sábado, 5 de abril de 2014

A Renascença assinalou, portanto, o momento solene em que sobreveio a ruptura da unidade cristã. Mas um drama, por mais terrível que seja, nada muda na verdadeira natureza dos seres que nele participam. No máximo alterará os traços de suas fisionomias, que se tornam mais tensas, mais vincadas e doloridas. Que pena a História ser tão jovem que não possamos abarcar cem mil anos ou mais da nossa espantosa aventura para mostrar que em nada mudamos, que as variações dos nossos gestos apenas exprimem os movimentos interiores que, a cada 10 ou 20 séculos, subvertem os nossos hábitos mas deixam intactos os nossos instintos e, por conseguinte, os nossos sentimentos profundos, os nossos recursos e necessidades. Quer surja aqui o indivíduo para recolher a embriaguez de viver prestes a extinguir-se no coração das multidões, quer as multidões, num outro dia, tomadas de uma febre gigantesca, ajam, pensem e criem como um só indivíduo, apesar de tudo, uma solidariedade invencível une as manifestações mais primitivas da nossa emoção em presença do mundo às mais conscientes, às mais elevadas, às mais desprendidas de todo o espírito gregário dentre elas - sob condição, é claro, de que essa emoção exista. Os afrescos da Sistina estão muito menos longe das pinturas rupestres dos trogloditas que os precederam de 150 ou 200 séculos do que esses mesmos afrescos de muitas obras de escola que eles inspiraram direta e imediatamente. A unidade da arte, graças à sensibilidade do homem, sobreviveu à ruptura da unidade da consciência que sua inteligência teve que desfazer para escapar à morte.







Conforme vimos a respeito da Idade Média, a nossa sensibilidade diante da prodigiosa diversidade das imagens pode conhecer uma hora comovente, aquela hora em que se apercebe do parentesco de todas essas imagens e retorna, para cada uma delas, ao homem interior e solitário. Mas, evidentemente, o estudo apaixonado de cada obra de arte, depois de cada artista, depois de cada escola, depois de cada povo, durante toda a sua história, em suas expressões alegóricas, é o único caminho que leva ao reencontro com esse homem. É necessário, portanto, aprender a reconhecer em cada indivíduo o espírito da espécie, depois o espírito da época, e também, nos monumentos mais impessoais edificados pela espécie, seja em que época for, o espírito do indivíduo. Observar-se-á assim que o homem mudou muito pouco no tempo, tal como a Idade Média nos mostrou antes que ele mudava pouco no espaço, e que se pode não só reencontrar Dürer no operário alemão do século precedente ou Fouquet no santeiro gótico, mas também os gregos de Péricles nos de Venizelos, os germanos de Tácito nos alemães de Bismarck, os gauleses de César nos franceses de Charleroi. Poder-se-ia invocar também a imobilidade imensa da China, a mobilidade monótona da Índia. Apesar das migrações, invasões, cruzamentos, guerras, revoluções e mútuas interpenetrações, existe em cada povo um fundo quase imutável, proveniente, sem dúvida, do encontro do solo adotado com o impulso imemorial aplicado em sua origem e remetendo todas as tentativas de mudança e de emancipação ao mesmo tipo espiritual que o drama devasta, que a criação apazigua, que ora se adapta aos eventos ora se deixa, depois, sobrepujar por eles, atinge o ápice, logo agoniza, mas por toda parte e sempre se recusa a mudar. Que um mesmo povo tenha, um dia, construído o Partenon e, vinte e cinco séculos mais tarde, esteja sem cultura própria, arruinado moralmente por sua longa servidão, inteiramente desprovido de faculdades criadoras, não é então o mesmo povo, se conservou sua turbulência, sua paixão pela guerra e a chicana, esse nacionalismo ideal que arruína todas as suas cidades, essa imaginação desenfreada que persegue um fantasma sempre visível, mas sempre dilacerado por suas mãos demasiado febris, esse frenesi de castigar aqueles que impele à aventura quando a aventura fracassa mas que não hesita em contestar-lhes o mérito quando a aventura tem êxito? Uma árvore deixará de ser a mesma árvore - a mesma oliveira, o mesmo loureiro, o mesmo carvalho - se, durante várias estações, não produzir frutos?





Não deve causar surpresa, portanto, ver, depois de mais de mil anos, o gênio italiano voltar a brotar entre suas ruínas, verde e vigoroso, não idêntico, por certo, mas análogo ao que foi, os arquitetos medirem os arcos caídos, auscultarem as pedras soterradas - não, como se acreditou, para aí buscar modelos, mas para cotejar seus cálculos com os dos antigos, suas intuições e seus desejos. Não se pode considerar anormal que em redor de Siena e de Florença, após dois mil anos de invasões incessantes, de renovações étnicas, estando a terra queimada pelas ferraduras dos corcéis de guerra, os sulcos dos arados ressequidos, os edifícios desaparecidos, se descubram ao escavar o solo, em covas mortuárias, figuras estranhas, sombras alongadas, doentias, visões de suplício e de morte, que são as irmãs, por seu caráter fúnebre, das formas débeis, inquietas, místicas, propensas pela alma a quebrar, de Taddeo Gaddi e de Andrea del Castagno, de Donatello e de Masaccio, de Botticelli e de Lippi, de Pollaiuolo e de Da Vinci, dos assustadores pintores da Capela dos Espanhóis e do Campo Santo de Pisa.








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