sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Então o caricatura de esquerdinha subtropical (posa de esquerdinha mas não se interessa e tem suficiente cara de pau para continuar não se interessando em saber o que é e o que foi a CBCA) resolveu romper o pacto de trégua que tinha com o Eastwood desde que o Inácio e os Cahiers o elogiam porque o autor de Poder Absoluto resolveu ir a uma convenção republicana?

Não apenas são coerentes como inteligentes: nossa hein, quem diria que o autor de Bronco Billy e Hereafter (dica: filme da era Obama que adota um ponto de vista planetário sobre a história de um estivador vidente de-sem-pre-ga-do) é um republicano conservador e, como ousa?, pasmém!, libertário ao mesmo tempo...

Se você encara ou decidiu encarar (a escolha é sua, filho) o mundo com antrolhos, evite fingir que entende, ou mesmo que gosta, de Eastwood e de Rohmer (ambos pedagogos); tenha a higiene de se restringir a Gillo Pontecorvo e Fernando Meirelles (ambos demagogos, ou seja, perfeitos porta-vozes de uma cultura confusa, sofista, deliberadamente prolixa e portanto depredatória).

8 comentários:

k.lincoln disse...

Melhor post em muito tempo, lavou a alma. E, pqp, os caras conseguem passar por TODA a filmografia (em particular, Gran Torino) do Homem e só agora descobrem que oh, horror dos horrores, é um conservador? acho o Romney uma porcaria, muito mais na linha neocon do que nos moldes libertários do Eastwood (que tem mais a ver com um conservadorismo burkeano, whig, visando *conservar* a liberdade (aquela dos tempos dos founding fathers, claro) em tempos de coletivismo e estatismo desvairado) e na prática um irmão-gêmeo do obama-boy em termos de agenda econômica (Keynes) etc etc mas é o que faz mais sentido pela própria trajetória e espírito eastwoodiano...

e é o seguinte: o genial cineasta Monte Hellman se revelou um completo porre obamista/"liberal"/ fascista no facebook. Cada dia solta uma pérola sobre política e aproveita pra espinafrar o clint. Minha admiração por ele continua a mesma, mas confesso que preferia ter passado sem essas...

k.lincoln disse...

"Conservatives killed the liberal arts
Destroying the humanities -- and the notion of informed citizenship -- is part of the conservative agenda "


No que cosiste a "a arte esquerdista"? Consiste em "informed citizenship".

bruno andrade disse...

As alfinetadas não vêm de hoje: tem umas entrevistas dos anos 80 e 90 em que o Hellman já antipatizava com o Eastwood.

Eu amo o Hellman, inclusive como cineasta o acho mais potente e por fim melhor que o Eastwood, mas é engraçado: o grosso do público cativo dele, que na realidade é menos um público cativo da obra dele que do hype e do mito (Denis, Gallo, afasia asiática, sonâmbulos argentinos) criado nos últimos anos ao redor de Two-Lane Blacktop, é justamente composto por gente que eu antipatizo quase que de antemão, esse "porre obamista/liberal/fascista de facebook" a que te referes, gente que vive pagando pau pra Two-Lane e Road to Nowhere (óbvio: o mais hype e o mais recente, portanto o que mais recentemente teve hype) e que você nunca vê falando de Back Door to Hell, China 9, Liberty 37 (a melhor coisa que o Hellman fez e a verdadeira arte poética da sua obra, seu centro de gravitação, o filme que evidencia as linhas de força que atravessam e unem os westerns com o Nicholson, Two-Lane, Cockfighter e sua obra tardia) ou Iguana (que é nada menos que um dos mais belos filmes de direita já feitos, no mesmo nível de Não Toque no Machado e Jusqu'au bout de la nuit).

O Romney é um doente mental, ou seja, mais um homem de negócios querendo brincar de político (o último caso desses que tenho à minha disposição, o atual prefeito de Florianópolis, simplesmente pegou a cidade e apertou a privada). Mas bancar o ofendido e o decepcionado com que o Eastwood fez, meu Deus: é muita jequice.

bruno andrade disse...

Em resumo: auto-proclamados exegetas do Hellman = galerinha Movie Mutations, que talvez seja mesmo um público cortejado/contemplado pelos filmes dele (ou ao menos por parte estimável da obra dele), mas que nem de longe tem a ver com as coisas que tornam esses filmes realmente fortes (i.e. a indignação, a inquietação calma, o desespero mudo, os desfechos trágicos de Whirlwind, China 9 e Iguana), ao menos para mim.

k.lincoln disse...

Acho que é por aí todo o lance do Hellman (que também acho superior ao clint)... acho ainda que o Road To Nowhere contribuiu pra aglutinar uma fatia considerável do mercado "de arte": a dos amantes de meta-meta-linguagem, esses pedantes que tudo o que têm a dizer sobre o(s) filme(s) são expressões vagas e genéricas como "manifesto de amor ao cinema" ou, pior ainda, "grande homenagem ao cinema" etc.

Mas aí, fui dar uma olhada nesse tal de Jusqu'au bout de la nuit e encontro isso no IMDB:

"This movie deserved more than it really collected from the audiences. People avoided this feature. Unfortunately. Let's be fair, it is a typical french, left wing, pessimistic and nihilistic account against police, power, state and anything meaning repression."

Só mais um comentário porco do IMDB?

Talvez o grande filme de direita deste século seja mesmo A Inglesa e o Duque, com seu brilhante retrato do gnosticismo político dos jacobinos (essa classe atemporal que nunca morrerá enquanto existirem zizek's e agamben's, isto é, enquanto viver o fascismo)...

bruno andrade disse...

É Mesrine + Blain. É tudo isso mesmo que o comentário porco da IMDb diz - menos, justamente, a parte do "left wing". Tem um pouco a ver com clichês que um espectador pode trazer consigo a respeito de cinema francês, achando que a visão do Blain teria necessariamente alguma coisa a ver com esquerda por ser "um relato contra a polícia, o estado e qualquer coisa que tenha a ver com repressão". O cara fala em niilismo e left wing ao mesmo tempo; isso já mostra que ele não teve uma visão filosófica das mais esclarecedoras do objeto que está tratando.

Na realidade o Blain já tinha deixado bem claro qual o seu ponto de vista sobre a esquerda em '80, com o Le rebelle (uma jóia do cinema anarquista; três anos antes do L'argent do Bresson outro cara já filmava com exatidão microscópica gente se comportando num banco como gado num pasto), na relação do protagonista com a impotência e a política de inversões dos sindicatos.

bruno andrade disse...

Por sinal, a mesma coisa liga toda essa punhetagem em cima do Road to Nowhere à miopia de longa data de inúmeros supostos interlocutores da obra do Eastwood, que é a ausência generalizada por aqui desta atitude aqui.

k.lincoln disse...

UHhuauhauhauhauhauha sensacional essa camiseta.

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