domingo, 22 de janeiro de 2012

Uma ótima opção para quem não se satisfez com a versão truncada dos fatos, como descrita no bastante parcial e por vezes simplesmente desonesto livro do Antoine de Baecque.

9 comentários:

k.lincoln disse...

Poderia dar um exemplo concreto da desonestidade ou parcialidade do livro do Baecque? Não é pergunta marota, queria saber mesmo( particularmente só consigo pensar na descrição um tanto simplória que faz do André Maulrax).

bruno andrade disse...

É necessário, antes, lembrar que o De Baecque já havia tentado (rascunhado, truncado, falhado) uma história dos Cahiers nos dois tomos Histoire d'une révue - o primeiro ia de 51 a 59, o segundo de 59 a 81 -, provocando reações virulentas entre vários redatores antigos da revista. O Rohmer em particular chegou a contestar publicamente o trabalho do De Baecque. E com toda a razão, em vista dos mitos e invenções que mesmo hoje ainda rondam o trabalho editorial que ele fez com o Doniol-Valcroze e o Douchet - sem dúvida alguma para quem conhece a história dos Cahiers a melhor editoria que a revista teve e que, ao contrário de um dos mitos que ainda perduram, nada teve a ver com a entrada do macmahonismo ou de um pensamento estético "à direita" na revista, exemplo típico de desinformação fundada em pura ignorância -, clichês vagos e procedentes de imprecisões que o De Baecque não fez que repetir no Histoire, e parcialmente - ou atenuadamente pelo menos, visto que a pesquisa que fez desta vez foi muito mais profunda e precisa - no Cinefilia.

Aproveito a menção para começar a discutir os deméritos que vi no livro: excessos sempre houveram na história dos Cahiers, desde o início, e é possível que ainda mais nas editorias que seguiram as do Rohmer - Rivette, Narboni-Comolli etc.; em textos como os que Fieschi, Jacques Bontemps, Labarthe ou Luc Moullet escreveram entre 65 a 68 -, mas o De Baecque mais uma vez centra suas observações à versão já historicizada, legitimada, de que os excessos questionáveis e realmente dignos de intervenção se restringem principalmente à abertura intelectual (porém vigilante, muito mais que a do Rivette ou dos que os seguiram) permitida pelo Rohmer entre 59 e 62-63. Então, além de parcial e desonesto, eu diria também que é tendencioso, ainda mais para um trabalho feito por um "historiador", na realidade feito para legitimar a visão intelectualmente correta (mais para "corrigida") de que os Cahiers se corrigiram e seguiram se corrigindo, policiados, dos seus excessos políticos a partir da entrada do Rivette na revista e da 'politização' que se intensifica depois de 66 e 67 (como se a revista que criou a POLÍTICA dos autores e tinha nas suas páginas Pierre Kast e Louis Marcorelles, além de Godard e o próprio Rivette, fosse 'despolitizada' antes da intervenção rivettiana). Não sei se, lendo o livro, a pessoa que não conhece os Cahiers amarelos tem a real noção do que a revista de fato foi no início dos anos 60, único momento em que se viu a intransigência inicial dos jovens turcos aliada à grandeza de espírito do Rohmer, que admitiu no interior da revista uma multitude de formas e enfoques válidos (para ter uma boa noção da filosofia da revista nesse momento, recomendo as leituras dos textos centrais do Jean Douchet, A Arte de Amar, e do Rohmer, O Gosto da Beleza).

bruno andrade disse...

Parcial: em basicamente toda a cronologia que ele fornece, do surgimento da cinefilia aos seus desenvolvimentos inusitados nos anos 50, ele centra essa "história da cinefilia" quase que integralmente nas figuras, sem dúvida alguma estimáveis e em alguns casos inestimáveis, daqueles que passaram pelas revistas e pelos semanários, o que de forma alguma dá a real noção dos papéis exercidos nessa história por algumas de suas figuras mais verdadeiramente atuantes. Pergunta: e quantos aos Cineclubes, os programadores, os cineclubistas? Quase nenhuma, em alguns casos até mesmo nenhuma, ou ainda nada mais que uma rápida menção a Philippe Demonsablon, Gérard Legrand (tão bom ou até melhor que o Tailleur dentre os redatores da Positif), Dominique Rabourdin, Jacques Goimard, Michel Fabre, Pierre Maginot, Georges Richard, Simon Mizrahi, Jean-Claude Missiaen, Pierre-Richard Bré, Barbet Schroeder, Jean-Loup Passek, Pierre Cottrell, Yves Boisset, Patrick Deval, François Weyergans, Jean-Pierre Coursodon, Jean-Claude Romer, Jacques Siclier, Patrick Brion, Jean-Louis Cheray, Pierre Guinle, Gérard Guégan, Jean Collet, Michel Caën, Jean Rollin, Claude-Jean Philippe etc. (não lembro o quanto ele fala ou não do Bernard Eisenchitz ou do Henri Agel, este último professor do Serge Daney, do Louis Skorecki, do Biette, "pai cultural" do Jean-Claude Guiguet, em suma uma das influências mais significativas de alguns dos críticos mais importantes saídos da França nos últimos 50 anos; se não fala é mais uma omissão gravíssima, e se fala pouco é uma opção infeliz) e, no caso dos Cineclubes, às atividades do Studio-Action République, do Nickel-Odéon, da Midi Minuit Fantastique (revista com intensas atividades cineclubistas)... Não lembro se ele chega a falar do Studio Parnasse ou do Ciné-club du Louvre, o que é também um péssimo sinal. (Lembrando que, para além do recorte obrigatoriamente adotado por questões práticas pelo De Baecque, tudo isso que eu citei acima não ocorre apenas em Paris e paralelamente ou transversalmente você localiza na Itália, em Portugal, na Espanha, na Inglaterra etc. trabalhos igualmente imprescindíveis como os do Adriano Aprà, Freddy Buache, João Bénard da Costa, José Luis Guarner, Miguel Marías, V.F. Perkins, Kevin Bronwlow, Peter von Bagh e certamente mais uma porrada.) Uma coisa que particularmente não entendo é o sujeito passar umas dez páginas falando do trabalho do Bernard Dort no meio dessa "grande história da cinefilia" e despachar o macmahonismo, um movimento que está na origem - 1951 - da atuação dos jovens turcos e de toda essa efervescência cinefílica que em poucos anos tomará Paris, além de ter uma importância considerável na história crítica e estética dos Cahiers, em pouco mais de três páginas. Isso realmente está além das minhas capacidades.

bruno andrade disse...

O que me traz à questão da desonestidade. Realmente acho que há apenas duas opções de julgamento para a leitura feita pelo De Baecque do texto do Lourcelles sobre Fuller: ou você considera aquilo um equívoco completo ou, no caso dele ter de fato lido o texto, acha aquilo desprezível. "Exaltação viril da figura do herói em Fuller"... Sinceramente: ele sequer leu o texto, para início de conversa, ou nem mesmo passou do título que cita Borges e do qual Lourcelles extrai principalmente a noção de traidor para discutir a obra do Fuller? De Baecque não estaria confundindo oportunamente as prosas do Mourlet ou de um Serguine à de um Lourcelles, nesse equívoco que dura há horas e que faz com que se considere o macmahonismo como algo próximo de uma doutrina, uma corrente uniforme de pontos-de-vista unívocos, imutáveis e inequivocadamente alinhados ao invés do mais alto grau de uma expressão da paixão indolente e intransigente que está na base de qualquer cinefilia digna do nome? Não estaria De Baecque apenas prolongando, como vários redatores das gerações que sucederam a editoria Rohmer-Douchet, a confusão que faz com que se rechace um dos capítulos mais importantes da história da crítica cinematográfica, e que acontece não nas páginas dos Cahiers mas nas da Présence du Cinéma (e que, até por isso, talvez merecesse um pouquinho mais que três páginas)? Essa oposição instigada pelo De Baecque das visões dos Cahiers e da Présence sobre um mesmo cineasta crucial para as duas revistas só não é mais falsa que inexistente: qualquer pessoa que leu atentamente o texto do Lourcelles conclui que o que ele escreve sobre Merrill's Marauders e A Lei dos Marginais problematiza e prolonga as questões levantadas pelo texto do Moullet, especificamente na questão da modernidade no cinema do Fuller e na relação dessa modernidade evidente com o resto do cinema americano. São textos muito mais convergentes que divergentes, e a principal diferença entre os dois é que um foi escrito em 59, com a visão que era possível de se ter do cinema do Fuller até então, e o outro em 64 com uma perspectiva arejada por filmes como A Lei dos Marginais e principalmente Merrill's Marauders (que antecede e anuncia, vale lembrar, Agonia e Glória, desdobramento último, terminal da porção da obra do Fuller comentada por Moullet e Lourcelles). Uma diferença que o De Baecque não chega a desenvolver ou sequer aventar, e que entretanto não é nem um pouco negligenciável.

bruno andrade disse...

Mas nem foi isso o que mais me incomodou dentre o que eu vi como desonestidade no livro. O que realmente me deixou negativamente surpreso foi a síntese que ele encontrou para a sobrevida ou a consciência aguda da cinefilia após a "queda" desta nos idos de 68. Essa eleição do Daney como figura intransponível da melancolia cinefílica (que na história recente dos Cahiers dá-se na forma de um endeusamento que chega em alguns momentos a assumir a forma incômoda e desnecessária de uma necrologia) não só é caduca como falsa. COMO o sujeito faz uma súmula dessa consciência do impasse ao qual a cinefilia se encaminhou a partir dos anos 60 sem mencionar extensamente um texto que se chama, justamente, Contra a Nova Cinefilia, cuja autoria não é de Serge Daney mas sim de Louis Skorecki? Como o sujeito faz uma pesquisa tão complexa, que teve acesso privilegiado a documentos inéditos ou de acesso restritíssimo, e conclui o livro sobre a reflexão específica de um crítico sem mencionar que essa reflexão teve origem nas idéias de um texto escrito não por ele mas por um de seus colegas, um dos que ele mais foi próximo? (Não coincidentemente Skorecki deixou o Cahiers pelo Libération na mesma época que o Daney, acho que inclusive antes, e começou a escrever sobre TV antes do Daney.) Não só Skorecki mas também Jean-Claude Biette, Guiguet (que não escreveu para os Cahiers mas que fez muito desse mesmo trabalho de continuidade e problematização da herança cinefílica), Michel Marmin; os textos que Skorecki e Daney escreveram no Libération sobre as reapresentações de filmes clássicos (continuação de um trabalho iniciado na realidade pelo próprio Skorecki e por Biette nos Cahiers ainda nos anos 70, por sinal); os textos seminais que o Biette escreveu nas seções Les fantômes du permanent e Cinéma-chroniques nos Cahiers, que ecoam e muitas vezes respondem provocantemente várias das questões levantadas por Daney e Skorecki à época, de uma maneira muitas vezes ainda mais instigante que o Daney, um material que é freqüentemente tão bom ou até melhor que o que Daney produzia na época; ou ainda esses loucos prospectores do tipo Pierre Rissient, Simon Mizrahi, que peregrinaram a Ásia e a Itália atrás dos jovens cineastas ou das descobertas tardias, que não escrevem ou escrevem muito pouco; a história da famosa sessão organizada pelo Paulo Branco no Action République do Amor de Perdição à qual se deve a consagração definitiva do Oliveira na França; toda uma série de episódios os quais conheço ou ouvi falar. Isso me parece apenas má-fé mesmo, vontade de agradar os caciques (Aumont, Toubiana, Bergala, Bonitzer, não por acaso acionistas da revista e sujeitos que, mesmo que se admire o que eles escrevem, têm uma relação muito problemática com a história da mesma e com certas figuras como Skorecki e Biette), de fazer revisionismo, de terminar com uma "biografia autorizada" ao invés do extenso trabalho de historiador que poderia ter sido. O capítulo da cinefilia após 68 é de longe a maior furada desse livro cheio de furadas, mais pela ausência de um comentário que fosse sobre o texto do Skorecki ou os do Biette que por todas as outras coisas que citei.

Para tomar conhecimento de algumas das coisas que o De Baecque flagrantemente deixou passar, recomendo as leituras de Mes Voyages en Cinéphilie do Michel Mourlet; a mítica tese de mestrado da Geneviève Puertas (la Cinéphilie à Paris 1954-1966); a entrevista que o Skorecki deu pros Inrockuptibles e que se encontra online; o blog do Patrick Brion; um texto, acho que do Claude Beylie, sobre MacMahonismo que tem em .pdf; uma entrevista que o Rohmer deu para os Inrockuptibles em 5 de junho de 1996; e, principalmente, o Contra a Nova Cinefilia, que você acha com facilidade na web.

bruno andrade disse...

Em suma: fora essa sensação que o livro acaba passando no seu recorte 51-68, de que 'enquanto os anos avançaram a coisa mudou porque era necessariamente melhor assim', essa passividade típica da geração que veio na cola dos Aumont, dos Toubiana e dos Bonitzer, sensação profundamente enganosa, eu diria que dentro do trabalho que o De Baecque teve a chance de fazer o livro não chega a corresponder nem a 40% do que poderia ter sido. Sério candidato ao título de leitura mais decepcionante de 2011.

bruno andrade disse...

E meus dois centavos sobre o filme da querela Godard-Truffaut: infantil e tolo. Qualquer filme sobre essa ruptura que conta com a participação da Isild Le Besco é tipo a maior piada de mau gosto feita com a história da crítica de cinema, do cinema e da cinefilia moderna.

bruno andrade disse...

La confiscation de la critique, notamment littéraire, par trois ou quatre journaux et magazines de la gauche intellectuelle donnant le la à tous les autres, a produit les mêmes effets que le monopole du pouvoir politique défendu babines retroussées sur les crocs, à coups de lois et découpages électoraux, de promesses intenables, de désinformation et de toutes sortes de manœuvres discriminatoires, par les farouches rentiers de situation qui se réclament de la démocratie : pas plus qu'on ce croit aux discours des politiciens, plus grand monde, désormais, parmi les amateurs de lecture n'attache d'importance à ce qu'écrivent nos aristarques, se recopiant les uns les autres avant de se saluer alternativement au bord de la soupière, comme les « oiseaux buveurs » mus par les oscillations thermodynamiques du chlorure de méthylène.

k.lincoln disse...

Nossa, valeu mesmo por todas essas informações. Eu, que ouvi falar pela primeira vez do macmahonismo quando li esse livro, devo ter ficado com uma visão completamente distorcida do negócio ("...Pois a "ideia de cinema" mac-mahoniana cheira a enxofre." *-aliás, mais adiante, menciona indiretamente que se tratam de ideias de "extrema-direita"; ou seja, erra também no julgamento ideológico, pois crê que "extrema-direita" seja algo como "muito didireita" haha).E, realmente, deixa seus leitores na completa ignorância quando sequer cita o conto de Borges que sustenta o texto do Lourcelles(seria o "tema do traidor e do herói"?). Já li algumas coisas do Skoreci, mas não sabia desses textos sobre TV-coisa que muito me interessa. Enfim, com a quantidade enorme de correções que fez, o mais prudente seria deixar o conhecimento que adquiri "em suspensão", pelo menos até confrontá-lo com diferentes fontes...mas fico pensando mesmo na quantidade de desinformação que um obra dessas pode sair disseminando por aí...ora, foi uma espécie de "best-seller" no tema (até porque não existem muitas outras opções pro neófito brasileiro). Mais uma vez, obrigado pela resposta.

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