domingo, 28 de outubro de 2012

Deixando claro de uma vez por todas, caso ainda fosse necessário:

quem celebra uma “carta” estética do tempo é a publicidade: não há nada mais moderno, e moral, e portanto digno da arte, do que reconstruir a grandeza dos tempos em seu próprio tempo;

por negação, não há nada mais decadente e anti-moderno do que esse materialismo publicitário suposto narrador do tempo.

34 comentários:

bruno andrade disse...

Eu acho tão legal, esclarecedor mesmo, que voltou à moda - afinal é de moda, de último lançamento mesmo que estamos falando quando falamos de lixo proselitista deliberadamente prolixo desconstrutivista sessenta-e-oitista - ver o Ford como um "sentimentalóide" "de talento" "porém datado", com aquele ar despudorado, aquele embasamento notavelmente adquirido na faculdade de humanas na aula de "Cultura e _____________" com embalagem de cult(ura). Porque é aquela coisa: Straub filmando campesinos descansando debaixo da sombra de uma árvore com o sol a pino num pedacinho de terra siciliana sem cerca não é sentimentalóide, pois tem as cauções certas de "distanciamento" (na realidade abstração, mas as pessoas, desde Brecht, desde Eisenstein, desde tragédia grega gostam de confundir uma coisa com a outra) e "materialidade" (embora não haja nada mais místico e indescritível que a Sicília filmada pela janela de um trem pelos Straub) que essa gente toma por pré-requisito. Já a mesma coisa - mesmíssima, exata, tão-tenebrosa-quanto coisa - com o Henry Fonda e o John Carradine em Vinhas da Ira recebe um simples "não senhor". Enfim, abstração, a tal "economia do movimento, de atores e de câmeras; não fazer nada se mexer sem propósito; a diferença entre calma e estatismo", MISE EN SCÈNE em suma, isso não se discute. O que se discute são as confusões retóricas de pobres coitados que vêem o cinema como "arte necrófila" por pura covardia, completa impotência em admitir que são eles mesmos os necrófilos, os vampiros, os aproveitadores, os maus espectadores, os parasitas, os amnésicos, aqueles que não deixam nada, os que deixam a terra infértil como a pior das pragas. Zero de generosidade em meio a tanta soberba. Não que eu precise dizer isso e não que vocês mesmos não saibam disso, mas a porra da doença são vocês mesmos.

Mas enfim, com míope não se discute - apenas dá para indicar o oculista mais próximo.

bruno andrade disse...

Oculista 24 h. ao seu dispor (porquê geômetra, como Lang, Dwan, Bresson, Ozu, Pollet e, portanto, na contramão de "sensibilidades" como as de Kawase, Apichatpong etc.).

Como o Soldadinho Agambeniano pode bem ver - isto é, se pegar uma nova receita com os srs. acima indicados -, o cinema não é arte necrófila.

bruno andrade disse...

Isto aqui, Soldadinho, para você aprender uma ou duas coisas sobre generosidade, sobre humildade, capacidade. Sobre arar antes de colher. E também para você parar de falar merdas sobre coisas as quais não/nem entende.

bruno andrade disse...

Un tel artiste n'exécute rien dont il ne sente les effets ou qu'il ne cherche à les analyser, enfin rien n'échappe à ses observations et quel chemin ne fera-t-il pas dans son art s'il joint aux dispositions l'étude de ce que l'on a découvert jusqu'à lui ?

soldadinho yankee disse...

"eu acredito na ingenuidade-arte, daquelas pessoas que se autosabotam o tempo inteiro por serem incapazes de "planejar" como fazer as coisas andarem a seu favor.

eu tb acredito no maquiavelismo-moleque, daqueles que sabem exatamente o que querem, e se colocam em posição pra conseguir.

agora, a galera do maquiavelismo ingênuo, que quer manobrar pra conseguir o que quer mas não tem a menor capacidade de fazê-lo sem se auto-sabotar, ah, esses arderão no fogo do inferno."

quem sabe a auto-sabotagem, e portanto seu antídoto (a não auto-sabotagem, ou seja, o que te abre portas), tenha a ver com agir de modo sincrônico com a real natureza das "coisas", que assim vão andar a seu favor. isto é: construir uma reputação de marxista cultural útil, pra começar;

viver uma vida inteira de políticas do cotidiano, fazer muitos amigos, até, por exemplo, o ponto em que se é convidado a um cargo, ou a participar de um grande evento oficial: por mérito do seu elevado senso de pertencimento e caráter, que é gregário, em sintonia prodigiosa com as pessoas do poder e suas visões.

ou pode ter a ver com participar de muitas mesas de bar sujo, sendo lá integralmente uma criatura de esquerda (portanto afetiva, desprovida de vaidade, gregária, bonita: humana, atributo que é exclusivo a pessoas assim), falando mal do serra, ou dando sorrisinhos para quem fala, soltando alguns trechos de derrida em francês nativo para as brilhantes e sempre lindas groupies do pensamento e discutindo em alto nível intelectual o cinema brasileiro; a modernidade e o clássico; frankfurt e a verdadeira revolução.

talvez essa seja a receita para não se auto-sabotar.

bruno andrade disse...

Meu último terapeuta falou sobre eu me auto-sabotar.

Deixei de fazer terapia.

Igor disse...

Temo dizer que o resultado da consulta ao oculista pode acabar não sendo eficaz.
Os estudantes do curso de Comunicação Social/ Publicidade e Propaganda da ESPM demonstram na prática.
"Ah, mas são estudantes de Comunicação Social/ Propaganda e Marketing, não são estudantes de Cinema! Dá um desconto, Igor"
O problema é que entre estes e aqueles encontramos mais semelhanças do que diferenças. Aliás, muita coisa chamada de cinema hoje podíamos classificar sem medo de errar, na categoria de "Comunicação Social/ Propaganda e Marketing".

bruno andrade disse...

Quem já passou pelo Rohmer sabe que dele isso aí não tem a armação nem a receita. É como fazer falácia do espantalho com escritos do Biette - falta o entendimento e o rigor que conduz a crítica das coisas à síntese das coisas.

bruno andrade disse...

No mais, tanto no caso do Rohmer como no do Biette, há o que eles podem fazer pela miopia, há o que nada nem ninguém pode fazer pelo caipirismo, e há o que não se deve fazer pelos que medem os valores das coisas em diferentes graus de maquiavelismo. Neste último caso nem se trata mais de miopia - mais para filhadaputice e fascismo moral mesmo.

bruno andrade disse...

Soldadinho 2, duas dúvidas:

eu tb acredito no maquiavelismo-moleque, daqueles que sabem exatamente o que querem, e se colocam em posição pra conseguir.

Que tipo de pessoa, falando bem de si própria, se colocaria nessa categoria?

Minha outra dúvida: "auto-sabotar" é não compactuar com grupos e interesses precisos e portanto ser rechaçado, posto de lado, é isso?

soldadinho yankee disse...

ué, mas não se diz em certos meios de pensamento que a percepção de "bem" e "mal" é uma questão cultural, ou do arbítrio interno relativo às sensações e de foro íntimo?

quanto ao outro, acho que é exatamente isso aí.

o bom da relatividade é que um rechaçamento pode, dependendo do país e do contexto, ser uma gde credencial moral.

mas quem se importa com moral (ou seja, com ford, rohmer, eastwood, com todo o cinema que vale alguma coisa), não é mesmo?

Matheus Cartaxo disse...

“esses arderão no fogo do inferno.”

Toda aquela citação entre aspas sobre graus de maquiavelismo espanta por servir rigorosamente de profissão de fé do corporativismo mau-caráter, e dizer abertamente que se orgulha do seu talento em planejar, manobrar as coisas em função de seus interesses e se aliar ao resto do bando a fim de sabotar terceiros que não aderiram a esse projeto arrivista. No mínimo, uma declaração sem qualquer resquício ou noção do que é ser crítico.

Matheus Cartaxo disse...

Agora vou digredir um bocado.

Talvez por eu ser de Recife, acompanho de perto muitas dessas coisas num estágio ainda apurado – ou, melhor dizendo, essencial. Nas últimas semanas houve aqui um êxtase coletivo em ver a produção de cinema do estado ser largamente premiada em Brasília. Olhei para isso desconfiado, pois simplesmente me pareceu a resposta em âmbito nacional que todos aqui aguardavam para poder dizer: “estamos no caminho certo”.

Afirmar que se está “no caminho certo” é dar-se carta branca para continuar com os mesmos programas. E aqui, a bola da vez é uma só: saiu-se do provincianismo intelectual para alcançar a especulação intelectual. Explico: antes se fazia a defesa do que é local ancorado numa ideia de tradição - era o bairrismo; agora isso é sinal de reacionarismo e o que ganho espaço, em contrapartida, é a saída “progressista”: o estímulo à “cena cultural” emergente da cidade.

Recife hoje se orgulha de ter uma produção de filmes que compartilham temas (a vida na Cidade) e “sensibilidades da época” (quase sempre seguindo a cartilha do cinema contemporâneo mais festivalesco, em especial dos orientais). Homogeneidade que pra eles deve ser sinônimo, pasmém, de força.

Uma coisa se combina com a outra para alimentar a criatividade dos movie-makers na realização de seus ensaios audiovisuais, vinhetas politico-ideológicas, filmes coletivos, documentários sobre coberturas e empreiteiras, os quais recebem forte adesão porque se dizem relevantes e incisivos sobre o que eles julgam temas importantes e urgentes da cidade (e, para eles, por tabela, do cinema).

O que a especulação intelectual prega é a permanência de um terreno pródigo em temas a partir dos quais seja possível “se exercitar” e “fazer fortalecer” a cena cultural.

É “planejar”, “manobrar” até "conseguir o que se quer”.

É, como aquele da citação, um projeto arrivista cuja recepção local assumiu como bandeira o chapa-branquismo (não há quem faça crítica a esses filmes por aqui, e se o faz é em voz baixa) e que agora está começando a ser legitimada, sem me debruçar aqui sobre os méritos individuais dos filmes, como uma coletividade. No mínimo, preocupante.

bruno andrade disse...

Qual é o nome daquela produtora de um bando de filhinhos-de-papai publicitários - Conspiração?

Pois é, já dá a tônica da coisa.

Interrompendo a programação para notícias mais importantes: docs do Grémillon no KG.

soldadinho yankee disse...

'É “planejar”, “manobrar” até "conseguir o que se quer”.'

me permita, mas acho que o socialismo jamais fora antes tão bem (ainda que ocultamente) definido.

de resto, publicitários, cinéticos, artistas & críticos petistas (lembrando: não precisar votar 13 pra ser petista)... o que posso dizer sobre todos eles?

é o pessoal do cinema humanitário-comunitário.

o contrário do cinema da humanidade e do cinema moral, que é geralmente o cinema de fato.

Millard Fillmore disse...

eu vivia alertando o bruno:

"bruno, bruno... toma juízo. desse jeito vc nunca vai falar sobre cinema & nova sociedade brasileira em uma mesa de debates em tiradentes"

Millard Fillmore disse...

* com hernani heffner e vladimir safatle

Igor disse...

E é ainda mais preocupante, Matheus, que seja subsidiado pelo Governo, que seja bancado com o dinheiro do contribuinte. Num país como o Brasil, com os problemas que enfrenta, acho no mínimo indecoroso que um sujeito tenha a desfaçatez de pleitear recursos públicos (o imposto que todos pagamos!) para realizar suas fantasias, para fazer filmes que o contribuinte nem sequer vê (e mesmo que os visse!).
Que se façam filmes ruins, vá lá, sou pela liberdade de expressão sempre e acredito na máxima de Skorecki de que os filmes são ruins se os espectadores são ruins (e, completo, se os críticos também são ruins). Filme ruim se combate com filme bom, crítica ruim com crítica boa, e espectador ruim se combate com educação. Parte da verba que poderia assomar-se à da educação, é empregada nos filmes.
Tem dinheiro dos pernambucanos e dos recifenses em “Eles Voltam”. Em “Era uma vez eu, Verônica”, não tem dinheiro apenas dos pernambucanos, o filme contou com quase R$ 2 mi da Lei do Audiovisual (dinheiro do cidadão brasileiro). Com a premiação em Brasília, os dois juntos somaram R$ 276.000,00 em prêmios, que provém também de verba pública (do brasileiro e do brasiliense).
Deixando claro que também não entro aqui no mérito individual dos filmes, não os vi nem estou aqui fazendo sua crítica.
Podem argumentar que o cinema brasileiro pode não sobreviver sem essa ajuda, que fazer cinema é caro. Como financiar um cinema tão frágil como o brasileiro, sem contar com a ajuda do Governo?
Isso é problema do sujeito que quer fazer o filme. Convertendo os R$ 276 mil dos prêmios em euros, temos pouco mais de 100 mil euros. Com apenas 62 mil (estimados, segundo o IMDb), o cineasta francês Jean-Claude Brisseau realizou seu último filme. Finalizo, pois, com dois trechos de uma entrevista sua sobre este filme, em que se evidencia uma notável diferença de postura:
I started again to shoot films with a small budget because I had the clear sensation that big productions could obstruct artistic freedom. So I decided to regain it, because I am convinced that it is possible to transmit emotions also with modest means at disposal. Afterwards, I can just say that I did not expect the film could be presented in a Festival. Being awarded such a prestigious prize is really a big surprise. (…) I wanted to reach a vast and simple audience, not only the élite. Making something difficult to put on a scene, but trying to hide this difficulty at the same time.
É desnecessário dizer mais.

bruno andrade disse...

KG = If you want the love, you have to log in.

BRISSEAU = CINEMA = DEUS = ARTE

Ricardo Pretti disse...

vidor fez our daily bread e fountainhead.
ford fez grapes of wrath e fort apache.
são filmes que se posicionam dentro de uma moral e uma ideologia (seja capitalista/individualista, seja socialista/coletivista). no ford essa posição é infinitamente mais complexa e por isso, ao meu ver ele é um artista maior, apesar dos filmes de vidor serem sublimes em muitos momentos.
o que eu considero maravilhoso nesses filmes não é a ideologia e a moral, mas justamente o lugar de conflito que os filmes têm com as ideologias e morais que eles carregam. são filmes dilacerados e que por isso me emocionam. são filmes de afirmação, mas também de negação. são filmes rebeldes ao ponto de atacarem a si mesmo (e aí sim a auto-sabotagem faz sentido pra mim).
compreendo a desconfiança que alguns de vocês colocam, mas também desconfio de muita coisa sendo dita aqui, pois me parece beirar o mesmo tipo de patrulha ideológica da qual vocês acusam a esquerda petista. isso pra mim é trocar jdanov por mccarthy.

Ricardo Pretti

bruno andrade disse...

Acho que nem Jdanov nem McCarthy; a coisa toda revolve no libertarismo de um Brisseau (que fez os três grandes filmes revolucionários dos anos 2000 - não conto Anjos, que é mais uma epígrafe e um ensaio para ataques mais certeiros), ou no frescor inalterado de um velho filme - antes inacessível - do Grémillon.

Agora, que há um problema grave quando pessoas, "pelas causas certas", resolvem fazer a promoção do arrivismo puro e duro e do simples mau-caratismo (justificado por "saber exatamente o que se quer e se colocar em posição pra conseguir") - ah, isso há. Não adianta muito inverter McCarthy no seu corolário gramsciano para justificar ações mafiosas.

Ricardo Pretti disse...

totalmente de acordo quanto ao brisseau (mesmo sem ter visto o seu último filme), mas acrescentaria outros filmes como Vai e Vem.
e realmente acredito que o lugar de quem faz cinema (diretor ou crítico) não é se munir de "causas certas", pois isso é o primeiro passo no caminho de cometer atos terríveis.
mas ao mesmo tempo muitas vezes podemos estar habitando o centro do terror e mesmo assim clamar pela liberdade como acredito fazem mizoguchi e ford, ainda hoje, através de suas obras.

Millard Fillmore disse...

essa de que em ford as coisas são "infinitamente mais complexas" é exatamente o tipo de sensatez, polidez pseudo-iluminada anti-conservadora que desperta e legitima uma patrulha higiênica contra petismos e petismos fantasiados de ovelhinha pacífica da discussão ampla. uma patrulha justa, pelo menos para quem já leu 10 páginas da história dessa civilização. tenha paciência.

pra mim tá automaticamente desqualificada da crítica essa consideração "das coisas são infinitamente mais complexas". isso é polidez intelectual covarde à moda, não exatamente do arrivismo, mas da política universitária de pensadores vigaristas, que usam a "complexidade" óbvia de qualquer filme e qualquer coisa na vida para vender luz e se posicionar de forma a, na última conta, desqualificar a verdade além da obviedade de "que as coisas são complexas". o mundo de um certo pedaço da história é mostrado, filmado, e diante desse mundo há uma visão sobre humanidade e (a história da) moral, que está no tecido espiritual do filme, esse que esquerdista não detecta. vai se fuder.

Millard Fillmore disse...

só um petista mesmo pra acreditar que o pt não tem 3000 anos, mas os ditos 30 - e por isso tem que pegar leve, na "razão", a título de "refundar o equilíbrio do olhar, as coisas são complexas, um radicalismo é irmão do outro". se o schopenhauer tivesse vivo e fosse brasileiro ele seria policial ou vendedor de armas.

Millard Fillmore disse...

obra-prima:

http://www.revistacinetica.com.br/osomaoredor.htm

(ou, como tornar a obsessão pelo recalque (pstuismo) numa forma de texto)

Ricardo Pretti disse...

acho o ford mais complexo porque vejo/sinto/vivo um dilaceramento descomunal diante do mundo (uma inadequação, como também mizoguchi, sternberg, dwan, entre outros). mas o vidor, ao meu ver, conseguia expor o lado sexual das coisas como poucos até hoje.
como não sou crítico posso me dar ao luxo de achar coisas inifinitamente mais complexas que outras. eu tenho muita paciência quando é pra falar de cinema, pra mim um eterno descobrir contra o impulso das certezas.

bruno andrade disse...

Voltando agora à programação normal - filmes.

k.lincoln disse...

que feio, tem gente aqui que não apoia que faxineiras subsidiem filminho de estudante da USP...

http://www.dicta.com.br/a-lei-rouanet/

Igor disse...

Bruno, uma dúvida: no primeiro comentário você define mise en scène como abstração.
A discussão desviou de rota, eu acabei não questionando no momento, mas acho que não entendi o que você quis dizer ao chamar a encenação por abstração, pois eu achava justamente o contrário.

bruno andrade disse...

A abstração é tanto um princípio da mise en scène como a sua decorrência direta. À câmera resta sustentar concretamente essa "operação pela qual o espírito considera separadamente coisas inseparáveis na natureza" - ou seja, ela faz no espaço e no tempo uma seleção dos elementos que compõem a mise en scène, esta última sendo a unidade, a comunhão, a fusão desses elementos. Ela representa, ordena, geometriza esses elementos previamente privilegiados. Ela está tanto na construção, no roteiro de um filme como na leitura, na interpretação desse roteiro - duas etapas de uma mesma coisa. Uma boa bibliografia é o texto do Rivette sobre Beyond a Reasonable Doubt.

bruno andrade disse...

"Ela" = mise en scène

Igor disse...

Entendi. Essa palavrinha confunde! (Já que abarca tanto a acepção de concentração como de alheamento – esta última a que eu estava levando em conta). E ainda que a crítica de Rivette leve à acepção da abstração como escolha e isolamento do objeto de reflexão (e concordo que seja um critério ou princípio para a encenação), a impressão que me causou é que, neste caso, ele não define a abstração como princípio e fim da encenação (conforme seu comentário), em vez disso, a meu ver, ele separa uma da outra: “Embora o que estávamos assistindo fosse menos à encenação de um roteiro do que simplesmente a leitura deste roteiro, apresentado a nós justamente como é, sem embelezamento”. Na verdade, assim como a própria palavra, também o uso que o Rivette faz dela nessa crítica me confunde: “esta repentina fusão em uma única vibração de todos os elementos até aqui mantidos separados pelos propósitos abstratos e discursivos”; ”Qualquer coisa que possa determinar ou atualizar [séries de momentos puros que subsistem da destruição da cena] mais concretamente não é abstraída ou suprimida, (...) mas desvalorizada e reduzida à condição de pura referência espaço-temporal, substancialmente esvaziada”; e “Lang é o cineasta do conceito, o que sugere que não se pode falar em abstração ou estilização em relação a ele sem cair no equívoco (...)” (meus negritos). A ideia inicial, no meu entendimento da crítica, é que no filme a encenação é descartada e a ela se opõe uma outra operação. Ele usa a palavra “necessidade” – “ou lógica, para usar um dos termos favoritos de Rossellini”. Enfim, e recorrendo ao texto do João Gabriel Paixão sobre o mesmo filme, dá para definir essa operação por: “um estilo regido pela neutralidade, opacidade, pela economia mais rígida de recursos”; “(...) O que sobra é este vácuo, espaço idealizado imune das artimanhas do discurso e da imprecisão da palavra”.
Eu não separaria abstração (como escolha e isolamento do objeto de reflexão) de encenação, mas também não a escalaria como a definição última da encenação. Diria antes: uma das definições, ou um dos critérios. Mesmo admitindo que o cineasta (ao menos o bom cineasta) organize sua encenação através de escolhas conscientes e rigorosamente planejadas (não necessariamente redutoras), como encaixar a encenação, por exemplo, de um Michael Cimino, na acepção de abstração que Rivette faz no caso do Suplício de uma Alma?
Como não li a crítica do Rivette no seu idioma original, admito meu possível erro de leitura.

bruno andrade disse...

Tava meio apreensivo que ao falar em "decorrência" talvez estivesse abrindo porta à confusão. Mas enfim: por "decorrência direta" (ênfase no 'direta') não quis realmente dizer 'fim'. O que seria de fato o fim desse trabalho de abstração é justamente o 'distanciamento', a 'fascinação', o 'estupor' e o 'terror' (Moullet) ou ainda, para usar um termo caro ao Rivette, um 'mistério'. A forma como a sensibilidade do espectador é solicitada, e também a forma pela qual ele a submete ao material fílmico que tem à frente.

A abstração seria, então, tanto a idéia como a estrutura (construção - dramática, narrativa, romanesca, jornalística, ensaística) pela qual a idéia é 'isolada como objeto de reflexão' (foi ótimo você falar nisso, e nesses termos). Engraçado você falar em Cimino porque há uns anos atrás eu faria a mesma pergunta que você me fez, e hoje eu acho extremamente fácil vê-lo precisamente como o tipo de cineasta em que a necessidade e a lógica regem completamente o trabalho formal - isso é especialmente visível em O Franco Atirador, O Siciliano e Na Trilha do Sol (sobre o qual falei algumas coisas a esse respeito aqui).

Não se trata, é certo, de se pensar ou se conceber a abstração como o santo graal, a definição última da encenação - é isso o que fazem os sensorialistas, os semiólogos, os sutis, todos esses hipocondríacos e sofistas da imagem sem os quais o cinema e o pensamento sobre cinema estariam hoje bem melhor. A mise en scène digna do nome é composta de inúmeros elementos; ela é por definição heterogênea, ou ao menos lida do início ao fim com a heterogeneidade. É exatamente por isso que falamos, e devemos falar, de abstração e não de homogeneidade (impossível em vista das próprias premissas de registro mecânico pelas quais o cinema vem a ser uma técnica, e basta ver os filmes mais chatos do Apichatpong para se dar conta do absurdo de qualquer tentativa de "homogeneidade" no cinema). Voltando a Astruc, que foi quem realmente pegou a questão e a pensou plenamente (o Rivette foi nesse sentido o melhor aluno, ou o mais aplicado, dos textos e das idéias do Astruc), trata-se de se estabelecer para fins de pensamento e de trabalho (mesmas coisas) algo como um princípio - um meio - um fim para o entendimento da mise en scène cinematográfica.

Igor disse...

Eu pensei em usar causa e efeito, mas simplifiquei grosseiramente com princípio e fim.
Impressionante que esse esforço que se fez no passado em apontar critérios, hoje, quando reafirmado e sustentado pelo exercício austero de manter firme um fundamento, acaba alcunhado como reacionário, no lugar de seu adjetivo mais adequado: criterioso.
Ter um critério exige a negação total daquilo que não parte deste critério. Essa negação não é uma atitude reacionária, mas a afirmação do critério. E isso devia ser algo elementar.
Mas esse adendo foi apenas para expressar solidariedade com a sua indignação manifestada no outro dia.
Quanto ao Cimino, eu tinha pensado em O Portal do Paraíso, e contrapondo ao texto do Rivette, quando ele escreve sobre a negação de uma plausibilidade, ou quando escreve que o filme do Lang não faz nenhuma concessão ao cotidiano, ao detalhe: “nenhuma observação sobre o tempo, o corte de um vestido, a graciosidade de um gesto”. Essa abstração não só como isolamento, mas também como redução. Por isso falei em operações distintas. E você falou em heterogeneidade. Certamente ambos falamos em critérios.

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