quarta-feira, 12 de março de 2014

Não custa nada notar como a incapacidade da esquerda político-partidária brasileira em propor um espaço minimamente consistente de discussão política é análoga à dos realizadores do vulgo "novíssimo cinema brasileiro" - o cinema da especulação (geralmente mais para indefinição e imprecisão, visto que de uma maneira ou de outra tais realizadores adotam como método de abordagem alguma forma de investigação/dissecação/tese) conceitual; da inflação/vulgarização/hipertrofia sensorial; do combo "afetividade-sensibilidade-subjetividade" como caução cultural para justificar o que geralmente não passam de construções precárias de experiências/processos truncados - em compor um espaço cinematográfico visivo cativante, estimulante, sedutor, contundente, coerente ou minimamente propositivo (e é neste último quesito que a incapacidade/impotência expressa nos filmes desses realizadores se assemelha principalmente à da esquerda brasileira).

(quando muito, tais realizadores confundem a sedução e o jogo lúdico que podem estar envolvidos ou implicados por esse tipo de construção de espaço com o ato de folhear um catálogo de modas ou montar um álbum de fotografias de bibelôs de antiquário, cf. O Uivo da Gaita ou a pior forma possível de degenerar numa caricatura de roman-photo dos anos 50 o que em Antonioni, Resnais e principalmente Bressane era fruto de um trabalho rigoroso e metódico de abstração e inversão de coordenadas e expectativas)

O que quero dizer com tudo isto é: já passou da hora dos cineastas brasileiros deixarem de ler A Imagem-Tempo, Sob o Risco do Real e toda a sorte de diluições grosseiras ou oportunas e programáticas (cujo prazo de validade corresponde geralmente à temporada de premiações em festivais) e começarem a ler, com um pouquinho de empenho e paciência, Eric Rohmer. Ou: antes de agir como autor, pensar como cineasta.

Um comentário:

bruno andrade disse...

Para não falar da concepção e criação de um espaço sonoro estranha e contraditoriamente totalitário, ainda mais em filmes que no nível da montagem trabalham tanto a elipse, o elusivo e a lacuna. Impossível não ver como uma simples e ao mesmo tempo enorme contradição (e, em alguns casos, gritante contrafação) um desenho de som que reveste, anestesia, ameniza e entorpece continua e insistentemente através de extensas colchas compostas por burburinhos extracampo (as quais se alongam por passagens longuíssimas e mesmo por seqüências completas) aquilo que aparentemente é registrado no nível físico e sintetizado/acusado pela montagem como fenda, conflito, fratura, sugestão, choque, altercação, desordem, laconismo, selvageria, violência, impacto, desorientação, potência; um desenho de som e uma utilização/convocação do espaço fora de campo que acabam por reprimir e represar aquilo que esses filmes aparentemente (talvez seja mais justo dizer "superficialmente") buscam, algo como uma arte da selvageria do inconsciente, uma ordenação lancinante e quase ritualística dessa selvageria, que no cinema brasileiro teve em A Idade da Terra e Copacabana Mon Amour suas encarnações mais completas e insuperavelmente bem-sucedidas (dois filmes, vale notar, e a eles talvez devesse ser incluído A Lira do Delírio, cujo trabalho de som de forma alguma ameniza/amortece suas violências e potências, muito provavelmente porque seus diretores não carregavam nenhum complexo burguês de afetividade e respeito servil e obsequioso ao tabu cultural da subjetividade compartilhada).

Enfim: trapezista que assume e corre riscos não fica dependendo de rede, nem muito menos do feitiço de tapeçaria envolvente ou de hipnotismo (já que nesse caso já se trata de um outro número).

Para se pensar um pouco mais detida e seriamente na questão:

"If one is striving to create a realistic space, the same thing must be done with sound. While I am writing these lines, I can hear church bells ring in the distance; now I perceive the buzzing of the elevator; the distant, very-far away clang of a streetcar, the clock of city hall, a door slamming. All these sounds would exist, too, if the walls of my room, instead of seeing a man working, were witnessing a moving, dramatic scene as background to which these sounds might even take on symbolic value -- is it right then to leave them out? ... In the real sound film, the real diction, corresponding to the unpainted face in an actually lived-in room, means common everyday speech as it is spoken by ordinary people."

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