quinta-feira, 12 de agosto de 2010





« Deus nos deu o mundo para que o analisássemos e o dissecássemos? É o que faz o homem moderno. A exploração do cientista se limita ao corpo e aos elementos que o cercam. A exploração do artista visa ao conhecimento da alma.

Se o artista guardasse os resultados de suas descobertas para si mesmo, não seria tão mau assim. Mas não, ele precisa divulgá-los.

Conhecemos os resultados da divulgação do conhecimento da matéria pelos cientistas. Ela nos valeu a bomba atômica.

A divulgação do conhecimento do homem pelos artistas é mais temível do que a fissão nuclear. Trata-se de um pecado que só é perdoável se o pecador é um homem de gênio. Esse é o pecado de Dreyer. Deus o perdoa, porque Ele próprio concedeu o talento que devia lhe permitir tanta percepção.

Há o espírito e há a matéria. Há o bom Deus e há o diabo. Uma pedra é apenas matéria? Até que ponto os elementos que nos cercam começam a ter a consciência de si mesmos, de seu universo pequeno ou grande? Existe uma hierarquia? Vamos encontrar no topo da escada espíritos puros ou pelo menos um espírito puro? Na base da escada devemos nos contentar com as reações da pedra? Existe algum meio de proporcionar espírito à pedra? Alguns seres privilegiados o conseguiram. A Idade Média mística os chamava de santos. Nós os chamamos de artistas. Sua função, aqui, é a de aumentar entre nós a participação do espírito, ao mesmo tempo em que se preserva a pureza da pedra.

Estranhamente, pela ironia que parece agradar às forças que nos fazem passar do caos à música de Mozart, esses dispensadores do espírito se apóiam em sua luta contra a matéria na própria matéria. Não são numerosos, surgem apenas uns poucos a cada século. Dreyer é um desses e, como todo grande artista, apresenta-nos o problema da submissão à natureza ao mesmo tempo que o da evasão da referida natureza. Ele nos apresenta o problema e o resolve. Ou melhor, fornece-nos os argumentos e as armas que nos permitem resolvê-lo. »

Jean Renoir, O Pecado de Dreyer, Carl Th. Dreyer, Copenhague, Ministério Real das Relações Exteriores, dezembro de 1968. Republicado em Escritos Sobre Cinema, Pierre Belfond, 1974

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