Buñuel, Fassbinder Brisseau, Cimino, Fuller e outros cineastas realmente ousados).

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