domingo, 20 de março de 2011

Ademais, parece-me sim importante - sobretudo em se tratando de um cinema que muitos tendem a ver como "inédito" e "novo" em todas as suas operações - enxergar de onde vêm as coisas, o que elas continuam, o que abandonam, o que os cineastas herdam por osmose, o que negam por instinto.

8 comentários:

Daniel Pereira disse...

Bruno, off-topic, deparei-me com o nome do cineasta Mário Peixoto. Que me podes dizer sobre ele? É só mito?

bruno andrade disse...

Meta bala. Assista Limite e tudo o que puderes do Humberto Mauro.

Felipe disse...

A Velha a Fiar do Mauro é genial.

JD disse...

Se todo trabalho academico fosse assim...

Lendo trechos da dissertação, bateu uma curiosidade (talvez vc saiba responder): o que Mourlet e demais macmahonistas achavam dos filmes da nouvelle vague? e dos filmes de Glauber (se chegaram a ver)?

bruno andrade disse...

As reações variam. Rissient, o chefe do grupo, foi assistente do Chabrol em Os Primos e do Godard em Acossado, que teve algumas de suas cenas filmadas no Mac-Mahon e que conta com as participações de alguns nomes célebres do movimento: Mourlet, Michel Fabre, Jacques Lourcelles, Emile Villion (proprietário da sala), Jacques Serguine... Sei que Rissient gosta do filme, de Pierrot le fou e de Sauve qui peut (la vie); não sei o que acha do resto. Gosta dos filmes do Rohmer (foi um dos produtores de A Inglesa e o Duque) e do Chabrol.

Lourcelles põe praticamente todos os cineastas da NV abaixo, principalmente Godard. Ele salva um filme do Chabrol, Landru, dois Truffaut - Beijos Roubados e O Quarto Verde -, elogia o Luc Moullet, fala bem de cineastas próximos do movimento como Jacques Rozier, Jean Rouch e Jean-Daniel Pollet; em compensação, põe Resnais e Rohmer abaixo. No jornal de 1966 do último número da Présence du Cinéma, o Lourcelles condena boa parte do cinema francês de então, incluindo toda a nouvelle vague.

Mourlet elogia Acossado e acho que admira alguns dos primeiros Godard, e só: sem interesse pelo resto (fala mal de A Chinesa e de Sauve qui peut (la vie)). Admira Chabrol e é apaixonado por Rohmer (escreveu um dos melhores textos sobre ele), considera O Quarto Verde uma obra-prima e adora o principal predecessor da nouvelle vague, Alexandre Astruc. Do Resnais, ele pôs abaixo Marienbad à época do lançamento, mas em 87 ele revisa o seu julgamento e observa que a partir de La vie est un roman o desenvolvimento da obra é surpreendente.

As reações aos filmes e os gostos de cada integrante são bem mais pontuadas e menos estereotipados do que se imagina. A verdade é que os macmahonistas possuem/possuíam um programa bem menos rígido que o quê algumas pessoas buscam caracterizar; quanto mais se conhece, mais se vê que eles tinham na realidade uma grande liberdade, um campo de manobras bem amplo. Nos anos 70, Rissient e Pierre Guinle partiram para a Ásia para descobrir o que havia por lá, e o resto, como se diz, é história: King Hu, Edward Yang, Im Kwon-taek, Abbas Kiarostami, Hou Hsiao-hsien, Lester James Perries, Lino Brocka, Ritwik Ghatak, Hong Sang-soo, Cirio Santiago, Nora Aunor, Park Kwang-su, Shu Shuen Tong etc. etc. etc.

Nenhuma idéia do que acham do Glauber; não me surpreenderia se repudiassem, embora os filmes dos anos 70 têm pontos em comum com o cinema de fascinação que defendiam.

bruno andrade disse...

Tava pesquisando sobre o Rissient, e esbarrei nisto.

JD disse...

Interessante essas (pequenas?) divergencias. Curioso que o Rivette ficou de fora desse seu resumo...

Sabe se é possivel/facil encontrar, na net ou na França, as edições da Présence du Cinéma?

bruno andrade disse...

Aqui.

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