sábado, 24 de julho de 2010

Após tantas estréias mornas, oportunidades perdidas e puro e simples descaso dos distribuidores (sem esquecer, para não dizer que não falei da crítica, das exaltações precipitadas e das defesas desmerecidas), finalmente um dos grandes filmes da década é exibido comercialmente no Brasil, e praticamente não se escreveu nada a seu respeito.

Uma dica: não estou falando do Death Proof.

Mais um parabéns para os jovens críticos, cultores sem critérios da contemporaneidade que não cessam de ser ultrapassados por ela.

8 comentários:

Anônimo disse...

Vincere?

Reinaldo Z. disse...

Vincere? Se for, concordo.

bruno andrade disse...

Não, não estava falando de Vencer, apesar de ser um grande filme que provavelmente será vítima de uma compreensão equivocada: os críticos fatalmente chamarão a atenção para a primeira parte do filme, mais grandiosa e espetacular, também mais frágil e sem dúvida mais contestável do ponto de vista da representação histórica que Bellocchio visa problematizar, ao passo que qualquer indivíduo minimamente sensível aos problemas de construção da forma cinematográfica percebe que essa primeira parte existe para que o motor da história tussa, para que Bellocchio consiga dar partida ao seu filme na segunda parte. Como se houvessem dois filmes ali: o filme encomendado pelos produtores italianos sedentos por espetáculos que trarão os espectadores de volta às salas e o drama que Bellocchio injeta violentamente no meio desse filme, um choque de patologias como ele já filmou antes em De Punhos Fechados, Salto nel vuoto, Nel nome del padre; aquela mesma capacidade de observação meticulosa de ambientes opressores - salas de estar, cozinhas, halls de hospital, o gigantismo da arquitetura italiana, as estruturas opressivas - que estimulam a revolta, a cólera e a tristeza dos seus personagens, o velho conflito intimidade-indivíduo X família-estado. Mas imagino que a crítica fará com o filme o que fez no passado com Snake Eyes do De Palma ou com New Rose Hotel do Ferrara: "início prodigioso, depois o filme perde sua força etc.", as besteiras de sempre. Já fizeram, de qualquer forma, comparações esdrúxulas e apressadas ao filme do Eastwood, A Troca, esquecendo de levar em consideração que no filme do Bellocchio, diferentemente do que pressentimos no enigma que envolve a personagem de Angelina Jolie, o pouco de suspense que há baseia-se exclusivamente naquilo que conhecemos da situação e do comportamento da personagem da Ida Dalser, e que no Eastwood não há nenhum componente firmemente sexual, algo de suma importância no(s) filme(s) do Bellocchio (as semelhanças entre os filmes, que existem aliás, são bem menos vulgares).

Bem ou mal, falarão do Bellocchio por se tratar de um inevitável: filme exibido em Cannes e paparicado pelo Cahiers (vai ser engraçado ver as mudanças de gosto de quem torceu o nariz para o filme quando foi exibido nos festivais do ano passado, antes de colecionar elogios da crítica francesa e internacional), cineasta renomado, realizador de outros filmes importantes nesta década etc. Não não: o filme a que me referia, é o Bright Star da Jane Campion, um dos segredos mais encantadores e bem guardados dos últimos anos.

Luis disse...

Oi, Bruno,

Bright Star surpreendeu-me, a mim que nunca gostei muito da Campion (detesto Sweetie, detesto O Piano, e já nem me lembro como se chamam os outros). Tem uma delicadeza (não só nas personagens, também na relação com a poesia e com a pintura inglesa) que parece sempre ameaçada de se tornar "postiça" e a proeza é que nunca se torna (pelo contrário).

Mas por instantes (umas fracções de segundo apenas, claro), temi que estivesses a falar de Inception, do inefável Nolan. Vi ontem, é insuportável, mas por aqui anda tudo a gritar "obra prima"

bruno andrade disse...

Adoraria ver a Campion adaptando Wuthering Heights - não o da Emily Brontë, mas o da Kate Bush.

Jesús Cortés disse...

Habrá que echarle un vistazo y mira que me gustaron poco casi todas las anteriores.
Ya que mencionas a Kate Bush, ¡qué desperdicio para el cine no haber tentado a Tori Amos!

bruno andrade disse...

http://www.youtube.com/watch?v=HPqslmNknoQ
http://www.youtube.com/watch?v=QV25-V1cYN4

Anônimo disse...

Pois é. Bright Star é formidável.

Francis

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