domingo, 16 de dezembro de 2012

Ok, Ruy, vamos fingir então que a mesma revista não falou bem de Melancolia, Cavalo de Guerra, As Aventuras de Tintim, Cisne Negro, Honoré, Xavier Dolan, além de umas merdas insípidas ou simples papagaiadas nas quais você adora cair (obviamente na cola dos Cahiers - novidade...) tipo Super 8 e A Árvore da Vida, as quais já estão com os dias mais do que contados, e pelas quais você apenas manifesta sua já habitual incapacidade de discernimento somada a uma articulação precária de gosto com intuição e visão (lembra do Andrucha, Casa de Areia? Frat Pack? Aquele gênio-sumidade do McG que agora vai co-dirigir filme com Luc Besson? Feio feio fail...). É necessário ver os filmes, não só olhá-los, e basta ler as trivialidades que você escreve hoje em dia - sobre Hong, por exemplo - para dar-se conta de que já há algum tempo você se empenha mais no segundo que no primeiro, o que resulta nessa crítica puramente temática e tautológica que se pretende formalista da maneira mais apressada e desengonçada, e pelo seguinte: como formalista você tem que voltar pra escolinha, bicho, visto que o teu entendimento do papel e da importância da síntese da concepção na realização técnica dos filmes, do abstrato com o concreto, é uma coisa totalmente inorgânica, e portanto não só programática como praticamente nula. Quando muito, e talvez esta tenha sido a sua principal contribuição ou importância como crítico numa época já bastante remota, você consegue notar e escrever sobre o vácuo ao redor da estrutura, num reconhecimento bem superficial de certos conteúdos formais que, julgando pela leitura de um texto seu, existem numa ausência de qualquer estrutura, na inexistência de qualquer composição pela qual viriam a ganhar um peso, uma importância na forma com que atuam no interior do filme (a tal "tessitura" que vocês adoram suscitar mas que discutem sempre da forma mais vaga), ou mais simplesmente um papel (talvez por isso nenhuma análise real de um filme pelo ponto de vista da construção num texto seu). Antes de se falar de conceito, de idéia, de mise en scène em suma - que é o quê você e todos sempre tentam, com ou sem ciência, com ou sem partícipes mourletianos, demonsablonianos, rivettianos, bazinianos, labartheanos, bietteanos ou o que seja (Deleuze, Burdeau, Aumont, Tesson e o raio que o parta) - tem que saber ver minimamente a realização, e só a partir daí se pode ambicionar abordar aquilo que o teu amiguinho Roland Barthes chamava de "grau zero". Julgando pelo que você tem escrito já há alguns anos, passou da horinha de voltar ao be-a-bá - porque antes de Barthes vem Delluc, antes de Delluc vem Braque, antes de Braque algum japonês filósofo-samurai-pintor-eremita que daria uma surra em mim e em você.

Vamos aproveitar e fingir também que vocês, que adoram apontar os dedos para os que supostamente não dão "nomes aos bois", não são uns completos cagões cínicos que se utilizam politicamente tanto das indiretas como das diretas - quando, como e o quê for mais adequado para vocês. Política escrotíssima, diga-se de passagem, mas que não surpreende quem os conheceu da época da Contra.

Vamos continuar fingindo, inclusive, que não é você quem se ressente até hoje das duas esculhambadas que levou de mim por e-mail, logo após a cobertura do Festival do Rio de 2008 (em parte relacionadas a essa cobertura mas no geral tocantes ao teu projeto e ao teu trabalho lambão de editoria da Contra), ou seja, mais ou menos uns três meses depois de você ter pedido para a Juliana Fausto falar comigo para ver se eu topava escrever novamente para a Contra (pedido que antecede, inclusive, o convite que o LCOJr. e o Alpendre fizeram para que eu participasse da pauta Losey). Estranha cronologia essa: a pauta Losey sai, não recebo um senão seu, e depois dessa troca de e-mails nem um pouco amistosa, na qual fiz críticas duras, as quais ninguém nunca teve coragem de fazer por conta da tua postura verdadeiramente coerente de encarar quaisquer críticas feitas a você como um desacato, começa esse papo babaca e futriquento de neo-macmahonismo. Falando neste, você realmente quer que eu lembre desta vergonha de incompreensão e de má leitura sisuda e deformadora; quer que eu realmente sublinhe pérolas da heresia da incompreensão como "o cinema deveria lidar não com a realidade vivida em conjunto entre os indivíduos de uma comunidade, mas exclusivamente com os anseios mais marcadamente individuais e fantasiosos que temos –, essa frase e essa defesa do cinema exclusivamente pela fascinação assustam por retirar do cinema seu elo com o mundo real, fazendo com que uma mulher não seja uma mulher, mas a mulher; não um amor, mas o amor; não um gesto belo, mas o gesto belo por excelência"; quer que eu comente como é feio misturar semiologia com ontologia, cientificismo jeca com abstração, a tautologia mais vaga com uma objetividade vergonhosamente confundida com subjetividade; como, conseqüentemente, é estúpida a sugestão de que só poderia existir objetividade na ordinariedade, no mundano pelo mundano, zavattinismo ainda mais incompetente que o original; como é tosco alguém que fala em termos sub-Joyardianos do tipo "plano ponto-de-vista sentimental" querer a todo custo rechaçar o Mourlet por uma coisa que, por sinal, o Mourlet não faz porque simplesmente não existe no macmahonismo essa projeção de sentimentos e subjetividades pessoais nos filmes; como, em suma, é feio bancar o sabichão sem estudar direito as coisas... Ou eu posso te fazer um favor, tentar pegar leve e lembrar disto aqui, escrito um pouquinho antes da nossa desavença e, surpresa!, num tom bastante próximo do do macmahonismo, veja só. Mas talvez o que você deva fazer mesmo é lembrar do que falava de mim para as pessoas antes de ser colocado na parede naquele e-mail, lembrar o ponto em que isso muda e como difere de forma assustadoramente completa do que você diz hoje. Reveladora essa completa inversão das coisas, para não dizer simples desonestidade intelectual, algo por sinal bastante recorrente nos teus hábitos intelectuais... Famosa tática da falácia do espantalho.

Vamos fingir também que essa sua atitude de ditadorzinho patrulheiro formador de consensos não levou a crítica de cinema que nasce com a Contra primeiro prum puta impasse e depois pro brejo.

4 comentários:

bruno andrade disse...

Levando-se em conta o que tem feito a tua cabeça, Ruy - drone, pós-industrial, Burdeau, timinho europeu da moda, twittagem -, prefiro ser considerado "promissor".

bruno andrade disse...

E o que dizer de um truculento metido a malicioso que na hora H puxa a cartela da "decência"?

Alguns falariam de cinismo. Já eu prefiro chamar de covardia e mau teatro mesmo.

bruno andrade disse...

Ou: como arregar e tentar manter a pose.

Se engana que eu gosto.

bruno andrade disse...

Ai, soldadinhos...

Talvez vocês visitem este espaço para "se divertirem" porque secretamente sabem que vocês por vocês mesmos - isto é, sem amparo e legitimações alheias - são umas tristezas.

E se me conhecessem para além de comentário de mesa de bar, saberiam que, ao contrário das picuinhas que uns cariocas gostam de inventar para afago de consciência, eu não tenho absolutamente nenhum problema, nenhuma rixa com filme brasileiro - que o digam O Viajante, A Ostra e o Vento, os Sganzerla, os Coutinho menos rançosos, A Erva do Rato. Tenho problema, sempre tive, coisa que aparentemente muita gente não tem, é com filme ruim, seja norte-americano, brasileiro ou surinamense, quer se chame Cidade de Deus, A Concepção ou L'Apollonide.

Mas como diz o protagonista de um filme que adoro, e que numa feliz coincidência com o assunto tem como título Brasil: vaia de bêbado não vale.

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