quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Para os brechtianos de plantão (ou seja, para os que como Losey, Ford, Gray e Straub entendem brechtismo não como mostrar câmeras e refletores dentro da cena, entupindo o plano de grafismos gratuitos a fim de hipertrofiá-lo de "significações" ou inserindo claquete batendo na frente da câmera para "acusar/acentuar o dispositivo", mas sim como "a importância da precisão do gesto, da textura e da linha nos objetos", "a economia do movimento, de atores e de câmeras; não fazer nada se mexer sem propósito; a diferença entre calma e estatismo"): Troublemakers no KG e A Velha Dama Indigna no MKO.

21 comentários:

bruno andrade disse...

Aqui.

bruno andrade disse...

Complemento: La nave delle donne maledette A CORES no KG.

bruno andrade disse...

Unlike the classic melodrama with more intellectual pretensions, there is no logical order in this film - just a series of often predictable scenes that are not always seam­lessly tied together, but are redeemed by their symbolic Pavlovian meaning. Without superfluous explanations and built around the conditioned reflexes of viewers experi­enced in the genre, the movie uses canoni­cal images to awaken hatred, desperation, or pity; tears may be shed. The result could be compared to surrealist collages. By cutting out and re-assembling common elements, the usual becomes unusual. But clearly, in cinema, every moment of poetry is involun­tary [...].

bruno andrade disse...

"a importância da precisão do gesto, da textura e da linha nos objetos"

"a economia do movimento, de atores e de câmeras; não fazer nada se mexer sem propósito; a diferença entre calma e estatismo"

Ou, mais simplesmente, Brecht.

Ou ainda: a diferença entre portugueses e brasileiros. Entre Pedro Costa e os nossos Ainouzes.

Portugal: Cinemateca Nacional passa Le legioni di Cleopatra em 35 mm. restaurado.

Brasil: "quem é Cottafavi? Tem filme dele passando na Mostra?"

Igor disse...

Boa! Sem confundir essas operações com puro calculismo, e sem excluir delas a espontaneidade.
No fundo nem deveriam ser características de um ou outro pensamento estético, mas a praxe e o cuidado de quem quer que opte em trabalhar com esse material, que é todo linguagem, portanto, eminentemente deliberativo.
Qualidades elementares daquilo que divide os filmes bons dos ruins, ou, aqueles em que há essa consciência e reconhecimento de cada movimento e aqueles outros onde a arbitrariedade e a negligência se entrelaçam num casamento irresponsavelmente nefasto, não fosse seu efeito apenas mau e nulo. Estes não sobreviveriam não houvessem os mauvais spectateurs para os legitimar.

Igor disse...

No final acabei não concluindo como planejei: perguntando quais as justificativas que o Rissient usa quando faz a defesa de Tarantino e Oliver Stone?
É um contraditório precioso para mim, pois até agora não houve argumento que me convencesse de que as qualidades de Tarantino ou de Oliver Stone pudessem sobressair-se em meio à densa névoa de defeitos que formam seus filmes.

bruno andrade disse...

Opa,

aqui e aqui (Pierre Rissient, who promised us a meeting with the filmmaker, said of Death Proof, a few days before the festival opened: “It’s a proletarian’s film.” Michel Ciment, always funny, replied that this wasn’t sufficient to make it a good film.

Sorry, Stunt Mike, but apparently, it is.).

(no caso de ler o que foi escrito sobre La France e Bozon: sim, Burdeau é, como os seus seguidores, uma grotesca caricatura de cacique/patrulheiro cultural da esquerda frankfurto-sorbonneana, o sujeito diretamente responsável pelo sepultamento da editoria dos Cahiers sob a forma de liderança estudantil acadêmica de esquerda jardim-de-infância, absolutamente incapaz de construir uma imagem, uma frase, um arremate minimamente dignos de um crítico de arte, substituindo a crítica e a análise por tiradinhas e sinapses medíocres que se pretendem sintéticas quando são na realidade lacunas de um pensamento jamais completa ou convincentemente desenvolvido. Já era triste naquela época modorrenta do miolo dos anos 2000, lido hoje em dia é só 49 vezes pior)

bruno andrade disse...

Mesmo com todos os problemas que sua editoria tem, ao menos o Delorme saca mais as coisas e tenta fazer um trabalho melhor. Apesar de ser impossível ressuscitar os Cahiers após um envenenamento suicida que durou 30 anos (o que se segue à saída dos Daney/Skorecki/Narboni/Biette da revista).

Igor disse...

Bem, “um filme de proletário” não quer dizer muita coisa, seja para o bem, seja para o mal (a réplica do Michel Ciment me pareceu mais acertada do que funny).
Dei uma busca no Google associando Rissient e Tarantino e foram apontados mais de 7.000 resultados, então há material aí para eu dar uma espiada em alguma coisa. O primeiro link que você disponibilizou não funcionou.
Quanto ao Emmanuel Burdeau sobre o La France: é mesmo espantoso.
Vamos ver, ele começa seu texto denunciando um “desvio” dos jovens cineastas franceses por, segundo Burdeau, terem a necessidade de se distanciarem do presente, para logo depois, em um dos parágrafos finais questionar o filme por “evitar a descrição do período no qual foi realizado”, buscar a atemporalidade, palavra esta que ele relaciona à palavra utopia, e caracteriza como símbolo do tempo. Ora, entre os numerosos motivos pelos quais admiramos grandes gênios da literatura como Shakespeare, Dostoievski e Kafka por exemplo, estão os aspectos atemporais e universais de seus romances. Se Bozon escolhe 90 anos antes para ambientar seu filme, não podemos indagar que talvez seu interesse esteja em algo que parta daquele cenário, daqueles acontecimentos da Guerra, mas para alçar um voo mais alto? Burdeau acertou: a qualidade do filme La France está mesmo no que há de atemporal, afinal. Portanto, ontológico mais do que político, diferente do que sugere Burdeau (“obviamente o período foi escolhido por razões políticas”), tropeçando no próprio argumento indeciso que, logo em seguida, reclama da neutralização política do filme, ou ainda, depois, de uma “política despolitizada, puramente sentimental”. Acho que fica claro. Ele desaprova, pois o filme não se pauta politicamente, e isso ele parece não aceitar.
Ah, para terminar, o filme também é detestável porque é pop. Fiquei intrigado. Qual seria a definição de pop para Burdeau? Ele mesmo explica: não é no sentido depreciativo. Usa pop como usaria as palavras neutro ou soft (macio, flexível, mole, conforme o dicionário Michaelis). Ah bom! Está aí, o crítico arranjou uma nova definição para a palavra. Convenhamos, a neutralidade está para o pop como o detergente está para o óleo. Não se misturam. Certamente Burdeau não aplicaria o adjetivo (refiro-me a pop) aos filmes de Tarantino. Considerando a definição de Burdeau da palavra, eu mesmo não aplicaria.
Peço licença pelo extenso comentário, mas não pude resistir, o texto do Burdeau é uma provocação barata. É somente um texto vingativo, como o parágrafo que reproduzo deixa transparecer:
Films are not required to talk about today. In a beautiful text in La Lettre du Cinéma about Louis Skorecki, Bozon was intelligently poking fun at the sociological tendency in French criticism, at the way it treats cinema as a category of current events, along with TV news: any film would therefore be a commentary about the world as it is. This type of reading can be simplistic, and may incidentally have become obsolete. The question remains, however: can a film in any way avoid describing the period in which it was made? Isn’t the utopia of intemporality itself a symbol of time? Isn’t ending cinema with Preminger, Walsh and a few others precisely an over-historicization? Doesn’t it limit its eternity to some brief charmed parenthesis?
“Estamos falando do presente aqui”, proclama, agora abordando o filme do Tarantino. O que ele faria dois anos depois, quando Tarantino acaba tomando o “desvio” dos jovens cineastas franceses, essa necessidade – tão questionável! – de se distanciarem do presente?

Matheus Cartaxo disse...

Igor, vou me antecipar ao Bruno: o link que não abriu é um pdf. onde o Rissient tece breves comentários sobre alguns diretores e personalidades dos quais ele é próximo no cinema.

Sobre Tarantino, ele diz:

"C’est un excentrique, un phénomène. Si on ne voyait pas ses films on passerait à côté de Tarantino. Il a un côté « zozo », quelque chose d’extraordinaire et de surréaliste. Je ne vois pas d’équivalent. Il est unique et c’est un redoutable metteur en scène. Je ne sais pas quels sont ses sujets mais c’est là et c’est vital. Son dernier film est très important et on est passé un peu à côté. On ne peut pas prévoir quel sera son prochain film."

E sobre Stone:

"J’ai peu aimé ses premiers films, ils étaient trop didactiques. Il s’est libéré de tout ça depuis. Lui, il a eu beaucoup de succès tout de suite, comme Werner Herzog, et cela ne lui a pas réussi. Maintenant ses films sont plus humains, plus réussis et je pense qu’il va encore nous surprendre."

Infelizmente escritos do Rissient são raros já desde os anos 60, o que em partes dificulta saber com maior precisão a opinião dele sobre esses e outros diretores.

***

A respeito da sua resposta, eu acho que ao dizer que aquele é “um filme de um proletário” o Rissient não está sendo condescendente para com alguma inclinação política que o filme tenha – embora seja isto que o Ciment repreenda em sua réplica e, pior, o Burdeau acate em sua assertiva. Em se tratando de Death Proof e não de um documentário sobre greves de operários, o comentário do Rissient me soa mais como uma metáfora para o teor explosivo e dinamitador do filme, característica que ele parece sim apreciar no Tarantino (“You’re a provocateur. Nice is not always best. You need to shake it up, say ‘fuck you.’” – Cannes, 2009).

bruno andrade disse...

O Burdeau é um robô burrão da esquerda acadêmica programado para falar (= repetir) merdas da esquerda acadêmica. A maior pérola nesse texto porém, para mim pelo menos, é quando ele escreve I’m not digressing: we’re talking about the present time here. No "tempo presente" no qual Burdeau não "digressiona" (ri-ró, ri-ró) dessa mesma edição do festival de Cannes passou um outro filme, bem mais importante que os de Bozon e Tarantino, de um cineasta bem melhor e mais relevante que ambos, um autor - de verdade, pois cineasta - que nos últimos 20 anos vem respondendo - "confrontando" seria a palavra mais correta - essas questões primárias que em 2007 o Burdeau se colocava como se fossem as últimas e mais profundas indagações já feitas sobre o cinema em qualquer época, numa união perfeita de pseudo-atrevimento (= ingenuidade, falta de humildade, ausência de erudição) com incompetência (= ingenuidade, falta de humildade, ausência de erudição).

O nome desse cineasta é James Gray, We Own the Night é o filme dele que passou na mesma edição de Cannes em que foram exibidos La France e Death Proof e esse pateta proselitista de bairro chique parisiense chamado Emmanuel Burdeau esnobou completamente o filme, com a cumplicidade de seus "comparsas" (os aluninhos que babam ovo para o professor), exatamente igual ao que uns outros patetas - estes da Cinética - fizeram na mesma época, cobrindo o mesmo festival, e mais ou menos a partir/através da mesma ótica (a da miopia) e dos mesmos argumentos (os mais passadistas e já embrionariamente ultrapassados).

Enfim, agradeça o esgotamento precoce da crítica de cinema nos primórdios desta década de 10 a figuras como essas. Para roubar dois termos bem infelizes, e usados de forma particularmente atroz por essa mula do Aubron, os diretamente responsáveis - como os patetas da Cinética - por essa "normalização" "deleuziana" de um século que, esperemos, não acabe "deleuziano" como quer essa gente.

bruno andrade disse...

No rabo dessa gente - 15.000.000.000.000.000 de vezes mais vertiginosamente moderno e clássico que eles. Sem falar que como discurso sobre o tempo - isto é, sobre a história - é muito mais pungente, elegante e sofisticado que tudo o que esses assoberbados lingüísticos são capazes.

bruno andrade disse...

Por sinal:

O que ele faria dois anos depois, quando Tarantino acaba tomando o “desvio” dos jovens cineastas franceses, essa necessidade – tão questionável! – de se distanciarem do presente?

Ótima pergunta, Igor. A resposta terrível, escrita logo após o Burdeau ter a bunda chutada dos escritórios dos Cahiers, justamente por cometer em forma de crítica esse terrível tipo de análise do discurso ("si Inglourious basterds retarde à ce point les scènes d'action, et si celles-ci sont d'une telle brièveté, c'est que l'essentiel du temps passe à circuler d'une langue à l'autre, à s'expliquer, à comparer les surnoms des uns et des autres, à faire durer le plaisir des questions, à s'attarder sur une intonation...")

bruno andrade disse...

José Oliveira diz:
Hoje vou ver o Bestseller na cinemateca

TCHÓIN!!!

E também Cop, o genial filme premingo-ellroyano do James B. Harris.

bruno andrade disse...

Aqui e aqui.

Se passarem Red Sonja nesse ciclo dos anos 80, é desde já o evento cinematográfico do ano junto com a exibição da cópia integral de Heaven's Gate. Se não passarem, o é igualmente.

bruno andrade disse...

Red Sonja que, para a desgraça do seu cinema - e com a exceção notável e plenamente feliz de Death Proof -, é o filme que o Tarantino vem indireta e escancaradamente refazendo desde Kill Bill, sendo que até agora não teve - e provavelmente jamais terá - os culhões para refazê-lo diretamente.

Igor disse...

Obrigado, Matheus. Tem a informação da data sobre o depoimento do Rissient? Ele fala de um último filme de Tarantino, “muito importante”. De qual se trata?
O Death Proof foi o único que ainda não vi, mas não tenho grande esperança. O que não gosto em Tarantino é o mesmo que não gosto nos irmãos Coen, a construção iconográfica de seus filmes como finalidade, a abordagem irrefletida desde os argumentos aos ângulos escolhidos, aos movimentos da câmera. Mas atenção, não estou dizendo que há desleixo, pelo contrário, há um zelo muito próprio, muito bem calculado em cada elemento, mas produzindo um material cínico, fragmentário, substancialmente esvaziado. Detesto recorrer a termos vagos e generalistas, mas minha memória não me permite ilustrar com exemplos agora, sob o risco de eu cometer alguma distorção.
E o meu problema com aquele texto do Burdeau é simples, ele faz a crítica não do que está no filme, mas do que não está. E, avise-me se só eu tive essa impressão, Bruno, mas no parágrafo que reproduzi do texto parece que há um ressentimento contra o que Bozon escreveu na La Lettre Du Cinéma e que o teria atingido. Ele então teria usado seu cargo na revista para se vingar. Isso eu acho inaceitável. Se o filme é ruim, ele devia apontar efetivamente, repito, o que há no filme de ruim. Não é suficiente enxovalhar um filme, mas enxovalhá-lo pelos motivos certos (parodiando o velho Pierre).
Acho que tem um punhado de críticos de cinema que escolheu a profissão errada. Eles deviam ter cursado sociologia – sem desmerecer o curso, mas parece ser mais propício ao que gostam de fazer. Eles usam o cinema como premissa para tecer análises sociais, discutir conceitos etc. Não precisam do cinema para isso, podem comentar os noticiários. Do bruto dos filmes, 90% passam pela peneira e os 10% retidos eles transformam em tópicos abstratos. Compartilho com você a mesma sensação e o mesmo desgosto.
Vou concluir com Rimbaud:
“J’ai dans la tête des routes dans les plaines souabes, des vues de Byzance, des remparts de Solyme; le culte de Marie, l’attendrissement sur le crucifié s’éveillent en moi parmi les mille féeries profanes. – Je suis assis, lépreux, sur les pots cassés et les orties, au pied d’un mur rongé par le soleil. – Plus tard, reître, j’aurais bivaqué sous les nuits d’Allemagne”.
Ao escolher certos critérios, Burdeau só tem a perder.

Matheus Cartaxo disse...

Igor, como o depoimento do Rissient foi colhido próximo do lançamento do documentário sobre ele, em 2007, creio que o Tarantino em questão seja o Death Proof.

Igor disse...

Uma correção: Compartilho com Bozon a mesma sensação e o mesmo desgosto.
Estava me referindo aos argumentos "simplistas" e "obsoletos" que Burdeau atribui a Bozon e que quis endossar.
Eles não gostam mesmo do passado, do início, das bases. O texto do link de 25 de maio que você disponibilizou é claro e redundante, as reclamações são comuns a Cyril Neyrat (crude), Hervé Aubron (back to basics) e Emmanuel Burdeau (a return to the fundamental things).
Pro espaço com todos aqueles cineastas negligenciados que Skorecki entrevistou nos anos 60. Bom mesmo é Tarantino, Fincher e Van Sant.
Cru? Básico? Retorno às coisas fundamentais? Eles devem odiar Tourneur. Uma velharia ultrapassada.

Igor disse...

Obrigado, Matheus.

bruno andrade disse...

Igor: não foi só você que teve essa impressão, garanto.

Rimbaud que, por sinal, foi muito mais moderno (= livre) e bem menos adoecido (na alma) que esse bando de alienados de laptops.

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