sábado, 14 de julho de 2012

Um desses auges de ousadia e experimentação de uma mise en scène totalmente concentrada, que jamais enfatiza mas também não neutraliza nem atenua o quadro hiperdramático e freqüentemente incrível no qual a ação se desenrola, uma mise en scène em que tudo é fatalmente, tragicamente e nitidamente geométrico - como em Lang, Dwan, Rohmer -, uma mise en scène perfeita que Matarazzo passou os anos 50 todinhos cinzelando.

Atenção ao fade to black fulcral ao término da primeira cena/plano (num Cinemascope rigorosamente mizoguchiano - uma cena, um plano) entre o casal Folco Lulli-Lilla Brignone, que em termos de ritmo, concisão e exatidão na descrição das ações estabelece imediatamente todo um passado de sofrimentos e incompreensões na convivência das personagens, numa forma de insensibilidade flagrante e glacial que deixaria Fassbinder de cabelo em pé, além de ser uma mise en scène da alienação muito mais potente, lacônica e precisa como representação da incomunicabilidade que o melhor do Antonioni.

Não se vai mais longe no registro e na reprodução da materialidade irredutível das coisas (cf. o conversível vermelho de Michel Auclair, a lata velha de Folco Lulli, o jipe-guincho de Rik Battaglia) do que isso.

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