segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Onde os Fracos Não Têm Vez é o filme mais repugnante da história.

13 comentários:

Felipe disse...

Pau a pau com Super Xuxa contra Baixo Astral?

bruno andrade disse...

Conseguiu bater Reis e Rainha e as comédias do Rob Schneider.

Anônimo disse...

por quê?

Calac disse...

o filme é a representação perfeita da "corrupção" de um determinado imaginário de gêneros cinematográficos para se obter respeitabilidade artística. isso porque, justamente, é um filme que parte do imaginário, não da matéria do gênero. na realidade, os irmãos coen não se importam com nada: não se importam com o gênero, com os personagens, com um mero ponto-de-vista que seja. são cineastas de grife, e isso explica tudo.

eu nem entendo muito bem o sucesso que o filme fez, porque ele me parece tão esquizofrênico...

bruno andrade disse...

Se por "esquizofrênico" você quis dizer "informe", concordamos em 100%.

Não é a primeira vez que a crítica cai no conto do vigário que é a carreira dos Coen - a mesma coisa aconteceu em 90 e 91, com Miller's Crossing e Barton Fink. Para se ter uma exata noção de como esses caras foram glorificados, basta ler o texto que o Iannis Katsahnias escreveu sobre Miller's Crossing para o Cahiers - um delírio estapafúrdio, apesar de se tratar provavelmente do melhor filme dos Coen, o único que talvez seja de fato "bom" - ainda assim, um pobre filme de roteirista, laboriosamente filmado nas cenas mais "prodigiosas" (não há um pingo de inspiração nas seqüências mais célebres, como a emboscada noturna que termina com o Finney metralhando um carro ou Turturro suplicando pela sua vida no meio da floresta).

Como cineastas, os Coen são ótimos publicitários de seus roteiros.

Eu nem vou entrar na parte moral da coisa porque esse filme realmente me embrulhou o estômago.

The Neto Berola's experience disse...

Calac:

Não vejo problema em partir do imaginário ao invés do gênero. Existem formas melhores do que outras? Por quê? Qual o critério?

Dizer, a partir do filme, que os Coen não se importam com nada é cinismo. Algumas características saltam aos olhos. Há um estranhamento que percorre a decupagem, o distanciamento do protagonista, o fechamento da trama e é coroado pelo personagem do Javier Barden. Esses pontos são bem evidentes e articulam um discurso sobre sobre a falta de identificação, a ausência, o mal absoluto. Se você não gosta desse discurso [ou de sua forma] é outra história, mas eles formam uma preocupação e uma maneira de ordernar a imagem e o som. Não se trata de emular uma aparência de filme de arte.

Bruno:

Ok, você não gosta deles como encenadores. Quais teus critérios para essa avaliação? E não venha com essa de não se dar ao trabalho de explicar a parte moral. Não tem nada de óbvio. A relação entre arte e moral não é simples. É a moral em relação à forma artística [repetindo, existe, a priori, forma melhor que a outra? E a arte deve ser moral?], ou em relação à sociedade [deve a arte se submeter à valores éticos, políticos ou históricos? Por quê?]. Explique. Desça do pedestal um pouquinho.

bruno andrade disse...

Deixar uma coisa clara: não costumo publicar comentários assinados por pseudônimos e anônimos. Mas esse demonstra tão bem a confusão mental dos nossos tempos que me vi na obrigação.

Primeiramente, suas questões parecem fricotes de acadêmico: quer transformar em categorias coisas que são condições.

Toda arte É moral, toda arte É social - e política, e histórica, e tudo o que se tem direito. Um fetiche africano que serviu para transportar sangue humano em cerimônias religiosas não é mais ou menos amoral que o filme dos Coen - daí esse objeto não ser necessariamente mais monstruoso que o filme dos irmãos.

"Existe forma melhor que outra?" parece-me o mesmo que perguntar "Existem filmes melhores que outros?" O que, aliás, não depende de "a priori" algum - e eu não faço idéia do que você leu nesses comentários para imaginar que esse "a priori" passou pela minha cabeça ou pela do Calac.

Sobre eu não me dar ao trabalho de explicar a "parte moral" (?), faça-se um favor: releia o que escrevi. Escrevi que não queria entrar no mérito da coisa porque o filme me ofendeu profundamente, embrulhou-me realmente o estômago. Nada de "óbvio" nisto, muito pelo contrário, a não ser que aches "óbvio" que arte - boa ou ruim, moral ou amoral - chegue a causar efeitos físicos nas pessoas.

bruno andrade disse...

Metendo-me agora na parte do Calac:

"gênero" não é "forma". Calac fala em "matéria" e não em "forma", e isso - uma matéria-prima - é algo comum a todos os gêneros. O que os Coen fazem, e que é sim perfeitamente contestável, é tomar um gênero por uma modalidade cultural bastante flexível, consumada por um conhecimento (o deles) superficial e abstrato - o que conduz diretamente ao tom de superioridade zombeteira ou auto-importância solene nas incursões dos Coen pelo film noir, pelo screwball comedy e pelo western nesse filme, assim como à inexistência de qualquer tipo de investimento nas tradições, nas raízes que formaram esses gêneros. Os irmãos Coen, nem um pouco generosos, secam as suas fontes, não prolongam os gêneros com os quais trabalham, preocupados que estão em "contestar" (a la Altman) esses gêneros ou levá-los a uma suposta idade adulta. Mas você não está de todo errado, no fim das contas: essa confusão entre "gênero" e "forma" é feita igualmente pelos Coen - eis o porquê da forma engessada de seus filmes de gênero.

A respeito das tais características que saltam aos olhos: desculpe-me, mas filmar os atores com grande angular no meio de cenários vastos, em plano médio ou geral, com ângulos levemente inclinados para conferir um sentido de importância à imagem é uma coisa que não me impressiona desde pelo menos Terry Gilliam (a técnica dos irmãos é bem menos grosseira que a do ex-Monty Python, mas a chantagem estética é a mesma). Do ponto de vista da montagem, se é isso que você quis dizer com "estranhamento que percorre a decupagem", eu diria que o que eles fazem, sobretudo na primeira parte com o Josh Brolin, não é muito diferente - nem muito mais complexo - que um comercial do MacDonald's. Tem gente que se impressiona em ver uma propaganda do MacDonald's bem feita, isto quer dizer iluminada pelo Roger Deakins e montada com um pouco mais de esmero, mas daí a falar de um "estranhamento que percorre a decupagem" é como comparar clip do Van Halen a Orson Welles. O fato desses pontos serem bem evidentes não favorece o caso dos irmãos, pelo contrário: Fritz Lang filmou o mal absoluto muitíssimo melhor que os dois, e era todo mistérios (inclusive nos pontos que articulavam o seu discurso sobre o mal e o absoluto).

A julgar pelo seu pseudônimo, deves ser fã de Radiohead, então não posso dizer que lhe desejo uma boa noite.

Calac disse...

"Há um estranhamento que percorre a decupagem, o distanciamento do protagonista, o fechamento da trama e é coroado pelo personagem do Javier Barden. Esses pontos são bem evidentes e articulam um discurso sobre sobre a falta de identificação, a ausência, o mal absoluto."

Cara, eu acho que o seu próprio comentário já dá conta do contorcionismo que é o filme (daí eu dizer que é "esquizofrênico", ou "informe", como disse o bruno). o filme precisa contornar três personagens diferentes (ainda tem o xerife) pra te passar uma idéia, uma mensagem sobre o que ele é.

é óbvio que os coen decupam o filme - talvez até demais, afetadamente, e é por isso que não dá pra deixar de concordar que são cineastas completamente "frívolos", como diz o bruno. fazer um filme não é só "ordenar o som e a imagem". falta um interesse genuíno pelas imagens, pela força expressiva delas em si, de buscar o peso e a medida de cada uma delas (que é o que faz um bom filme, especialmente o de gênero). os coen, ao contrário, trabalham numa lógica absoluta de descartabilidade. são cineastas que lidam mal com a história do cinema, e o problema é que eles não fazem outra coisa senão justamente lidar com ela.

Bury disse...

"Na realidade, os irmãos Coen não se importam com nada".

Acho que até mesmo quem é fã dos caras deve aceitar isso, sem se grilar, pois é a pura realidade. Aliás, se gosta do cinema dos dois, é exatamente porque compra e se deslumbra com essa característica, a de que eles não se importam com porra nenhuma.

Neto Berola disse...

De acordo, Calac. Como eu disse, você pode não gostar do que o filme propõe e de como ele propõe, mas isso é diferente de acusá-los de falsificação, de não se importar com nada, de fazer apenas um filme para festival. Não me parece o caso. Não vim defender o filme [que não acho nada demais, mas também não acho passível de nojo], estava interessado nas argumentações, já que vocês foram tão taxativos.

Bruno, desculpe-me, mas ou você não entendeu, ou está escapando da questão. Sentir-se ofendido ou com nojo por alguma questão moral é uma consequência, não um motivo. O que quis saber é o que há de tão moralmente condenável nesse filme. São por suas escolhas estéticas ou por um motivo extra-cinematográfico?

Sobre as relações entre arte e moral, concordo parcialmente com suas afirmações, mas talvez não tenha feito as perguntas certas. Também considero a arte um fenômeno histórico, social, político e moral, mas me pergunto a que ponto ela deve ser submetida à critérios que fogem de seu domínio, a ponto de limitar o julgamento dos filmes por critérios ideológicos [se o filme tem valores de esquerda é bom e vice-versa, se no filme se crê em deus é bom e vice-versa]. Acho esse tipo de posicionamento nocivo. Creio que a arte tenha direito de mexer com questões sem se preocupar em se alinhar a determinados discursos. Bastardos Inglórios é ruim por ser uma farsa mal feita ou por remexer com assuntos sagrados da história mundial?

""Existe forma melhor que outra?" parece-me o mesmo que perguntar "Existem filmes melhores que outros?" Essa dúvida me surgiu ao Calac falar que trabalhar com gênero é melhor do que trabalhar com imaginário. Isso me parece a priori e acho isso um equívoco. Uma das lições que o modernismo trouxe foi que a forma clássica é tão convencional quanto qualquer outra. O impulso vanguardista vem daí e seu esgotamento mostra justamente a ausência de hierarquia nesse assunto. As formas ganham qualidade de acordo com os materiais trabalhados. Imagino que você concorde com isso e deva estar aberto a qualquer tipo de forma.

E não, não sou fã de Radiohead.

Felipe disse...

"Dizer, a partir do filme, que os Coen não se importam com nada é cinismo."

Não, meu caro, acredito que seja uma idéia (subjetiva) como deve ser. Caso contrário, deixava de ser uma idéia, virava um dado concreto, e estamos lidando COM ARTE, REPRESENTAÇÃO. Não vejo cinismo (que por sinal você utiliza por aqui). Trata-se da defesa valorativa de uma predileção, baseada numa espiral histórica de propagação da melhor forma de formalismo (que para mim é indissociável à questão do fascínio, sua montagem ou perspectiva de atração).

E até uso essa discussão para divagar sobre um aspecto da blogosfera ligada ao cinema. Se não for nesses moldes, não compro uma crítica ou um comentário. Até porque de descrições poéticas já estamos cheios. Aliás, as descrições poéticas em geral não sugerem uma imagem do filme, ou com o timbre do filme. Parecem-me alavancas para a realização poética duma frustração literária. Portanto, muito mais salutar uma configuração de texto pautada nas imagens do filme discutido em IDÉIAS palpáveis (como se faz por aqui, concorde-se ou não com as mesmas), insinuando ou desvelando o dado concreto do que se pôde colher na sua sensibilidade e na sua aproximação (moral e por isso mesmo sentimental) ao filme.

"Ok, você não gosta deles como encenadores. Quais teus critérios para essa avaliação? E não venha com essa de não se dar ao trabalho de explicar a parte moral. Não tem nada de óbvio. A relação entre arte e moral não é simples. É a moral em relação à forma artística [repetindo, existe, a priori, forma melhor que a outra? E a arte deve ser moral?], ou em relação à sociedade [deve a arte se submeter à valores éticos, políticos ou históricos? Por quê?]. Explique. Desça do pedestal um pouquinho."

Fico com o Calac, o próprio discurso desse sujeito revela melhor do que até mesmo os ataques feitos aqui todo o contorcinismo barato do filme.

bruno andrade disse...

Como eu havia dito anteriormente, suas questões parecem fricote de acadêmico.

Olha camarada, um amigo meu disse uma vez: eu gosto de cinema porque não é uma laranja. Subscrevo completamente, e acho que podemos encerrar por aqui o assunto de critérios extra-cinematográficos (que diabos você quis dizer com "motivo"?).

O filme dos Coen, como todos os seus filmes, é um filme de direita (a má-consciência intelectual que os rapazes demonstram diante dos gêneros que trabalham, no entanto, para não dizer diante do ofício da direção de cinema, vem muito mais de um sentimento que a pior esquerda americana tem com o passado de seu país, de suas tradições e seus costumes), e é um filme repugnante. Conan, do John Milius, como todos os seus filmes, é um filme de direita (sem qualquer traço de má-consciência, e conseqüentemente de demagogia), e é uma obra-prima, um dos meus filmes favoritos. Então não venha balançar bandeirinhas por aqui que isso não impressionará ninguém. Discutimos forma cinematográfica.

E já que estamos falando de forma, é impossível desvincular causa (a que você, a meu ver equivocadamente, chama de "motivo") de conseqüência. A moral de Onde os Fracos Não Têm Vez é repugnante porque sua forma é repugnante. Você fala de mal-absoluto: esse discurso sobre a falta de identificação, para início de conversa, exime o espectador, justamente, de qualquer identificação tanto com o universo retratado quanto com os personagens que habitam esse universo. Ao contrário de Milius, de Fuller, de Lang, do Sollima e de todos os verdadeiros grandes cineastas que trabalharam com os gêneros e os frutificaram (mais tarde eu entrarei na falsa questão do "modernismo"), os Coen lavam as suas mãos - e as dos seus espectadores - diante da bárbarie que retratam. Que tipo de olhar é esse, tão pouco implicado, incapaz de se enternecer ou de se projetar num ponto de vista, num horizonte ou numa perspectiva minimamente crítica diante do que vê? E no entanto, há no filme uma coisa muito mais absoluta, muito mais incontestável e inexorável que o mal representado: é a inteligência dos Coen, a que eles projetam no material, uma inteligência fútil e bastante superficial que busca, a todo instante, com uma estrutura narrativa completamente aderida - sem nenhum resquício de problematização - pela forma do filme (e particularmente por uma montagem acadêmica, feia, sem graça e sem dinâmica), desnaturalizar as significações dos fatos ao fazer com que os primeiros precedam os segundos. Desde o início do filme - Josh Brolin e a mala - é dessa forma que os Coen nos dão a ver o que filmam. Uma "inteligência" tão mesquinha, proselitista (em todos os sentidos do termo), limitada e impositiva não tem como deixar de sufocar tudo o que é espírito e vida, chafurdando apenas e tão-somente na corrupção, no lodo, na abjeção do outro e no esmero do seu perfeito vazio.

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