segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Sem dúvida, a indústria necessita deixar fora de circulação os verdadeiros criadores para que possam prosperar os suplantadores, os simuladores e os falsificadores (são tantos e tão venerados que é melhor nem nomeá-los) que hoje triunfam com facilidade e, para completar, entre os elogios unânimes e cada vez mais bregas de uma crítica majoritariamente cega e surda, que não pensa para melhor escrever ao ditado das modas.

18 comentários:

bruno andrade disse...

Cof Cof coberturas de festivais.

bruno andrade disse...

Tão bonitinho ver esses textos obsequiosos sobre o último Apichatpong - "ah, não é exatamente o que esperávamos, mas tem méritos"; "não se deixem abater, cinéfilos: ele tenta coisas novas com este filme, mesmo que não saibamos identificá-las pelo que são nem mesmo sejamos capazes de valorizá-las como tais, o que explica o resultado desigual que criticamente somos incapazes de explicar".

Interessante como isso em nada difere do que em tempos passados aconteceu com o Wenders, com o Hartley e com o Tsai: após o endeusamento desmedido, o apagamento progressivo (e sucessivamente maior a cada novo filme). O mesmo tatibitati, a mesma demissão crítica de sempre.

Chega a ser cômico na real.

k.lincoln disse...

Mas cê acha que, independente dessa supervalorização, o Apichatpong já teve algum valor? Particularmente, acho Mal dos Trópicos muito bom, mesmo. E quanto ao Hsiao-hsien Hou, entraria nesse quadro de ejaculação precoce da crítica ou seria mesmo um dos gigantes dos últimos 20/30 anos?

bruno andrade disse...

Teve, e provavelmente ainda tem. Mal dos Trópicos é, e permanece sendo, um filme muito bom, bonito mesmo, que não revejo desde 2004. Já Síndromes e um Século não apenas é um dos títulos mais antipáticos dos últimos anos como um filme que grita de falsidade do primeiro ao último frame: construído de forma fajuta, mecânica, à base de expedientes "conceituais" (na realidade bastante artificiais) que não se integram nem ao movimento nem à atmosfera sugerida, expedientes falsamente sutis (na realidade totalmente sem nuances na forma com que são estruturados, principalmente no final), cheio de apriorismos estruturais, intelectuais, epistemológicos mesmo de toda a espécie... Em suma, um filme que tem tudo o que impede que um filme funcione devidamente como um filme, o que portanto deslumbra neófito a torto e a direito.

Não vi Boonmee, Eternamente Sua é um filme interessante porém malandro (i.e. filme que cai numa revisão minimamente atenta e alerta), e essa coisa de filmes que não contundem, de indolência estética para com espectador indolente, já me encheu o saco. O mais importante plano já rodado, a mais importante imagem já registrada por uma câmera cinematográfica, no sentido que como plano (= duração) e como imagem (= fisicalidade) é a que mais dá a noção exata do que é e de como age a matéria cinematográfica, é a da onda que toma todo o quadro WarnerScope no iniciozinho do The Naked and the Dead do Walsh, imediatamente antes do crédito em que consta o título do filme. É isso o que chamo de contundência, e é exatamente isso o que o Apichatpong parece a cada novo filme mais e mais incapaz de investir no tempo e na robustez das imagens (diria mesmo, em relação ao Síndromes, que ele deliberadamente tenta esvaziar essa contundência, essa gravitação). Mal dos Trópicos é provavelmente seu filme mais contundente, talvez até mesmo contundido, ao menos na forma em que entendo essa contundência (i.e. Chloe chupando o pau do Gallo no final do Brown Bunny), embora nem se compare a filmes como Phenomena e I Walked With a Zombie que são muito mais siderantes, abstratos, sensoriais, sensuais, indescritíveis, muito mais sensíveis ao registro orgânico do mundo vivente, ao canto dos mistérios inexoráveis das coisas, muito mais cósmicos e por fim muito mais contundentes que qualquer Apichatpong.

Hou é do caralho, talvez sim um dos gigantes dos últimos 30 anos. Mas é bem como diz o Rissient, que não por acaso foi quem descobriu o Hou.

bruno andrade disse...

Essa homogeneidade, esse entorpecimento a que tendem os filmes do Apichatpong, homogeneidade e entorpecimento que são o que resta quando você esvazia da imagem esse risco dela se contundir ou se arriscar de alguma forma a qualquer tipo de contusão (esse risco, seu suspense, sua surpresa = Hitchcock, Buñuel, Brisseau), convocam uma adesão irrefletida e irrestrita da parte do espectador, o que explica bastante esse consenso absurdo - hoje em dia já caricatural, alarmante e grotesco - em torno de seus filmes, homogeneidade que protege seus espectadores como uma malha imperceptível, e imperceptivelmente entorpecente. Nada mais perigoso que combinar homogeneidade, entorpecimento e consenso - é como costumam nascer os fascismos.

bruno andrade disse...

Não sei se posso me fazer entender, mas acho que falta isso ao Joe:

De su singular belleza personal, a la que se refieren varios biógrafos, el espíritu puede, creo yo, hacerse una idea aproximada recurriendo a todas las nociones vagas, características, contenidas en la palabra romántica, palabra que sirve generalmente para representar los géneros de belleza que consisten sobre todo en la expresión. Poe tenía una frente amplia, dominadora, en la que ciertas protuberancias revelaban las facultades desbordantes que están encargadas de representar —construcción, comparación, causalidad — y donde predominaban en un orgullo tranquilo el sentido de la idealidad, el sentido estético por excelencia. Sin embargo, pese a esos dones, o aun a causa de esos privilegios exorbitantes, aquella cabeza, vista de perfil, no presentaba talvez un aspecto agradable. Como en todas las cosas excesivas por un sentido, un déficit podía originarse de la abundancia, una pobreza de la usurpación. Tenía unos ojos grandes, sombríos y luminosos a la vez, de un color incierto y tenebroso, tendiendo al violeta; la nariz, noble y sólida; la boca, fina y triste, aunque levemente sonriente; el cutis, moreno claro; el rostro, de ordinario, pálido; la fisonomía, un poco distraída e imperceptiblemente velada por una melancolía habitual.

(Edgar A. Poe: Su Vida y Sus Obras, Charles Baudelaire)

bruno andrade disse...

Tente imaginar o que é uma onda que avança e vem com tudo em direção à câmera até bater de frente, tomando toda a imagem ao som disto (primeira faixa) - bem, é basicamente o que falta nos filmes do Apichatpong.

bruno andrade disse...

J'appelle expérience un voyage au bout du possible de l'homme. Chacun peut ne pas faire ce voyage, mais, s'il le fait, cela suppose niées les autorités, les valeurs existantes, qui limitent le possible. Du fait qu'elle est negation d'autres valeurs, d'autres autorités, l'expérience ayant l'existence positive devient elle-même positivement la valeur et l'autorité.

bruno andrade disse...

(valeuzaço Tiago)

bruno andrade disse...

K.: você tem e-mail?

O meu é profondorosso83@hotmail.com

k.lincoln disse...

O que falta ao Joe tbm não seria algo muito próximo do que falta ao Malick de Tree of Life, por exemplo? Talvez o que tenha feito a (abismal) diferença na recepção desses dois filmes (to pensando no Boonmee)tenha sido menos a estética e mais a nossa abertura a tudo que flerte com orientalismo/panteísmo/geração-natureba e outras vacas sagradas da esquerda, enquanto o filme do Malick tem filiação claramente cristã; não sei, fico pensando...


bruninholincoln@hotmail.com

Igor disse...

A síntese do Rissient é tão simples e elementar que desmonta na base muita crítica que se esquece de que, para além do mundo abstrato, conceitual e ideal, o cinema é a escrita da matéria, segue o rastro e o vestígio de um mundo físico.
Ao entorpecimento adere-se injustificadamente, como por um feitiço, sem se dar pelo que se passa, ou, deixando passar, então, os motivos, as raisons.
A contundência gera atrito. É, pois, quase contrária ao entorpecimento.
A contundência fere, enquanto o entorpecimento apazigua. Aquela desperta, enquanto esta acalenta.
Por isso a aderência fácil ao que entorpece.
Mas não confundir. Pecados de Guerra; Era uma vez na América = contundência; Gaspar Noé, Lars Von Trier, Kim Ki-Duk = estratagema marketeiro.

bruno andrade disse...

(...) desmonta na base muita crítica que se esquece de que, para além do mundo abstrato, conceitual e ideal, o cinema é a escrita da matéria, segue o rastro e o vestígio de um mundo físico.

Tava falando exatamente disso com um amigo (também crítico) outro dia. Enfim... É exatamente isso, e eu incluiria como caso exemplar de contundência toda a seqüência Kylie Minogue de Holy Motors (tem um momento lá na Samaritaine que é simplesmente Grémillon + Cottafavi + Visconti + Guiguet). Que porrada esse filme...

K., como eu disse outra vez, aqui mesmo no blog: no fim das contas, o pessoal ama Apichatpong porque ele é exótico e faz realismo mágico em país de terceiro mundo. Típica admiração de colonizador por fetiches e bizarrices.

Agora, com as suas licenças, vou avançar na cegueira do meu "programa estético" revendo mais uma vez Holy Motors e, talvez, quem sabe, mais tarde, Vagas Estrelas da Ursa.

bruno andrade disse...

Como disse outro amigo, Carax/Lavant no HM é tipo o personagem do Eastwood em True Crime: faz em um dia o que todos não foram capazes de fazer em 10 anos.

Mais cinema no Lavant terminando uma guimba de cigarro que em todas as cauções pseudo-panteístas/geração-natureba desses filmes de e para deslumbrados.

bruno andrade disse...

Ver o Visconti amanhã; agora vou ou de Krull ou de Outland.

ed6711dc-1640-11e2-bbba-000bcdcb8a73 disse...

por falar em "cegueira":

politicamente idiota é estar com quase 40 anos e continuar a seguir um "programa estético" eminentemente petista: frankfurtiano, hobsbawmniano, "revolucionário", fetichista. sem falar em continuar DE FATO petista nas outras áreas do pensar, crendo nas inversões diabólicas das significações de república, direito, nobreza e justiça etc etc, para não contarmos da própria arte, que também entra nesse rocambole de populismo esclarecido e acadêmico; e sem falar em utilizar "programa estético" como se esse tipo de linguajar não fosse ridículo.

bruno andrade disse...

Pois é.

Engraçado quando se passa uma década toda vendo drone em tudo e depois se fala pejorativamente e com tom sentencioso de "programa estético". Pimenta no dos outros...

No mais, um "programa estético" (dá até um arrepio quando clico cada letra para compor as palavras que dão nesse termo...) tão ortodoxo, o meu, que o meu panteão inclui Leos Carax, Joseph L. Mankiewicz, Ferdinand Khittl e Harold Ramis. E, ao contrário de quem de fato se compele a seguir cartilhas, incapaz de me sentir na obrigação de aderir aos ares dos tempos, aos frissons de mecanismos e interesses culturais bastante escusos e imediatistas (ou seja, acríticos) para sair babando ovo de, consecutivamente: Assayas, Haynes, Apichatpong, Ainouz, Bonello, capa da semana que vem da Inrockuptibles etc. Assim como não me sinto na obrigação de gostar de Tarantino, Payne e Stone porque o Rissient fala bem deles, de desgostar do Rohmer por causa do texto do Lourcelles sobre O Raio Verde e por aí vai.

E já que falei em Haynes: ainda não suficientemente cego a ponto de entrar no coro de quem acha I'm Not There um evento, um marco limiar na história da (chantagem cultural da) pós-modernidade, ao invés da completa nulidade estética de picaretagem que aquilo é.

ed6711dc-1640-11e2-bbba-000bcdcb8a73 disse...

não saiu minha identificação na primeira postagem, não sei por quê...

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