domingo, 13 de fevereiro de 2011

Por sinal, director's cut do Miami Vice visto neste fim de semana. Impressionante. Esclarece de forma muito precisa, tanto pelas menores mudanças como pelas mais surpreendentes, como a visão do Mann, pelo menos neste filme, tende mais para a novela que para a pintura, e mais para Shakespeare que para Hopper.

6 comentários:

PSL disse...

Poderíamos dizer que tende mais para a TV do que para o cinema, apesar que a matriz me parece ser Dreyer, ou, mais, a pós-vanguarda anos 20, até porque o closeup que ele utiliza é tudo, menos TV. O closeup que o Mann usa aqui (e em Public Enemies) não é "envolvimento", mas sim "imersão". Não é para elucidar, mas para acrescentar camadas.
Olha, gosto menos do director's cut do Miami Vice (que, pra mim, é uma obra-prima), talvez porque o início e a conclusão do par na versão de cinema são bastante depurados, porque concentrados.

bruno andrade disse...

Eu amo este filme, embora não sei se fui bem entendido aqui. Quando falei em novela, falei em literatura: Mann sempre foi um cineasta novelístico - Manhunter, Último dos Moicanos, Heat, The Insider (sua obra-prima incompreendida e maldita), Ali. A matriz dos seus filmes sempre foi literária (eis porque fiquei tremendamente puto com os delírios plasticistas e formalistas da época em que a crítica se debruçou sobre Miami Vice quando do lançamento nos cinemas, geralmente vindos de gente que anteriormente ou não tinha prestado atenção no trabalho concreto do Mann ou não dava um amendoim para a sua obra). Basta ver a meticulosidade do trabalho roteirístico nas construções de seus filmes, arrojadas sem que para isso acabem sendo confusas ou prolixas.

Você fala de par, e para mim o filme sempre foi sobre pares - Sonny e Isabella, Ricardo e Trudy, muito mais que Sonny e Ricardo (enxergar homoerotismo neste filme, como críticos sem assunto costumam fazer para fingir que não apenas têm um assunto mas ainda por cima um bastante extraordinário, seria nada menos que errado). Eu achava que a presença - fortíssima, quase que um filme dentro do filme pelo jeito que Mann a integra na decupagem das cenas como um elemento de desequilíbrio, uma presença construída na tela pela sugestão de um mistério que depois saberemos ser fatal - da Naomie Harris no corte dos cinemas se ressentia de um acompanhamento à altura do que Mann fazia com o casal Farrell-Gong Li, e que assim o filme perdia um pouco do seu centro, que ele gravitava um pouquinho além do que o peso dessas relações exigia. Qual não é a minha surpresa quando percebo que no director's cut é precisamente isto o que Mann retifica, com a linda cena do bar onde a Trudy diz "Você não pode se preocupar comigo. É assim que as coisas dão errado"? O filme desta forma se abre ainda mais do que antes à instabilidade e ao imprevisto, ao absurdo de momentos em que tudo parece possível numa fração de segundos sem que os personagens se dêem conta das conseqüências de suas ações e escolhas, cujos resultados só compreenderão (e, como num digno cinema de imersão, nós com eles) mais tarde. É definitivamente nesta versão que a condensação dramática do filme, sua substância narrativa, corresponde ao lirismo da experiência visual que Mann extrai das trajetórias intrincadas desses personagens. Essas trajetórias se tornam mais ricas e a experiência da qual o espectador desfruta apenas ganha com isso.

Em tempos de filmes sem construção que acabam elogiados justamente por isso (e sempre da mesma maneira: "é sensorial", "é siderante", "é oriental", "é contemporâneo", "é delicado", "é biopolítico", "é brasileiro", "é Tony Scott"), na habitual confusão que a crítica faz entre modernidade e pose moderna, verdadeiras massas informes que se sustentam sobre vácuos, a coisa mais elogiosa e honrosa que se pode dizer de um filme é que ele é construído tão minuciosamente que você sente em cada fração das suas partes uma organização que não engessa a visão ampla e arejada de um cineasta como o Mann (já percebeu que nos closes sente-se o ar que circunda os rostos? Veja como ele faz questão de enquadrar o pescoço - lindo - da Naomie Harris, mesmo nos momentos em que a câmera se cola no rosto dela com uma lente 30 mm. e você vê nitidamente toda a atividade do fundo do plano por conta da super profundidade de campo, como na cena da boate que na versão dos cinemas abria o filme).

bruno andrade disse...

Lembrando o que mais tarde vai acontecer ao pescoço dela. Como eu disse: um verdadeiro filme dentro do filme.

bruno andrade disse...

E dizer que um filme é televisivo não é necessariamente demérito não, Paulão; muito pelo contrário. Basta lembrar que o que de melhor produziu-se no cinema dos últimos 40 anos foi quase sempre para a TV - o melhor Newman, alguns dos melhores Cottafavi, Rossellini, John Flynn, Fassbinder, O Raio Verde e outros Rohmer maravilhosos, Straub etc. Isso sem contar as contribuições do próprio Mann, e sem falar em tesouros inestimáveis que dificilmente conheceremos (televisão russa, italiana, americana e mais uma porrada dos anos 50 e 60). Essa pedagogia televisiva ganha de lavada do cinema contemporâneo.

PSL disse...

É, concordo. TV, aqui, eu pensei no lixo da TV aberta brasileira, que tem a capacidade de dissolver cérebros _ou alguém me fala o que rolou de expressivo na nossa TV nos últimos anos?
Sobre o Mann, acho tbém "Ali" um injustiçado. O The Insider tem um momento lindo, no bar, quando o delator vai pro seu isolamento. Ou o lençol e Al Pacino enredando a mulher na cama (ou isso é em Heat?).

bruno andrade disse...

Um pessoalzinho da Cinética diria A Favorita. Ou BBB. Ou ainda a Capitu do LFCarvalho, que é apenas uma das coisas mais empedernidas, entediantes, engessadas, equivocadas, pedantes, intragáveis, mal feitas, agressivamente feias, em suma greenawaynianas já cometidas na história do mundo sem ser Greenaway. Lembro-me de um infeliz em particular que falou sobre a inteligência da solução de se filmar tudo em um grande palco-estúdio, confundindo teatro com artismo demonstrativo e vulgar (o que é típico dessa geração de cineastas-críticos, ignorantes ao passado constitutivo das artes). Queria ver a reação desse sujeito à delicadeza dos trabalhos do Cottafavi, do Santelli, do Naruse, nas transposições simplíssimas que fizeram da literatura mais complexa, coisa de quem realmente pensou a questão teatral em relação à técnica cinematográfica, do mais romanesco cinema de estúdio à depuração do direto.

The Insider deve ter mais ou menos uns 160 momentos lindos. A cena a que você se referiu é tanto do Heat (cena de apresentação do personagem do Pacino, com ele e Venora dividindo uma cama) quanto do The Insider (Pacino e Lindsay Crouse).

Arquivo do blog